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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
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Doce impunidade

Os seqüestradores de Diniz estão
soltos no exterior e o brasileiro
fatura graças à fama

Eduardo Salgado

Fotos: Reuters



Christine Lamont, canadense David Spencer, canadense

Héctor Collante, chileno

Raimundo Rosélio Freire, brasileiro
María Emilia Marchi, chilena

Ulises Gallardo, chileno

Sergio Olivares, chileno

Pedro Fernández, chileno


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Os argentinos Humberto e Horacio Paz vivem um período de frenética atividade na internet. Numa agência dos correios da periferia de Buenos Aires, eles gastam diariamente 5 pesos para ler o maior número possível de jornais brasileiros. Líder da quadrilha que seqüestrou o empresário Abilio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, em 1989, Humberto quer saber tudo sobre o seqüestro de Washington Olivetto. "Estamos em estado de choque", disse a VEJA. "Estamos revivendo a nossa experiência." Os 5 pesos são uma despesa pesada para eles. Horacio, de 50 anos, que arrancou Diniz da Mercedes, é vendedor numa loja de material de construção e recebe 370 pesos (450 reais) por mês. Humberto, 46 anos, ganha quantia similar numa distribuidora de revistas, mas o salário está atrasado há três meses. Mesmo assim, deve-se dizer, estão muito bem: se tivessem sido cumpridas as sentenças de vinte e 23 anos impostas pela Justiça brasileira pelo seqüestro, ainda estariam confinados ao presídio do Carandiru, em São Paulo. Beneficiários de uma enorme campanha movida por esquerdistas brasileiros, governos estrangeiros e lobistas profissionais, os nove seqüestradores estrangeiros de Abilio Diniz foram transferidos para cumprir pena em seus países de origem entre 1998 e 1999. Lá, saíram em liberdade condicional. No final, nenhum deles chegou a ficar dez anos na cadeia.


Diego Mazzuca
Os irmãos argentinos Humberto (à dir.) e Horacio: desde que souberam do seqüestro de Olivetto, lêem jornais brasileiros todos os dias


Os argentinos partiram do Brasil em julho de 1999 e em menos de seis meses já estavam em regime semi-aberto. As regras impostas pela Justiça argentina são comparecer perante as autoridades judiciárias uma vez por mês, evitar bebidas alcoólicas em público e qualquer atividade política. Para que não houvesse discriminação, o único brasileiro, o cearense Raimundo Rosélio Freire, também foi solto. O que os irmãos Paz pensam hoje do seqüestro de Abilio Diniz? "Uma burrice", disse Humberto a VEJA na semana passada. "Como pudemos ter sido tão idiotas a ponto de fazer aquilo?" Um homenzarrão de quase 1,90 metro e 100 quilos, ele foi um terrorista da pesada. Foi membro do MIR, o grupo chileno em nome do qual realizou o seqüestro, e pertenceu a vários movimentos similares argentinos.

Agora, Humberto Paz diz que continua com os "mesmos ideais", mas o mundo mudou com a queda do Muro de Berlim, e a luta armada já não faz sentido. Prefere participar de manifestações populares pacíficas, do gênero dos panelaços. Ele está preocupado com a possibilidade de o seqüestro de Olivetto, cometido por terroristas esquerdistas, atrapalhar a campanha eleitoral do PT. Foi o que ocorreu em 1989, quando o seqüestro de Diniz aconteceu às vésperas das eleições presidenciais. "Isso permite manobras em que a esquerda sai perdendo", comenta. E logo, esquecido de que julga melhor manter seqüestradores distantes da campanha eleitoral brasileira, Humberto quer aproveitar a entrevista para agradecer ao PT pelo apoio que lhes deu quando estavam presos.

Os irmãos Paz são vizinhos numa periferia pobre de Buenos Aires. Apesar de ter chegado à universidade, o filho de Humberto é um desempregado crônico. A filha é cabeleireira e um terceiro, de 16 anos, é estudante. Horacio, cuja mulher desapareceu durante a ditadura militar argentina, vive com uma irmã e sobrinhas, todas desempregadas. Desde que descobriu a internet, Humberto restabeleceu contato via e-mail com os outros membros da quadrilha. "O brasileiro está se formando em história", diz, contente. "Os canadenses se casaram." Os canadenses são David Spencer, 39 anos, e Christine Lamont, de 42, que estavam condenados a dezenove e dezoito anos, foram os primeiros a deixar o Brasil e ganhar a liberdade condicional. Namorados à época do seqüestro, casaram-se e levam vida discreta em Vancouver, cidade na costa oeste do Canadá. David, o cozinheiro dos seqüestradores e responsável pelo aluguel da casa que serviu de cativeiro, hoje escreve livros e roteiro de peças de teatro. Ainda não publicou nenhum. Christine, que ajudou a alugar os carros usados no seqüestro, agora cursa criminologia numa universidade a trinta minutos de carro do centro de Vancouver. "Eles não são reconhecidos pelos vizinhos como os seqüestradores de Diniz", disse a VEJA Keith Lamont, o pai de Christine.

Estima-se que Lamont, um médico de classe média alta, tenha gasto meio milhão de dólares para armar o lobby que invadiu os corredores do poder em Brasília e Ottawa e terminou com a libertação não apenas da filha, mas de todo o bando. No que depender de David e Christine, ninguém mais vai ficar sabendo do passado pouco abonador. "Os dois fizeram um acordo de não falar sobre a experiência no Brasil", diz o pai de Christine. A única restrição da liberdade condicional é deixar o Canadá sem ordem judicial.

André Penner
Os criminosos presos em 1989: libertados por um lobby poderoso

Enviados para cumprir o restante da sentença na terra natal, os cinco chilenos chegaram a Santiago em abril de 1999 e não demoraram muito a sair às ruas. María Emilia Marchi, a engenheira civil que planejou o encontro dos seqüestradores em São Paulo, tem 53 anos e vive em Ñuñoa, um bairro de classe média de Santiago. Ela trabalha como fiscal de rodovias para o Ministério de Obras Públicas e o marido, Ulises Gallardo, de 46 anos, o homem que seguiu o dono do Pão de Açúcar por dois meses para descobrir seus hábitos, é vendedor de uma empresa de telecomunicações. Depois de passar anos envolvida com organizações clandestinas de esquerda e de ver dois maridos serem mortos pelos militares chilenos, María Emilia, que estava condenada a dezoito anos, leva uma vida calma e confortável. Revoluções e luta armada? Coisas do passado, melhor nem falar muito para não perder o emprego.

O casal costuma encontrar Pedro Fernández, 48 anos, que alugou um apartamento usado pelos seqüestradores, para discutir a história chilena das décadas de 60 e 70. As reuniões funcionam como uma espécie de terapia em grupo, segundo eles. Pedro tem um filho adulto e vive com a mulher em Pudahuel, um dos bairros mais pobres da Grande Santiago. Professor, o terrorista aposentado trabalha como organizador de atividades de lazer e cultura da prefeitura local. Outro seqüestrador, Héctor Collante, de 36 anos, está casado e tem uma filha. Responsável pela preparação do local onde Diniz passou seis dias, hoje trabalha como taxista. Para aumentar os rendimentos, que são baixos, faz um bico como mecânico nas horas vagas. Sergio Olivares, de 47 anos, que cuidou das instalações elétricas do cativeiro, começou a estudar economia e a dar aulas particulares para sobreviver desde que chegou ao Chile.

É curioso que o único que ainda fatura com a duvidosa honra de ter se envolvido num seqüestro seja o cearense Raimundo Rosélio Freire. Aos 37 anos, está casado com uma assistente social e vive em um sobrado de um bairro de classe média baixa de Fortaleza. Tem um Fiat Uno verde, um cachorro pastor alemão misturado com vira-lata e, todos os dias, caminha durante duas horas para manter as pernas musculosas e a barriga lisa. Raimundo tem um emprego de montador na gráfica do Sindicato dos Bancários de Fortaleza, em processo de falência. No fim do ano, termina o curso de história na Universidade Estadual do Ceará. Já apresentou sua monografia, sobre o seqüestro, que virou livro – Pão de Fel, título escrito com a mesma letra da logomarca do Pão de Açúcar –, fato que ele faz questão de ressaltar a quem compra sua obra. Ganhou pelo trabalho nota 9. Por causa da esposa, que chama de "companheira", esforça-se para driblar o assédio das mulheres, empolgadas com sua condição de guerrilheiro. "Na sala de aula, sou um ídolo", gaba-se.

Desde que deixou a prisão, Raimundo vive viajando pelo Brasil e se hospedando em bons hotéis. Bancado pelas universidades, visita as capitais contando sua experiência de seqüestrador. Em uma dessas viagens, para Salvador, custeada pela Universidade Católica, ficou hospedado em um hotel cinco-estrelas no Corredor da Vitória, endereço chique da capital baiana. "Era chamado de doutor. A banheira do apartamento era maior que minha cela no Carandiru", encanta-se. Em Fortaleza, tem o hábito de fazer compras no supermercado Pão de Açúcar, do qual tem um cartão em que acumula pontos. "Para falar a verdade, eu adoro aquele supermercado e sempre brinco com os funcionários do caixa, contando quem sou", diz, bem-humorado. Até 2006, ele estará sob condicional e só pode viajar com autorização da Justiça. Ia coordenar uma oficina do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, mas a autorização da Justiça não chegou a tempo de ele pegar o avião. Esses percalços são facilmente superados por um homem com a boa disposição de espírito manifestada por Raimundo. Afinal, o que é uma viagem cancelada de vez em quando em comparação com a vida numa cela de penitenciária?

Com reportagem de Adriana Negreiros,
Guillermo Zerda, de Santiago,
e
Pablo Rosendo, de Buenos Aires


 
 
   
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