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O jingle-enredo
Eu gostaria
de me chamar Amendoim B-F. Muito melhor que Diogo. Diogo virou nome de
personagem de novela. Atualmente, tem Diogo na novela das 6, das 7 e das
8. Vexame. Amendoim B-F é co-autor do samba-enredo deste ano da
Mangueira. Também invejo o nome de seu colega R. Mocotó,
da Viradouro. Ou o de Jefinho, da Mocidade Independente. Ou o de Tuninho
Professor, da Imperatriz Leopoldinense. Ou o de Serginho 20, do Salgueiro.
O desfile
do Salgueiro foi patrocinado pela TAM. Seu samba-enredo evoca Ícaro,
Santos Dumont e define o comandante Rolim, fundador da companhia aérea,
como "um sonhador". Já o desfile da Beija-Flor foi patrocinado
pela Varig. Seu samba-enredo evoca Ícaro, Santos Dumont e define
Rubem Berta, fundador da companhia aérea, como "um sonhador". O
pessoal do Carnaval é inventivo para bolar apelidos, mas fica muito
a dever quando decide transformar sambas em jingles publicitários.
Um jingle
publicitário é feito para vender. Nesse caso, as empresas
que financiam o Carnaval deveriam ter contratado diretamente profissionais
do ramo para compor os enredos. O autor de um jingle de um amaciante de
roupas consegue encontrar muito mais atributos positivos no produto que
anuncia do que Amendoim B-F ou R. Mocotó nos temas de suas escolas.
Com o intuito de homenagear a cidade de Campos, terra do governador Garotinho,
a Imperatriz Leopoldinense exalta o canibalismo dos índios goitacazes:
"São ferozes, são vorazes, vida de antropofagia, índio
come gente, quem diria". O tema da Caprichosos de Pilares é Porto
Alegre. O máximo que a cidade oferece, segundo os sambistas, é
o Gre-Nal, a bombacha e Getúlio Vargas, que "é macho, é
firme e forte". A Portela, contratada para decantar as belezas do Amazonas,
cita as seringueiras, o Teatro de Manaus e a "Zona Franca e o Industrial".
As escolas
de samba eram financiadas por bicheiros como Castor Andrade. Agora é
a vez do governador Amazonino Mendes. Alguns tradicionalistas reclamam
da transformação do Carnaval num veículo de marketing
empresarial e político. Mas são uma minoria. A tendência
é que cada vez mais empresas e governos invistam no negócio,
inclusive porque não lhes custa nada, já que podem usufruir
das leis de incentivo cultural. Pelas regras atuais, é proibido
expor marcas de produtos nos carros alegóricos, mas tenho certeza
de que, em breve, a proibição será contornada, tornando
o investimento ainda mais oportuno.
Há
o precedente da legislação televisiva brasileira, que não
estabelece limites para o merchandising. Nada impediria, por exemplo,
que uma novela inteira fosse ambientada dentro de uma fábrica de
biscoitos, com um protagonista chamado Diogo comendo e elogiando os wafers
recheados de chocolate o tempo todo. Perguntei à chefe do departamento
de pesquisas da Globo se algum telespectador já reclamou do merchandising.
Ela disse que não. Ninguém se incomoda. É claro,
também, que ninguém se incomodará com o merchandising
explícito durante os desfiles de Carnaval.
Não
que, no passado, as escolas de samba se dedicassem a qualquer outra coisa
que não a propaganda. Elas sempre garantiram o apoio aos governos
vigentes sob a forma de mensagens de louvor à pátria. O
brasileiro não resiste a uma propaganda. Está sempre disposto
a comprar e a se vender. É por isso que, recordando o samba da
Mangueira de 1957, podemos afirmar: "Marcha meu país para a soberania
universal".
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