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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
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O príncipe foge de casa

Cansado de fazer papel decorativo,
o marido da rainha da Dinamarca
abandona o país

José Eduardo Barella


Há algo de podre no reino da Dinamarca. E, desta vez, é para valer. Cansado de exercer papel secundário na casa real mais antiga do mundo, o príncipe consorte Henrik simplesmente saiu de casa. Deixou para trás a rainha Margrethe, com quem está casado há 34 anos, e foi afogar as mágoas na vinícola que mantém em Caix, no sul da França. A crise existencial de Henrik, um francês de 67 anos, está longe de rivalizar com o drama do atormentado príncipe que William Shakespeare imortalizou em Hamlet, uma peça sobre intrigas na corte dinamarquesa, mas foi suficiente para abrir um transtorno sem precedentes na família real. O estopim foi uma rusga com o cerimonial durante a tradicional recepção de fim de ano no Palácio Real de Amalienborg, em Copenhague. Na ausência da rainha, que se recuperava de uma fratura numa costela, o papel de anfitrião da noite foi passado ao herdeiro da coroa, o príncipe Frederik, de 33 anos. A decisão irritou Henrik. Sentindo-se "humilhado", o príncipe consorte chutou o balde real numa entrevista a um jornal sensacionalista no domingo passado. "Depois de todos esses anos na Dinamarca exercendo o papel de número 2, não me agrada tornar-me subitamente o número 3", queixou-se Henrik, que comparou sua posição à de uma primeira-dama. "O 'primeiro-homem' sou eu, não meu filho."

Como não é todo dia que um príncipe consorte foge de casa, a rainha Margrethe, de 61 anos, deixou de lado as formalidades protocolares e correu atrás do marido, acompanhada do príncipe herdeiro. Numa tentativa de abafar a crise familiar, seus assessores se apressaram em providenciar uma foto dos três na frente do castelo em Caix e declarações de que em uma semana Henrik deveria voltar para casa. Nascido no sudoeste da França com o nome de Henri de Labordi de Monpezat e o título de conde, o príncipe consorte era um diplomata de carreira até conhecer a rainha. Além do herdeiro Frederik, o casal teve outro filho, Joachim, de 32 anos. Mesmo abrindo mão de religião, nacionalidade, carreira profissional e até do nome de batismo para poder casar-se com a popularíssima Margrethe, Henrik nunca caiu nas graças dos dinamarqueses. A origem nobre, em vez de facilitar, acabou dificultando sua adaptação ao novo país. Isso porque as regras da corte dinamarquesa são implacáveis com o príncipe consorte. Nas cerimônias oficiais, ele deve andar sempre dois passos atrás da soberana e não pode intervir nas conversas de Sua Majestade. Henrik enfrenta outra restrição desagradável. Diferentemente de outros consortes, ele não tem direito a verba pessoal e depende da rainha até para comprar uma pasta de dentes.

O drama do príncipe dinamarquês incomodado com as regras fora de moda da realeza não é exceção nas casas reais européias. É crescente o número de nobres de sangue azul propensos a passar por cima das rígidas tradições impostas pelo regime monárquico para tentar ser felizes. Como as famílias reais não dispõem mais de poder político, manter a tradição nos moldes antigos não é tarefa fácil. Hoje, elas dão-se por satisfeitas se o príncipe herdeiro arruma uma noiva de boa família – de sangue azul ou não. Da Noruega vêm os exemplos mais evidentes dessa nova tendência. O príncipe Haakon Magnus, de 28 anos, rompeu dois tabus de uma só vez no ano passado. Foi o primeiro herdeiro de um trono europeu a casar-se com uma mãe solteira e o primeiro príncipe a morar com uma mulher sob o mesmo teto antes de formalizar a união. A escolhida, Mette-Marit, viveu anteriormente com um sujeito que já havia sido condenado por tráfico de drogas. Neste ano, a princesa Märtha Louise, irmã do príncipe Haakon, decidiu abdicar dos privilégios da realeza para poder trabalhar. Pelas leis do país, os integrantes da família real não podem ganhar o próprio dinheiro. A princesa vai abrir uma clínica de fisioterapia alternativa e apresentar um programa de histórias infantis na TV. Ela também deverá casar-se com um plebeu, o polêmico produtor de TV Ari Behn.

A família real de Mônaco é a que reúne o maior número de casos fora dos antigos padrões. A princesa Caroline já está no terceiro casamento, todos problemáticos ou simplesmente trágicos, como o em que o marido morreu num acidente. Sua irmã, Stéphanie, só conseguiu autorização para se casar com seu guarda-costas depois de ter tido dois filhos com ele. Separou-se e engravidou de novo – de outro guarda-costas. No ano passado, Stéphanie deixou a realeza européia de cabelo em pé ao unir-se a um dono de circo. Vive num trailer, perambulando pela Europa. O príncipe Albert, herdeiro do trono, continua solteiríssimo aos 43 anos, em meio a especulações sobre sua hesitação sistemática em procurar uma noiva.

AFP
Casamento do príncipe Willen-Alexander, da Holanda, com a argentina Máxima: festa da realeza embalada pelo tango


Com tantos escândalos, o casamento do príncipe Willem-Alexander, herdeiro do trono holandês, com a argentina Máxima Zorreguieta, na semana passada, ensaiou a volta do velho glamour das casas reais. A realeza européia estava presente em peso à cerimônia. Máxima vestia um modelo belíssimo desenhado pelo estilista Valentino, com cauda de 5 metros. Cerca de 70.000 pessoas saudaram os noivos nas ruas de Amsterdã, numa mostra da popularidade da monarquia no país. As coincidências com os casamentos memoráveis de outras épocas param por aí. O pai da noiva foi impedido de comparecer por ter sido ministro no regime militar argentino. Nessa condição, entendem os holandeses, ele tem alguma parcela de responsabilidade nas torturas e nos desaparecimentos promovidos pela ditadura. Sua ausência foi a condição imposta para que a união fosse autorizada pelo Parlamento. Mesmo assim, um grupo de holandeses protestou batendo panelas – numa alusão às manifestações que marcaram o início da atual crise política argentina. Em 1966, a então princesa herdeira Beatrix, mãe de Willem-Alexander, também causou polêmica ao se casar com o diplomata alemão Claus von Amsberg, antigo militante nazista.

A mulher do futuro rei da Holanda é um exemplo às avessas da nova geração. Enquanto Märtha Louise, da Noruega, abriu mão da realeza para trabalhar, Máxima abandonou um emprego no mercado financeiro para abraçar a vida de princesa. Ela deveria ouvir alguns conselhos do sogro para não se arrepender. O príncipe consorte Claus, um dos integrantes da família real mais respeitados na Holanda, luta há anos contra a depressão – mesmo mal que agora parece atingir o príncipe Henrik, da Dinamarca. É dura a vida da realeza.

 
 
   
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