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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
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Tolice geográfica

Candidatos tentam montar chapas
com equilíbrio regional, mas o eleitor
nem presta atenção nisso

Maurício Lima

 
Jarbas, o vice cortejado por Serra: a região pesa menos que o partido


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VEJA de 30/1/2002 - Os resultados da última pesquisa do Ibope para a presidência da República.

Uma das práticas mais arraigadas na política brasileira
é a atenção ao equilíbrio regional na formação de uma chapa presidencial. Se o candidato a presidente é do Sul, o vice deve ser do Nordeste. Há uma regra não escrita segundo a qual se o candidato é paulista ou carioca, o vice pode ser qualquer coisa – menos paulista ou carioca. Na semana passada, essa lógica regional produziu novos movimentos na sucessão. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, em terceiro lugar nas pesquisas, convidou para ser seu vice o senador José Alencar, do PL, cujo reduto é Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, depois de São Paulo. Por motivo semelhante, Luís Inácio Lula da Silva, do PT, também fez simpáticos acenos ao senador mineiro. O tucano José Serra, por sua vez, já definiu o parceiro ideal para embarcar em sua empreitada rumo ao Palácio do Planalto. Para amenizar o rótulo de "candidato paulista", Serra sonha com o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, um nordestino cuja presença na disputa poderia dar um caráter mais "nacional" à chapa tucana. O que poucos sabem é que a geografia, essa que faz todo o sentido na cabeça dos políticos e move as negociações de alianças, nas urnas não passa de tolice.

"O vice não transfere votos só porque vem de determinada região", afirma o cientista político Antônio Lavareda, estrategista da campanha de Roseana Sarney, o mesmo papel que cumpriu nas duas campanhas vitoriosas do presidente Fernando Henrique. Os exemplos são abundantes. Em 1989, na primeira eleição presidencial depois da ditadura militar, Fernando Collor escolheu para vice o atual governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Carioca, mas dono de uma carreira política em Alagoas, Collor imaginava que, com isso, arrebanharia o peso do eleitorado mineiro. No primeiro turno, seu desempenho proporcional em Minas ficou somente em 18º lugar entre os 27 Estados brasileiros. Nessa mesma eleição, Leonel Brizola, gaúcho com reduto no Rio, escolheu Fernando Lyra, de Pernambuco, com o objetivo de se fortalecer no Nordeste. Foi um desastre. Brizola, que deixou por um triz de disputar o segundo turno com Collor, cedendo o lugar a Lula, perdeu até mesmo em Caruaru, a cidade de Fernando Lyra.

Respeitando a lógica do equilíbrio regional, o presidente Fernando Henrique começou sua primeira campanha, em 1994, tendo como vice o então senador Guilherme Palmeira, de Alagoas. Atropelado por uma denúncia, Palmeira cedeu seu lugar a outro nordestino, Marco Maciel, de Pernambuco. A chapa foi vitoriosa, mas o desempenho no Nordeste ou em Pernambuco foi igual ao do resto do país. Em 1998 se repetiu então a mesma fórmula e a mesma chapa – mas não o mesmo resultado. Fernando Henrique conquistou 53% dos votos de todo o país, vencendo logo no primeiro turno, mas no Nordeste, a região de Marco Maciel, ficou até abaixo da média nacional: obteve 47% dos votos. Os números mostram que ter um vice-presidente de uma região não significa necessariamente boa votação naquele domicílio eleitoral. Em geral, não faz a menor diferença. É possível que esse cacoete brasileiro de insistir na diversidade regional tenha fundo histórico. Afinal, a República Velha (1889-1930), marcada pelo rodízio entre mineiros e paulistas no poder, acabou por imprimir à história política do Brasil uma imagem geográfica, embora a verdadeira razão dessa alternância regional se devesse por interesses econômicos.

A justificativa mais comum para essa tradição, no entanto, está no fato de que o Brasil, com suas dimensões de um continente, exibe profundas diferenças culturais entre as regiões, paisagem que, uma vez contemplada numa chapa, ampliaria as chances de sucesso. O mesmo cálculo era usado nos Estados Unidos, país cujo território é igualmente imenso. Nos últimos anos, porém, as eleições americanas enterraram a geografia. O ex-presidente Bill Clinton, um sulista vindo do Arkansas, venceu duas eleições tendo como vice outro sulista, Al Gore, do Tennessee – e isso num país que teve a história marcada por conflitos entre o norte, rico e protestante, e o sul, pobre e escravocrata. Na última eleição americana, deu-se um fenômeno ainda mais curioso: os republicanos George W. Bush e seu vice, Dick Cheney, são do Texas. Seria o equivalente, no Brasil, a montar uma chapa, digamos, com os mineiros Itamar Franco e José Alencar. Com certeza, se isso acontecesse, as vozes da experiência no Brasil logo vaticinariam que a chapa, excessivamente mineira, estaria fadada à derrota. É o mesmo raciocínio que leva analistas da cena política a entender que seria um fracasso lançar uma chapa formada por Roseana Sarney, do Maranhão, e Tasso Jereissati, do Ceará – ambos nordestinos.

Sergio Lima/Folha Imagem
Alencar: entre PT e PSB

Naturalmente, um vice pode fazer a diferença numa chapa, embora ela não venha da questão regional. Se José Serra se acertar com Jarbas Vasconcelos, poderá agregar densidade a sua chapa, não porque se trata de um pernambucano, mas porque Jarbas é um político bem avaliado, tem experiência administrativa e uma biografia digna – além do fato, sumamente relevante, de que pertence ao quadro do PMDB, a legenda com mais ramificações em todo o território nacional e dona de um precioso tempo de televisão, dado fundamental na era do marketing e dos comícios eletrônicos. O PT de Lula, por sua vez, poderia ter vantagens ao concorrer ao lado do senador José Alencar. De novo: não porque José Alencar é mineiro, e sim porque, sendo um empresário e filiado ao Partido Liberal, poderia ampliar o caráter ideológico da candidatura petista. "A escolha do vice é um dos principais instrumentos para ampliar o espectro político-partidário da chapa, seu alcance ideológico e também a imagem do candidato", diz o cientista político Bolívar Lamounier.

O eleitor brasileiro tem o hábito de só levar em conta a procedência geográfica quando se trata do próprio cabeça de chapa. Hoje, o governador Anthony Garotinho deve quase a metade de seus 15% nas pesquisas ao eleitorado do Rio de Janeiro. Em 1994, Fernando Henrique teve um desempenho ruim no Distrito Federal e em mais três Estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nos dois primeiros casos, a razão é histórica, pois tanto o eleitorado fluminense quanto o gaúcho têm inclinações de esquerda. Mas por que FHC foi mal em Santa Catarina, um templo do PFL que era, naquela eleição, aliado do presidente? Simples: um dos candidatos presidenciais era Esperidião Amin, do PPR catarinense, que abocanhou 23% do eleitorado de seu Estado. As eleições presidenciais de 1998 também registraram o mesmo fenômeno. Além de perder no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, Fernando Henrique teve um desempenho pífio no Ceará. Ciro Gomes, que já fora governador do Ceará e prefeito de Fortaleza, era candidato presidencial – e ficou com 34% dos votos do Estado. O mesmo Fernando Lyra, que como candidato a vice-presidente na chapa de Brizola não ganhou nem em sua cidade, recebendo apenas 16.000 votos, na eleição seguinte, quando concorreu a deputado, teve mais de 30.000 votos. Mais um sinal de que a questão regional pesa como chumbo para o cabeça de chapa – e pesa como pluma para o candidato vice.




 
 

   
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