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"Eu chorei, me desesperei, senti revolta"

Olivetto relata o drama dos 53 dias em
que não viu nem falou com ninguém

Thaís Oyama

 
Claudio Rossi
"Chegou a ter momentos em que fiquei com medo de ser libertado. Só de pensar que eles iriam me colocar de novo naquele porta-malas... Eu pensava: meu Deus, vou perder o ar, vou ficar sufocado de novo."


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O publicitário Washington Olivetto falou a VEJA na quinta-feira à noite. Abaixo, os trechos mais impressionantes:


O MEDO MAIS PROFUNDO

"A coisa do espaço físico é uma loucura. Chegou a ter alguns momentos em que fiquei com medo de ser libertado, só de pensar que eles iriam me colocar de novo naquele porta-malas onde fiquei quando me pegaram... Eu pensava: meu Deus, vão me pôr de novo lá, e eu vou perder o ar, vou ficar sufocado de novo."

 

O MOMENTO DE MAIOR DESESPERO

"Quando eu percebi que não havia mais ventilação, achei que tinha um problema sério. Pensei: eles quebraram a cara, o projeto teve rentabilidade zero e, a partir daqui, eles vão descontar em mim. Resolveram me matar asfixiado. Claro! Eu vou morrer por falta de ar. É muito mais simples do que eles me darem três tiros no peito e fazer barulho. Nessa hora, bateu um desespero."


A VOLTA PARA CASA

"Quando entrei em casa, estavam os meus amigos, todo mundo emocionado, na sala. A primeira coisa que eu disse foi: 'Quero deixar claro que o macho aqui sou eu'. Foi uma piada ensaiada, para não chorar, para não desabar na frente dos amigos. Eu fedia que era uma beleza. Queria tomar um banho, fazer a barba, mas fiquei com medo de ir ao banheiro sozinho. Pedi a meu filho para fazer a minha barba. Isso demorou duas horas. Só depois eu tomei coragem de ir para o banho."


O RELACIONAMENTO COM OS ALGOZES

"Pude entender bem o que seria a síndrome de Estocolmo (simpatia de reféns por seus captores, que acontece em alguns casos). Não que eu tenha sido vítima dela, mas entendi como funciona. Toda vez que os guardas vinham colocar a comida, eu tinha de ficar virado para a parede e eles me tocavam pelas costas. Esse toque era uma espécie de empurrão abrutalhado, mas eu percebia a diferença entre um e outro guarda. Tinha um que me tocava mais suavemente. Eu gostava que ele viesse, cheguei a ter grande simpatia por ele. Você chega a pensar: o cara está sendo legal, pode ser uma boa pessoa. Imagine, só porque ele não te empurra como os outros."


AS CONDIÇÕES DO CATIVEIRO

"Ficar sendo observado o tempo todo é horrível, claro, mas não dava para ter pudor nenhum. Não tinha outra possibilidade. A comida era normal, coisa como frango com arroz e salada. Às vezes, variava, mas, se eu reclamasse que não queria couve-flor, vinha couve-flor todo dia. Foi a mesma coisa com a bebida, porque queria pelo menos ficar entorpecido. Depois de um tempo, eles disseram que mandariam. Num bilhete, eu disse: ai, que bom. Foi aí que errei. Eles viram que eu estava animadinho, cortaram a história da bebida forte e eu fiquei a seco."


OS SENTIMENTOS DO REFÉM

"Eu chorei, me desesperei. Tive uma sensação de revolta, de estar sendo vítima de uma grande injustiça, Pensava, pretensiosamente, por que eu? Eu fiz alguma coisa pelo Brasil. Não mereço isso."


FRUSTRAÇÃO E IMPOTÊNCIA

"Eu queria negociar direto, queria sair dali, queria ter uma chance de ser ouvido. Pedi uma entrevista e eles finalmente toparam. Fiquei esperando na maior ansiedade, feito uma criança. Estava lá fazia quinze dias sem conversar com ninguém, sem ouvir uma voz. Aí, veio um bilhete dizendo: a entrevista está cancelada porque sua mulher propôs só tanto de resgate. Foi horrível. Você se sente um bobo, um otário. É claro que desde o começo não iria haver entrevista nenhuma."


TEMPO PARA CHORAR

"Meus amigos estão dizendo que eu vou desabar, não queriam nem que eu desse a entrevista coletiva, mas eu preciso ir até o fim disso. Na hora em que eu quiser chorar, choro. Mas eu tive muito tempo para chorar lá. E chorei."

 
 
   
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