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As cicatrizes do
cativeiro
Depois
do seqüestro, o retorno ao dia-a-dia traz à tona as seqüelas
do trauma
Anna Paula
Buchalla

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Recentemente,
o cantor evangélico Welington Camargo, de 29 anos, foi passear
com a família numa fazenda de amigos, no interior de Goiás.
De repente, ele ouviu o barulho de gansos. Vieram os tremores, a batedeira
no coração, o suor frio e a angústia. O cantor teve
de ir embora com a mulher e o filho de 8 anos. O desespero provocado pela
barulheira das aves é uma das cicatrizes que Welington carrega
do cativeiro. Do quarto em que ficou trancado por 96 dias, de dezembro
de 1998 a março de 1999, tinha de conviver com o alvoroço
de gansos, soltos ao redor da casa que lhe serviu de prisão. A
orelha esquerda cortada dois terços dela arrancados a faca
por seus algozes é a marca física deixada pelos bandidos.
A marca psicológica hoje dói mais. Passados três anos
do seqüestro, basta um som, um cheiro, uma imagem para trazer à
tona a lembrança dos horrores daquele tempo. "Freqüentemente
sonho que estou vivendo a mesma situação: preso no cativeiro,
ameaçado por aquelas pessoas", conta Welington. "É tudo
ainda muito real e presente."
Cristiana C. Branco
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| Wellington:
tremores e angústia ao ouvir gansos, lembrança do cativeiro |
O cantor, irmão da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano,
é vítima do que os médicos chamam de flashback, um
dos principais sintomas do stress pós-traumático. Definido
como doença em 1980, pela Associação Americana de
Psiquiatria, o distúrbio psíquico afeta seis em cada dez
vítimas de um episódio chocante. O rol de traumas é
extenso. Tão variado quanto a forma com que cada um lida com o
drama. Duas pessoas podem reagir de maneiras diferentes a um mesmo evento.
Há muito tempo a medicina estuda os principais traumas pelos quais
um ser humano pode passar. Um dos trabalhos, assinado pelo psiquiatra
Geraldo Ballone, da Pontifícia Universidade Católica de
Campinas, lista algumas fontes indiscutíveis de trauma de
uma agressão física a uma guerra. O seqüestro lidera
esse ranking. É tão traumático quanto a dor de uma
mãe pela morte do filho.
Em
um seqüestro, de uma hora para a outra a vítima é arrancada
de sua rotina. Planos são interrompidos. A identidade, dada pelas
mais comezinhas atividades, é comprometida. A vida, suspensa pela
ameaça da morte. "Essa interrupção brusca do dia-a-dia,
aliada à pressão psicológica pela qual passa o seqüestrado,
interfere no senso de realidade mesmo depois da libertação",
diz o psiquiatra Geraldo Massaro, do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Graças ao instinto de sobrevivência do ser humano,
dono de uma capacidade de adaptação quase sem limites, os
reféns, por mais adversas que sejam as condições,
conseguem não perder de vez o pé da realidade. Com a liberdade,
porém, o trauma se revela. Em 1994, depois de 75 dias de confinamento
em um quarto minúsculo, com som e luz ligados o tempo todo, o banqueiro
Ezequiel Nasser ficou cerca de três anos praticamente sem sair de
casa. Quando o fazia, estava sempre acompanhado de um forte esquema de
segurança. Era refém do medo. Um problema que afeta não
só a vítima mas toda a sua família. "Quando vou viajar,
meu filho me liga duas, três vezes por dia para saber onde estou.
E, antes de ir, tenho de mostrar meu destino no mapa", conta o cantor
Welington.
"Apesar
do sofrimento experimentado pelo seqüestro, é comum que os
reféns depois revivam o drama", afirma o psiquiatra paulista Cyro
Masci, da Academia Americana de Estresse Traumático. O terror é
tão grande que a memória daquele período fica congelada.
Essa lembrança compromete o dia-a-dia. Interfere no sono, na capacidade
de concentração, nos relacionamentos familiar e social.
É esperado até que as vítimas manifestem períodos
de euforia agitadas, não param de falar sobre o acontecido.
Esse quadro é normal. Mas, se persistir por mais de três
meses, é recomendável a intervenção de um
especialista. O diagnóstico inclui outros sintomas: medo incontrolável
e desproporcional, taquicardia, suor, tremor, respiração
curta e ofegante, sensação de que algo muito ruim está
sempre para acontecer. Na maioria dos casos, o quadro evolui para depressão,
fobia social e transtornos do pânico. O tratamento prevê a
associação de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos
e psicoterapia.
Marisa Uchiyama
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Claudio Rossi
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| Nasser
(à esq.) optou pela reclusão. Já Aronson
logo retomou sua rotina |
Pesquisas
recentes mostram que, em média, uma pessoa leva três meses
para superar a experiência. Alguns ficam paralisados pelo medo.
Outros, apesar do trauma, conseguem retomar a rotina. Foi o que aconteceu
com o empresário Girsz Aronson. Aos 81 anos, em setembro de 1998,
ficou catorze dias em poder de criminosos. Em liberdade, logo voltou ao
antigo ritmo de trabalho. Sônia Machado Jardim, uma das donas da
Editora Record, usou da mesma estratégia. Em 1997, ela passou 27
dias em poder dos bandidos. "No dia seguinte à minha libertação,
a primeira coisa que fiz foi ir ao cabeleireiro. Fui chorando, mas precisava
cuidar de mim. Se você não retoma a rotina, continua refém
dentro de casa", lembra ela, hoje com 45 anos. "Acho que consegui superar
bem." Superar não significa esquecer, mas aprender a conviver com
as recordações do cativeiro.
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