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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
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Olivetto, Abilio, Beltran e Luiz Sales: coincidências demais

Alexandre Secco e Thaís Oyama

Sergio Castro/AE
O publicitário Washington Olivetto e a mulher, Patrícia, na sacada de seu apartamento um dia depois de ser solto: 8 quilos mais magro depois de 53 dias preso em um cubículo


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A investigação do seqüestro do publicitário paulista Washington Olivetto, da agência W/Brasil, não chegou ao fim com a prisão de seis criminosos e a libertação da vítima. Ela só está começando. A polícia tem razões – de sobra – para crer que esse seqüestro guarda relação com três outros acontecidos em São Paulo na década de 80. Um deles ocorreu em 1986 e vitimou o então vice-presidente do Bradesco Antonio Beltran Martinez. Os outros dois são de 1989 e tiveram como alvo o também publicitário Luiz Sales e o empresário Abilio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar. VEJA preparou, com a ajuda de especialistas, uma lista com as principais características relacionadas ao seqüestro de Olivetto. Chegou-se a uma relação com 28 características significativas presentes neste crime. São informações ligadas ao cativeiro, à forma como a quadrilha mantinha contato com a família da vítima e à estratégia usada para realizar o seqüestro. Em seguida, a revista levantou quais desses itens foram detectados nos outros três episódios. Da lista, dezoito itens foram observados no seqüestro de Beltran Martinez e dezenove no de Luiz Sales. Na comparação com o seqüestro de Abilio Diniz, foram identificadas 23 das características encontradas agora. No caso do crime contra o dono do grupo Pão de Açúcar, a taxa de coincidência supera a casa dos 80%.


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PATA MEU AMOR
"Você salvando minha vida não seria anormal já que fez isso duas vezes: quando nos conhecemos e na endocardite (uma inflamação na membrana do coração)."

Nos três casos anteriores, e o mesmo ocorreu agora com Olivetto, coube a uma mulher a tarefa de fazer os contatos com a família. O cubículo onde a vítima permaneceu era mínimo, sem banheiro nem cama. Havia apenas um colchão no chão e uma banqueta. Repare: todos optaram por banqueta, não cadeira ou almofada. Também nos três crimes anteriores, e neste agora, a luz do cativeiro permanecia ligada ininterruptamente, os seqüestradores colocaram música tocando 24 horas por dia e a comunicação entre criminosos e vítima era feita exclusivamente por escrito, por meio de bilhetes. Mais: as vítimas foram obrigadas a seguir normas de conduta afixadas na parede do cativeiro. "Esses seqüestros foram planejados e executados de forma muito parecida", afirma o delegado Wagner Giudice, titular da Divisão Anti-Seqüestro de São Paulo.


J.F.Diorio/AE

O delegado Giudice: "Essa gente se comporta como o samurai que ficou sem um senhor feudal e passou a vagar feito ninja, aceitando toda sorte de trabalho sujo"

Em meio à coleção de "coincidências", há uma que merece atenção especial: a participação de estrangeiros que foram integrantes de movimentos guerrilheiros da esquerda chilena. No caso da quadrilha que capturou Washington Olivetto, entre os presos há ex-guerrilheiros da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, conhecida pela sigla FPMR. Essa organização assumiu a responsabilidade pelo atentado frustrado ao ditador Augusto Pinochet, em 1986. O preso mais graduado do grupo é Mauricio Hernandez Norambuena, um chileno tido como segundo homem na hierarquia da organização. Entre outros crimes, ele chefiou pessoalmente o ataque a Pinochet (veja reportagem sobre Norambuena). Outro ex-guerrilheiro preso é Alfredo Canales Moreno, braço direito de Norambuena na FPMR. Norambuena e Canales começaram a vida guerrilheira em outra organização também ligada à esquerda chilena, o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). O MIR pegou em armas contra a ditadura de Pinochet, mas sucumbiu à redemocratização e foi dissolvido. Atenção: há cinco anos, três ex-dirigentes desse mesmo MIR vieram a público para assumir a responsabilidade pelo seqüestro de Abilio Diniz. "Fomos todos ensinados na Nicarágua, que é o santuário da guerrilha", afirma o cearense Raimundo Freire, o único brasileiro preso pelo seqüestro de Diniz (veja reportagem sobre como vivem os seqüestradores de Abilio Diniz).


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NÃO CONFIO MAIS
"Senhores, depois da promessa de ontem e a maneira como fui tratado, não confio mais. Acho que estão pedindo minhas propostas só como pesquisa, sem me levar a sério e com alguma má intenção que ainda não sei qual é. Pena. Experiência."

Embora apenas dois dos seqüestros listados na comparação tenham sido esclarecidos (Diniz e Olivetto), as investigações feitas até o momento fazem a polícia acreditar que ex-guerrilheiros também podem ter atuado em dois outros seqüestros, de Beltran Martinez e Luiz Sales. A percepção das vítimas confirma a suspeita. "As características do seqüestro de Olivetto são muito semelhantes às do meu caso. Provavelmente, não são os mesmos seqüestradores, mas tudo indica que são da mesma quadrilha", disse a VEJA o banqueiro Beltran Martinez. O publicitário Luiz Sales reforça a impressão de Martinez: "O grupo que seqüestrou Beltran Martinez tinha sotaque cucaracho e dava aspirina chilena. Os meus seqüestradores me escreviam em portunhol, com interrogações ao contrário. Quando fui seqüestrado, um deles gritou: – Despacio, despacio! (Devagar, devagar, em português). No do Abilio Diniz, também havia chilenos. O procedimento dos seqüestradores não é parecido. É xerox".

Embora o paralelo operacional esteja forte, falta o elo humano: até agora, a polícia não identificou nenhum envolvido que esteja presente em mais de um seqüestro, com uma possível exceção: uma brasileira, cujo nome a DAS já tem mas guarda a sete chaves. Gaúcha, com cerca de 40 anos, gorda e de olhos claros, essa brasileira teria participado de pelo menos três dos últimos grandes seqüestros do país: o de Sales, o de Diniz e o de Olivetto. Neste último, teria tido atuação periférica. A polícia acredita que ela atuou como uma espécie de "cicerone" para os criminosos estrangeiros, orientando-os em sua movimentação pelo país e abastecendo-os de informações locais. Na opinião do delegado Wagner Giudice, o envolvimento de ex-guerrilheiros nos seqüestros não autoriza ninguém a acreditar que esses crimes tenham por trás algum objetivo de cunho político. A investigação feita até aqui sugere que os criminosos, que em algum momento tiveram algum ideal revolucionário, agora querem apenas usar seus conhecimentos bélicos e logísticos para enriquecer. "Essa gente se comporta como o samurai que ficou sem um senhor feudal e passou a vagar feito ninja, aceitando toda sorte de trabalho sujo", afirma o delegado.


Robson Fernandes/AE

O chefão Mauricio Norambuena (à dir.) responde pelo assassinato de um senador chileno e um atentado contra o ex-presidente Pinochet. Abaixo, seus cúmplices no seqüestro de Olivetto. O primeiro da direita é o seu braço direito, Alfredo Canales, responsável por assaltos milionários e investigado por ligações com guerrilheiros colombianos

Fotos: Rubens Chiri/Perspectiva/AE e Robson Fernandes/AE

O grupo que seqüestrou Olivetto tem integrantes de pelo menos três nacionalidades: chilena, argentina e colombiana. A polícia acredita que é formado por quinze pessoas. Os seis que foram presos chegaram à cadeia quase por acaso. No fim do mês passado, o delegado Sidney Poloni, titular da Delegacia de Serra Negra, recebeu a informação de que um grupo de estrangeiros de língua espanhola havia alugado uma chácara nos arredores da cidade. O fato de o pagamento ter sido feito à vista e em dólar foi suficiente para despertar a atenção do dono do imóvel e também do policial. O delegado inicialmente suspeitou da possibilidade de envolvimento do grupo com tráfico de drogas. Na sexta-feira 1º de fevereiro, com um mandado de busca e apreensão nas mãos e o apoio de uma equipe da Polícia Militar, ele entrou no local sem a menor idéia do que iria encontrar. Deparou com um grupo disposto a entregar-se, munido de armamento pesado, uma coleção de disfarces como perucas e uniformes policiais, computadores, disquetes e uma mala com fundo falso recheada de cartas escritas para uma certa Patrícia e um certo Xavier. Os textos não traziam assinatura, mas deixavam claro que se tratava de uma negociação de pagamento de resgate. Diante disso, Poloni decidiu telefonar para o colega de São Paulo, Wagner Giudice, e leu-lhe trechos das cartas encontradas. Poloni nem havia terminado a leitura do segundo bilhete quando foi interrompido pelo delegado do DAS: "Parabéns. Você está com os seqüestradores do Washington Olivetto. Segure firme eles aí", respondeu Giudice.


Robson Fernandes/AE

O arsenal dos seqüestradores: armas, equipamentos para capturar transmissões da polícia e documentos falsos

Responsável pelo caso Olivetto desde o início, Giudice admite sem constrangimentos que, se não fosse pela atuação de Poloni, o publicitário, muito provavelmente, passaria mais um bom tempo no cubículo imundo e minúsculo da Rua Kansas, no bairro do Brooklin, em São Paulo, uma área de classe média com muitos sobrados como o que serviu de cativeiro ao publicitário. "O Olivetto foi salvo pela perspicácia do delegado de Serra Negra. Nós, da DAS, ainda estávamos longe de solucionar o caso", admite. Desde o início das investigações, a única certeza dos investigadores era de que não estavam lidando com amadores. Durante os 53 dias em que mantiveram Olivetto refém, os seqüestradores não fizeram um único contato telefônico com a família. Toda a comunicação foi feita por cartas e bilhetes. O grupo funcionava de maneira descentralizada, dividido em pelo menos cinco diferentes locais, ou "células". As precauções para que o estouro de uma célula não levasse à descoberta de outra eram tamanhas que mesmo informações como o endereço do cativeiro eram de conhecimento exclusivo dos encarregados de vigiar o publicitário. Norambuena foi quem propôs aos policiais o acordo que pode ter salvo a vida de Olivetto. Na manhã de sábado, 2 de fevereiro, doze horas após sua prisão, o seqüestrador disse que, se fosse autorizado a fazer um telefonema para seus comparsas, a vida do publicitário estaria garantida. Deu certo. Escoltado pela polícia, Norambuena escolheu um orelhão ao acaso, comunicou sua prisão aos comparsas e ordenou-lhes que preservassem a vida do publicitário. Olivetto foi solto em seguida.


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VOU TER UM INFARTO
"Aos senhores chefes
Ontem tive a certeza de que se continuar aqui nessa situação vou ter um infarto e morrer. Por isso resolvi tomar a atitude explicada na carta em anexo que resolve tudo. Por favor, leiam já. Aguardo comunicação."

Na última quinta-feira, o publicitário deu uma entrevista à imprensa para contar o que viveu no cativeiro. Disse ter desconfiado da falsa blitz da Polícia Federal realizada pelos seqüestradores no dia 11 de dezembro ao notar falha nos coletes dos "policiais". "As letras eram desproporcionais." Percebeu que, em vez de policiais, seriam bandidos disfarçados com coletes da PF. Tentou fugir. "Bati num, mas o segundo me pegou. Daí vieram três, quatro, cinco..." Já no cativeiro, Olivetto contou não ter ouvido uma só voz durante o período em que esteve preso, tomou banho a cada quatro dias e se distraía lendo e escrevendo. Redigiu diversos bilhetes, todos recolhidos pela polícia, e também um diário. Nele, Olivetto escreveu várias vezes sobre a possibilidade de morrer no cativeiro. Recebeu dos seqüestradores dois livros escolhidos a dedo para a situação em que ele se encontrava. Um deles foi Papillon, de Henri Charrière, que conta os horrores vividos por um prisioneiro que conseguiu fugir do presídio da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. O outro foi 1984, de George Orwell, que fala sobre um mundo dominado pelo totalitarismo, com as pessoas sendo vigiadas até em casa, até no toalete, pelo Grande Irmão.

Apesar da longa lista de semelhanças entre os seqüestros, nota-se uma grande diferença. Ela diz respeito ao tratamento que as autoridades estão dando ao caso. Quando Abilio Diniz foi libertado, descobriu-se entre outras coisas que em seu cativeiro os bandidos mantinham até mesmo um caixão funerário, supostamente para enterrar o prisioneiro caso ele morresse. Ainda assim, iniciou-se uma movimentação em nome dos direitos humanos liderada pela embaixada canadense para transferir para o Canadá dois seqüestradores daquele país, Christine Lamont e David Spencer. O lobby acabou sendo apoiado pelo senador Eduardo Suplicy, do PT, pelo então secretário de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, José Gregori, e pelo próprio ministro Renan Calheiros, que estava na pasta da Justiça. O comportamento oficial, agora, parece ser outro. "O crime foi cometido aqui. Portanto, eles ficam aqui até acabar a pena. Se ainda sobrar um saldo, podem pagar lá fora", diz o atual ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira. "Eles vieram aqui e trataram uma pessoa pior do que se trata um cachorro. Aqui tem leis, e elas serão cumpridas", diz o ministro.

Com reportagem de Felipe Patury
e Luís Henrique Amaral

 
 
   
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