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Doce impunidade
Os seqüestradores
de Diniz estão
soltos no exterior e o brasileiro
fatura graças à fama
Eduardo Salgado

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Os argentinos
Humberto e Horacio Paz vivem um período de frenética atividade
na internet. Numa agência dos correios da periferia de Buenos Aires,
eles gastam diariamente 5 pesos para ler o maior número possível
de jornais brasileiros. Líder da quadrilha que seqüestrou
o empresário Abilio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar,
em 1989, Humberto quer saber tudo sobre o seqüestro de Washington
Olivetto. "Estamos em estado de choque", disse a VEJA. "Estamos revivendo
a nossa experiência." Os 5 pesos são uma despesa pesada para
eles. Horacio, de 50 anos, que arrancou Diniz da Mercedes, é vendedor
numa loja de material de construção e recebe 370 pesos (450
reais) por mês. Humberto, 46 anos, ganha quantia similar numa distribuidora
de revistas, mas o salário está atrasado há três
meses. Mesmo assim, deve-se dizer, estão muito bem: se tivessem
sido cumpridas as sentenças de vinte e 23 anos impostas pela Justiça
brasileira pelo seqüestro, ainda estariam confinados ao presídio
do Carandiru, em São Paulo. Beneficiários de uma enorme
campanha movida por esquerdistas brasileiros, governos estrangeiros e
lobistas profissionais, os nove seqüestradores estrangeiros de Abilio
Diniz foram transferidos para cumprir pena em seus países de origem
entre 1998 e 1999. Lá, saíram em liberdade condicional.
No final, nenhum deles chegou a ficar dez anos na cadeia.
Diego Mazzuca
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| Os irmãos argentinos Humberto (à
dir.) e Horacio: desde que souberam do seqüestro de Olivetto,
lêem jornais brasileiros todos os dias |
Os argentinos partiram do Brasil em julho de 1999 e em menos de seis meses
já estavam em regime semi-aberto. As regras impostas pela Justiça
argentina são comparecer perante as autoridades judiciárias
uma vez por mês, evitar bebidas alcoólicas em público
e qualquer atividade política. Para que não houvesse discriminação,
o único brasileiro, o cearense Raimundo Rosélio Freire,
também foi solto. O que os irmãos Paz pensam hoje do seqüestro
de Abilio Diniz? "Uma burrice", disse Humberto a VEJA na semana passada.
"Como pudemos ter sido tão idiotas a ponto de fazer aquilo?" Um
homenzarrão de quase 1,90 metro e 100 quilos, ele foi um terrorista
da pesada. Foi membro do MIR, o grupo chileno em nome do qual realizou
o seqüestro, e pertenceu a vários movimentos similares argentinos.
Agora, Humberto
Paz diz que continua com os "mesmos ideais", mas o mundo mudou com a queda
do Muro de Berlim, e a luta armada já não faz sentido. Prefere
participar de manifestações populares pacíficas,
do gênero dos panelaços. Ele está preocupado com a
possibilidade de o seqüestro de Olivetto, cometido por terroristas
esquerdistas, atrapalhar a campanha eleitoral do PT. Foi o que ocorreu
em 1989, quando o seqüestro de Diniz aconteceu às vésperas
das eleições presidenciais. "Isso permite manobras em que
a esquerda sai perdendo", comenta. E logo, esquecido de que julga melhor
manter seqüestradores distantes da campanha eleitoral brasileira,
Humberto quer aproveitar a entrevista para agradecer ao PT pelo apoio
que lhes deu quando estavam presos.
Os irmãos
Paz são vizinhos numa periferia pobre de Buenos Aires. Apesar de
ter chegado à universidade, o filho de Humberto é um desempregado
crônico. A filha é cabeleireira e um terceiro, de 16 anos,
é estudante. Horacio, cuja mulher desapareceu durante a ditadura
militar argentina, vive com uma irmã e sobrinhas, todas desempregadas.
Desde que descobriu a internet, Humberto restabeleceu contato via e-mail
com os outros membros da quadrilha. "O brasileiro está se formando
em história", diz, contente. "Os canadenses se casaram." Os canadenses
são David Spencer, 39 anos, e Christine Lamont, de 42, que estavam
condenados a dezenove e dezoito anos, foram os primeiros a deixar o Brasil
e ganhar a liberdade condicional. Namorados à época do seqüestro,
casaram-se e levam vida discreta em Vancouver, cidade na costa oeste do
Canadá. David, o cozinheiro dos seqüestradores e responsável
pelo aluguel da casa que serviu de cativeiro, hoje escreve livros e roteiro
de peças de teatro. Ainda não publicou nenhum. Christine,
que ajudou a alugar os carros usados no seqüestro, agora cursa criminologia
numa universidade a trinta minutos de carro do centro de Vancouver. "Eles
não são reconhecidos pelos vizinhos como os seqüestradores
de Diniz", disse a VEJA Keith Lamont, o pai de Christine.
Estima-se
que Lamont, um médico de classe média alta, tenha gasto
meio milhão de dólares para armar o lobby que invadiu os
corredores do poder em Brasília e Ottawa e terminou com a libertação
não apenas da filha, mas de todo o bando. No que depender de David
e Christine, ninguém mais vai ficar sabendo do passado pouco abonador.
"Os dois fizeram um acordo de não falar sobre a experiência
no Brasil", diz o pai de Christine. A única restrição
da liberdade condicional é deixar o Canadá sem ordem judicial.
André Penner
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| Os criminosos presos em 1989: libertados por
um lobby poderoso |
Enviados
para cumprir o restante da sentença na terra natal, os cinco chilenos
chegaram a Santiago em abril de 1999 e não demoraram muito a sair
às ruas. María Emilia Marchi, a engenheira civil que planejou
o encontro dos seqüestradores em São Paulo, tem 53 anos e
vive em Ñuñoa, um bairro de classe média de Santiago.
Ela trabalha como fiscal de rodovias para o Ministério de Obras
Públicas e o marido, Ulises Gallardo, de 46 anos, o homem que seguiu
o dono do Pão de Açúcar por dois meses para descobrir
seus hábitos, é vendedor de uma empresa de telecomunicações.
Depois de passar anos envolvida com organizações clandestinas
de esquerda e de ver dois maridos serem mortos pelos militares chilenos,
María Emilia, que estava condenada a dezoito anos, leva uma vida
calma e confortável. Revoluções e luta armada? Coisas
do passado, melhor nem falar muito para não perder o emprego.
O casal
costuma encontrar Pedro Fernández, 48 anos, que alugou um apartamento
usado pelos seqüestradores, para discutir a história chilena
das décadas de 60 e 70. As reuniões funcionam como uma espécie
de terapia em grupo, segundo eles. Pedro tem um filho adulto e vive com
a mulher em Pudahuel, um dos bairros mais pobres da Grande Santiago. Professor,
o terrorista aposentado trabalha como organizador de atividades de lazer
e cultura da prefeitura local. Outro seqüestrador, Héctor
Collante, de 36 anos, está casado e tem uma filha. Responsável
pela preparação do local onde Diniz passou seis dias, hoje
trabalha como taxista. Para aumentar os rendimentos, que são baixos,
faz um bico como mecânico nas horas vagas. Sergio Olivares, de 47
anos, que cuidou das instalações elétricas do cativeiro,
começou a estudar economia e a dar aulas particulares para sobreviver
desde que chegou ao Chile.
É
curioso que o único que ainda fatura com a duvidosa honra de ter
se envolvido num seqüestro seja o cearense Raimundo Rosélio
Freire. Aos 37 anos, está casado com uma assistente social e vive
em um sobrado de um bairro de classe média baixa de Fortaleza.
Tem um Fiat Uno verde, um cachorro pastor alemão misturado com
vira-lata e, todos os dias, caminha durante duas horas para manter as
pernas musculosas e a barriga lisa. Raimundo tem um emprego de montador
na gráfica do Sindicato dos Bancários de Fortaleza, em processo
de falência. No fim do ano, termina o curso de história na
Universidade Estadual do Ceará. Já apresentou sua monografia,
sobre o seqüestro, que virou livro Pão de Fel,
título escrito com a mesma letra da logomarca do Pão de
Açúcar , fato que ele faz questão de ressaltar
a quem compra sua obra. Ganhou pelo trabalho nota 9. Por causa da esposa,
que chama de "companheira", esforça-se para driblar o assédio
das mulheres, empolgadas com sua condição de guerrilheiro.
"Na sala de aula, sou um ídolo", gaba-se.
Desde que
deixou a prisão, Raimundo vive viajando pelo Brasil e se hospedando
em bons hotéis. Bancado pelas universidades, visita as capitais
contando sua experiência de seqüestrador. Em uma dessas viagens,
para Salvador, custeada pela Universidade Católica, ficou hospedado
em um hotel cinco-estrelas no Corredor da Vitória, endereço
chique da capital baiana. "Era chamado de doutor. A banheira do apartamento
era maior que minha cela no Carandiru", encanta-se. Em Fortaleza, tem
o hábito de fazer compras no supermercado Pão de Açúcar,
do qual tem um cartão em que acumula pontos. "Para falar a verdade,
eu adoro aquele supermercado e sempre brinco com os funcionários
do caixa, contando quem sou", diz, bem-humorado. Até 2006, ele
estará sob condicional e só pode viajar com autorização
da Justiça. Ia coordenar uma oficina do Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre, mas a autorização da Justiça não
chegou a tempo de ele pegar o avião. Esses percalços são
facilmente superados por um homem com a boa disposição de
espírito manifestada por Raimundo. Afinal, o que é uma viagem
cancelada de vez em quando em comparação com a vida numa
cela de penitenciária?
Com
reportagem de Adriana Negreiros,
Guillermo Zerda, de Santiago,
e Pablo Rosendo, de Buenos Aires
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