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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
Diogo Mainardi

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O jingle-enredo

Eu gostaria de me chamar Amendoim B-F. Muito melhor que Diogo. Diogo virou nome de personagem de novela. Atualmente, tem Diogo na novela das 6, das 7 e das 8. Vexame. Amendoim B-F é co-autor do samba-enredo deste ano da Mangueira. Também invejo o nome de seu colega R. Mocotó, da Viradouro. Ou o de Jefinho, da Mocidade Independente. Ou o de Tuninho Professor, da Imperatriz Leopoldinense. Ou o de Serginho 20, do Salgueiro.

O desfile do Salgueiro foi patrocinado pela TAM. Seu samba-enredo evoca Ícaro, Santos Dumont e define o comandante Rolim, fundador da companhia aérea, como "um sonhador". Já o desfile da Beija-Flor foi patrocinado pela Varig. Seu samba-enredo evoca Ícaro, Santos Dumont e define Rubem Berta, fundador da companhia aérea, como "um sonhador". O pessoal do Carnaval é inventivo para bolar apelidos, mas fica muito a dever quando decide transformar sambas em jingles publicitários.

Um jingle publicitário é feito para vender. Nesse caso, as empresas que financiam o Carnaval deveriam ter contratado diretamente profissionais do ramo para compor os enredos. O autor de um jingle de um amaciante de roupas consegue encontrar muito mais atributos positivos no produto que anuncia do que Amendoim B-F ou R. Mocotó nos temas de suas escolas. Com o intuito de homenagear a cidade de Campos, terra do governador Garotinho, a Imperatriz Leopoldinense exalta o canibalismo dos índios goitacazes: "São ferozes, são vorazes, vida de antropofagia, índio come gente, quem diria". O tema da Caprichosos de Pilares é Porto Alegre. O máximo que a cidade oferece, segundo os sambistas, é o Gre-Nal, a bombacha e Getúlio Vargas, que "é macho, é firme e forte". A Portela, contratada para decantar as belezas do Amazonas, cita as seringueiras, o Teatro de Manaus e a "Zona Franca e o Industrial".

As escolas de samba eram financiadas por bicheiros como Castor Andrade. Agora é a vez do governador Amazonino Mendes. Alguns tradicionalistas reclamam da transformação do Carnaval num veículo de marketing empresarial e político. Mas são uma minoria. A tendência é que cada vez mais empresas e governos invistam no negócio, inclusive porque não lhes custa nada, já que podem usufruir das leis de incentivo cultural. Pelas regras atuais, é proibido expor marcas de produtos nos carros alegóricos, mas tenho certeza de que, em breve, a proibição será contornada, tornando o investimento ainda mais oportuno.

Há o precedente da legislação televisiva brasileira, que não estabelece limites para o merchandising. Nada impediria, por exemplo, que uma novela inteira fosse ambientada dentro de uma fábrica de biscoitos, com um protagonista chamado Diogo comendo e elogiando os wafers recheados de chocolate o tempo todo. Perguntei à chefe do departamento de pesquisas da Globo se algum telespectador já reclamou do merchandising. Ela disse que não. Ninguém se incomoda. É claro, também, que ninguém se incomodará com o merchandising explícito durante os desfiles de Carnaval.

Não que, no passado, as escolas de samba se dedicassem a qualquer outra coisa que não a propaganda. Elas sempre garantiram o apoio aos governos vigentes sob a forma de mensagens de louvor à pátria. O brasileiro não resiste a uma propaganda. Está sempre disposto a comprar e a se vender. É por isso que, recordando o samba da Mangueira de 1957, podemos afirmar: "Marcha meu país para a soberania universal".

 
 
   
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