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Tolice geográfica
Candidatos
tentam montar chapas
com equilíbrio regional, mas o eleitor
nem presta atenção nisso
Maurício
Lima
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| Jarbas, o vice cortejado por Serra: a região pesa menos que o partido |

Leia também |
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Uma das práticas
mais arraigadas na política brasileira
é a atenção ao equilíbrio regional na formação
de uma chapa presidencial. Se o candidato a presidente é do Sul,
o vice deve ser do Nordeste. Há uma regra não escrita segundo
a qual se o candidato é paulista ou carioca, o vice pode ser qualquer
coisa menos paulista ou carioca. Na semana passada, essa lógica
regional produziu novos movimentos na sucessão. O governador do
Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, em terceiro lugar nas pesquisas, convidou
para ser seu vice o senador José Alencar, do PL, cujo reduto é
Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país,
depois de São Paulo. Por motivo semelhante, Luís Inácio
Lula da Silva, do PT, também fez simpáticos acenos ao senador
mineiro. O tucano José Serra, por sua vez, já definiu o
parceiro ideal para embarcar em sua empreitada rumo ao Palácio
do Planalto. Para amenizar o rótulo de "candidato paulista", Serra
sonha com o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, um nordestino
cuja presença na disputa poderia dar um caráter mais "nacional"
à chapa tucana. O que poucos sabem é que a geografia, essa
que faz todo o sentido na cabeça dos políticos e move as
negociações de alianças, nas urnas não passa
de tolice.
"O vice
não transfere votos só porque vem de determinada região",
afirma o cientista político Antônio Lavareda, estrategista
da campanha de Roseana Sarney, o mesmo papel que cumpriu nas duas campanhas
vitoriosas do presidente Fernando Henrique. Os exemplos são abundantes.
Em 1989, na primeira eleição presidencial depois da ditadura
militar, Fernando Collor escolheu para vice o atual governador de Minas
Gerais, Itamar Franco. Carioca, mas dono de uma carreira política
em Alagoas, Collor imaginava que, com isso, arrebanharia o peso do eleitorado
mineiro. No primeiro turno, seu desempenho proporcional em Minas ficou
somente em 18º lugar entre os 27 Estados brasileiros. Nessa mesma
eleição, Leonel Brizola, gaúcho com reduto no Rio,
escolheu Fernando Lyra, de Pernambuco, com o objetivo de se fortalecer
no Nordeste. Foi um desastre. Brizola, que deixou por um triz de disputar
o segundo turno com Collor, cedendo o lugar a Lula, perdeu até
mesmo em Caruaru, a cidade de Fernando Lyra.
Respeitando
a lógica do equilíbrio regional, o presidente Fernando Henrique
começou sua primeira campanha, em 1994, tendo como vice o então
senador Guilherme Palmeira, de Alagoas. Atropelado por uma denúncia,
Palmeira cedeu seu lugar a outro nordestino, Marco Maciel, de Pernambuco.
A chapa foi vitoriosa, mas o desempenho no Nordeste ou em Pernambuco foi
igual ao do resto do país. Em 1998 se repetiu então a mesma
fórmula e a mesma chapa mas não o mesmo resultado.
Fernando Henrique conquistou 53% dos votos de todo o país, vencendo
logo no primeiro turno, mas no Nordeste, a região de Marco Maciel,
ficou até abaixo da média nacional: obteve 47% dos votos.
Os números mostram que ter um vice-presidente de uma região
não significa necessariamente boa votação naquele
domicílio eleitoral. Em geral, não faz a menor diferença.
É possível que esse cacoete brasileiro de insistir na diversidade
regional tenha fundo histórico. Afinal, a República Velha
(1889-1930), marcada pelo rodízio entre mineiros e paulistas no
poder, acabou por imprimir à história política do
Brasil uma imagem geográfica, embora a verdadeira razão
dessa alternância regional se devesse por interesses econômicos.
A justificativa
mais comum para essa tradição, no entanto, está no
fato de que o Brasil, com suas dimensões de um continente, exibe
profundas diferenças culturais entre as regiões, paisagem
que, uma vez contemplada numa chapa, ampliaria as chances de sucesso.
O mesmo cálculo era usado nos Estados Unidos, país cujo
território é igualmente imenso. Nos últimos anos,
porém, as eleições americanas enterraram a geografia.
O ex-presidente Bill Clinton, um sulista vindo do Arkansas, venceu duas
eleições tendo como vice outro sulista, Al Gore, do Tennessee
e isso num país que teve a história marcada por conflitos
entre o norte, rico e protestante, e o sul, pobre e escravocrata. Na última
eleição americana, deu-se um fenômeno ainda mais curioso:
os republicanos George W. Bush e seu vice, Dick Cheney, são do
Texas. Seria o equivalente, no Brasil, a montar uma chapa, digamos, com
os mineiros Itamar Franco e José Alencar. Com certeza, se isso
acontecesse, as vozes da experiência no Brasil logo vaticinariam
que a chapa, excessivamente mineira, estaria fadada à derrota.
É o mesmo raciocínio que leva analistas da cena política
a entender que seria um fracasso lançar uma chapa formada por Roseana
Sarney, do Maranhão, e Tasso Jereissati, do Ceará
ambos nordestinos.
Sergio Lima/Folha Imagem
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| Alencar: entre PT e PSB |
Naturalmente,
um vice pode fazer a diferença numa chapa, embora ela não
venha da questão regional. Se José Serra se acertar com
Jarbas Vasconcelos, poderá agregar densidade a sua chapa, não
porque se trata de um pernambucano, mas porque Jarbas é um político
bem avaliado, tem experiência administrativa e uma biografia digna
além do fato, sumamente relevante, de que pertence ao quadro
do PMDB, a legenda com mais ramificações em todo o território
nacional e dona de um precioso tempo de televisão, dado fundamental
na era do marketing e dos comícios eletrônicos. O PT de Lula,
por sua vez, poderia ter vantagens ao concorrer ao lado do senador José
Alencar. De novo: não porque José Alencar é mineiro,
e sim porque, sendo um empresário e filiado ao Partido Liberal,
poderia ampliar o caráter ideológico da candidatura petista.
"A escolha do vice é um dos principais instrumentos para ampliar
o espectro político-partidário da chapa, seu alcance ideológico
e também a imagem do candidato", diz o cientista político
Bolívar Lamounier.
O eleitor
brasileiro tem o hábito de só levar em conta a procedência
geográfica quando se trata do próprio cabeça de chapa.
Hoje, o governador Anthony Garotinho deve quase a metade de seus 15% nas
pesquisas ao eleitorado do Rio de Janeiro. Em 1994, Fernando Henrique
teve um desempenho ruim no Distrito Federal e em mais três Estados:
Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nos dois primeiros
casos, a razão é histórica, pois tanto o eleitorado
fluminense quanto o gaúcho têm inclinações
de esquerda. Mas por que FHC foi mal em Santa Catarina, um templo do PFL
que era, naquela eleição, aliado do presidente? Simples:
um dos candidatos presidenciais era Esperidião Amin, do PPR catarinense,
que abocanhou 23% do eleitorado de seu Estado. As eleições
presidenciais de 1998 também registraram o mesmo fenômeno.
Além de perder no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no Distrito
Federal, Fernando Henrique teve um desempenho pífio no Ceará.
Ciro Gomes, que já fora governador do Ceará e prefeito de
Fortaleza, era candidato presidencial e ficou com 34% dos votos
do Estado. O mesmo Fernando Lyra, que como candidato a vice-presidente
na chapa de Brizola não ganhou nem em sua cidade, recebendo apenas
16.000 votos, na eleição seguinte,
quando concorreu a deputado, teve mais de 30.000
votos. Mais um sinal de que a questão regional pesa como chumbo
para o cabeça de chapa e pesa como pluma para o candidato
vice.
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