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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
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Perdidos na história

Só a falta de rumo, e de lógica, explica a existência de guerrilha na América Latina

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Em sua trajetória pessoal, o lendário guerrilheiro argentino Enrique Gorriarán Merlo encarna a história recente da esquerda armada na América Latina. Na década de 60, quando uma parte da juventude latino-americana estava encantada com a experiência de Cuba e se empolgava com a idéia de fazer a revolução socialista, Merlo se tornou um militante de esquerda. Em seguida, fundou uma organização armada, o Exército Revolucionário do Povo (ERP), que se tornaria um dos principais grupos guerrilheiros da Argentina. Exilado, foi ajudar a fazer a revolução sandinista na Nicarágua, vitoriosa em 1979. Na década de 80, porém, a realidade começou a mudar: as ditaduras militares na América do Sul caíram uma a uma, a democracia foi lentamente se estabelecendo, e Merlo, um guerrilheiro que participou de ações espetaculares, passou a zanzar pelo continente, sempre usando documentos falsos, em busca de uma revolução.

A esmagadora maioria dos guerrilheiros depôs as armas com a chegada da democracia a seu país. Nisso, no entanto, Merlo foi igual à minoria. Em 1989, embora a Argentina já estivesse em seu primeiro governo democrático pós-ditadura, ele meteu-se em mais uma ação terrorista em sua pátria – o assalto ao quartel de La Tablada, uma carnificina que resultou em 39 mortos de ambos os lados. Hoje, aos 60 anos, o ex-guerrilheiro cumpre pena de prisão perpétua numa penitenciária em Buenos Aires e diz que não se arrepende do que fez, mas até ele, que chegou a patrocinar o terror numa era democrática, reconhece o óbvio: os tempos mudaram. "No mundo atual, não há espaço para a luta armada. A esquerda deve buscar seus objetivos por meio das instituições democráticas", disse ele, numa entrevista recente.

O surpreendente é que nem todos pensam assim. É o que mostra o surgimento, de vez em quando, de um ou outro guerrilheiro ainda em atividade, geralmente vinculado a organizações da Argentina ou do Chile. Em 1989, os seqüestradores de Abilio Diniz se diziam militantes do MIR, um movimento armado do Chile. Agora, o líder do seqüestro de Washington Olivetto, o chileno Mauricio Norambuena, é apontado como homem da alta hierarquia da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, organização que nasceu na década de 80 como braço armado do Partido Comunista Chileno. Na época, os seqüestradores de Diniz disseram que atuavam em favor da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, a guerrilha de El Salvador. Os seqüestradores de Olivetto nem isso poderiam dizer, pois a guerrilha salvadorenha acabou. Desde 1992, a FMLN não dá um tiro, virou partido político e aderiu às regras do jogo democrático.

O que pretende um guerrilheiro latino-americano em pleno século XXI? São personagens avulsos do passado que, perdidos na história, ocasionalmente assaltam o presente. "Eu não vejo nenhuma razão histórica que justifique a existência de guerrilha no Chile, muito menos na Argentina", diz João Clemente Baena Soares, o embaixador brasileiro que, na condição de secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), patrocinou os acordos que levaram à pacificação da Nicarágua e ganhou popularidade digna de ídolo pop. "A guerrilha foi resultado de um contexto histórico. Hoje, é outro momento, as pessoas podem sair às ruas para se manifestar", concorda Humberto Paz, o argentino que integrou a quadrilha que seqüestrou Diniz e, antes, havia militado nas fileiras do mesmo ERP fundado por Merlo.

Na América Latina, há apenas dois países com o drama da guerrilha. No sul do México, no Estado de Chiapas, atua o movimento zapatista, cujo nome se inspira em Emiliano Zapata, herói da revolta camponesa do início do século passado. Seus militantes lutam contra a enorme desigualdade entre o norte abastado e o sul miserável, mas os zapatistas já foram mais ou menos domesticados pelo governo. O outro país, a Colômbia, é um caso à parte. É uma nação conflagrada por uma guerra civil. Ali, tem-se a presença do Exército de Libertação Nacional, que costuma extorquir empresas, seqüestrar executivos e explodir obras. Pior são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, cujos integrantes assaltam fazendeiros, vendem segurança a agricultores que plantam coca e se envolveram com o narcotráfico. São um misto de violência política e bandidagem comum. Mas contra quem lutaria uma guerrilha na Argentina, que fará vinte anos de democracia no ano que vem? Ou no Chile, cujo presidente é democraticamente eleito e cujo tirano, o general Augusto Pinochet, está entrevado no ócio?

É possível que, em alguns casos, sejam grupos tão desorientados com os rumos da história que acabam descambando para o crime comum. Foi o que aconteceu com alguns na Nicarágua depois dos acordos de paz que inauguraram a era democrática. Todos assinaram os acordos, mas houve grupos que se recusaram a entregar as armas – e foram chafurdar no crime comum. Não se trata, também, de uma peculiaridade de esquerda. No Brasil, por exemplo, ocorreu o contrário: não se tem notícia de nenhum grupo guerrilheiro em atividade ou que se tenha deteriorado a ponto de cair na bandidagem comum. Entre os militares que atuaram na repressão durante a ditadura, porém, há os que foram dedicar-se ao jogo do bicho, ao tráfico de drogas, à pistolagem ou à espionagem clandestina. Está evidente que, para alguns, é mais fácil viver do passado que encarar o presente.

 
 
   
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