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Perdidos na história
Só
a falta de rumo, e de lógica, explica a existência de guerrilha
na América Latina

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Em sua trajetória
pessoal, o lendário guerrilheiro argentino Enrique Gorriarán
Merlo encarna a história recente da esquerda armada na América
Latina. Na década de 60, quando uma parte da juventude latino-americana
estava encantada com a experiência de Cuba e se empolgava com a
idéia de fazer a revolução socialista, Merlo se tornou
um militante de esquerda. Em seguida, fundou uma organização
armada, o Exército Revolucionário do Povo (ERP), que se
tornaria um dos principais grupos guerrilheiros da Argentina. Exilado,
foi ajudar a fazer a revolução sandinista na Nicarágua,
vitoriosa em 1979. Na década de 80, porém, a realidade começou
a mudar: as ditaduras militares na América do Sul caíram
uma a uma, a democracia foi lentamente se estabelecendo, e Merlo, um guerrilheiro
que participou de ações espetaculares, passou a zanzar pelo
continente, sempre usando documentos falsos, em busca de uma revolução.
A esmagadora
maioria dos guerrilheiros depôs as armas com a chegada da democracia
a seu país. Nisso, no entanto, Merlo foi igual à minoria.
Em 1989, embora a Argentina já estivesse em seu primeiro governo
democrático pós-ditadura, ele meteu-se em mais uma ação
terrorista em sua pátria o assalto ao quartel de La Tablada,
uma carnificina que resultou em 39 mortos de ambos os lados. Hoje, aos
60 anos, o ex-guerrilheiro cumpre pena de prisão perpétua
numa penitenciária em Buenos Aires e diz que não se arrepende
do que fez, mas até ele, que chegou a patrocinar o terror numa
era democrática, reconhece o óbvio: os tempos mudaram. "No
mundo atual, não há espaço para a luta armada. A
esquerda deve buscar seus objetivos por meio das instituições
democráticas", disse ele, numa entrevista recente.
O surpreendente
é que nem todos pensam assim. É o que mostra o surgimento,
de vez em quando, de um ou outro guerrilheiro ainda em atividade, geralmente
vinculado a organizações da Argentina ou do Chile. Em 1989,
os seqüestradores de Abilio Diniz se diziam militantes do MIR, um
movimento armado do Chile. Agora, o líder do seqüestro de
Washington Olivetto, o chileno Mauricio Norambuena, é apontado
como homem da alta hierarquia da Frente Patriótica Manuel Rodriguez,
organização que nasceu na década de 80 como braço
armado do Partido Comunista Chileno. Na época, os seqüestradores
de Diniz disseram que atuavam em favor da Frente Farabundo Martí
de Libertação Nacional, a guerrilha de El Salvador. Os seqüestradores
de Olivetto nem isso poderiam dizer, pois a guerrilha salvadorenha acabou.
Desde 1992, a FMLN não dá um tiro, virou partido político
e aderiu às regras do jogo democrático.
O que pretende
um guerrilheiro latino-americano em pleno século XXI? São
personagens avulsos do passado que, perdidos na história, ocasionalmente
assaltam o presente. "Eu não vejo nenhuma razão histórica
que justifique a existência de guerrilha no Chile, muito menos na
Argentina", diz João Clemente Baena Soares, o embaixador brasileiro
que, na condição de secretário-geral da Organização
dos Estados Americanos (OEA), patrocinou os acordos que levaram à
pacificação da Nicarágua e ganhou popularidade digna
de ídolo pop. "A guerrilha foi resultado de um contexto histórico.
Hoje, é outro momento, as pessoas podem sair às ruas para
se manifestar", concorda Humberto Paz, o argentino que integrou a quadrilha
que seqüestrou Diniz e, antes, havia militado nas fileiras do mesmo
ERP fundado por Merlo.
Na América
Latina, há apenas dois países com o drama da guerrilha.
No sul do México, no Estado de Chiapas, atua o movimento zapatista,
cujo nome se inspira em Emiliano Zapata, herói da revolta camponesa
do início do século passado. Seus militantes lutam contra
a enorme desigualdade entre o norte abastado e o sul miserável,
mas os zapatistas já foram mais ou menos domesticados pelo governo.
O outro país, a Colômbia, é um caso à parte.
É uma nação conflagrada por uma guerra civil. Ali,
tem-se a presença do Exército de Libertação
Nacional, que costuma extorquir empresas, seqüestrar executivos e
explodir obras. Pior são as Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia, as Farc, cujos integrantes assaltam fazendeiros, vendem
segurança a agricultores que plantam coca e se envolveram com o
narcotráfico. São um misto de violência política
e bandidagem comum. Mas contra quem lutaria uma guerrilha na Argentina,
que fará vinte anos de democracia no ano que vem? Ou no Chile,
cujo presidente é democraticamente eleito e cujo tirano, o general
Augusto Pinochet, está entrevado no ócio?
É
possível que, em alguns casos, sejam grupos tão desorientados
com os rumos da história que acabam descambando para o crime comum.
Foi o que aconteceu com alguns na Nicarágua depois dos acordos
de paz que inauguraram a era democrática. Todos assinaram os acordos,
mas houve grupos que se recusaram a entregar as armas e foram chafurdar
no crime comum. Não se trata, também, de uma peculiaridade
de esquerda. No Brasil, por exemplo, ocorreu o contrário: não
se tem notícia de nenhum grupo guerrilheiro em atividade ou que
se tenha deteriorado a ponto de cair na bandidagem comum. Entre os militares
que atuaram na repressão durante a ditadura, porém, há
os que foram dedicar-se ao jogo do bicho, ao tráfico de drogas,
à pistolagem ou à espionagem clandestina. Está evidente
que, para alguns, é mais fácil viver do passado que encarar
o presente.
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