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Uma agressão
gratuita
Especialista
americano diz que
é possível vencer rapidamente
o crime e que o respeito à lei se
aprende em casa
Eduardo Salgado

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O sociólogo
americano John Laub, presidente da Sociedade Americana de Criminologia
e professor da Universidade de Maryland, foi vítima de um crime
pela última vez há quinze anos, quando morava em Boston
e sua casa foi arrombada. Isso não o impediu de conhecer e falar
cara a cara com dezenas de bandidos. Laub estuda a criminalidade desde
o começo dos anos 70. Foi co-autor do estudo que mostrou que a
delinqüência juvenil pode explodir de uma hora para a outra
devido à ligação com o narcotráfico, o acesso
a armas e à ação ineficaz da polícia. Atualmente
trabalha no livro Boys in Trouble and How They Age (Meninos Metidos
em Problemas e Como Eles Envelhecem), uma pesquisa exaustiva que acompanha
até os 70 anos a vida de pessoas que estiveram presas na juventude.
O trabalho dele reforça a idéia de que os criminosos são
versáteis. Ou seja, o sujeito que rouba bancos também passa
sinal vermelho e comete outros crimes menores tese que influiu
na adoção da tolerância zero contra o crime em Nova
York. Ainda saboreando a entrada da única filha no curso de medicina,
Laub, aos 48 anos, falou a VEJA de seu escritório na Universidade
de Maryland, próximo a Washington.
Veja
Cidades como Nova York, nos Estados Unidos, e Bogotá, na Colômbia,
conseguiram diminuir o crime de forma dramática nos últimos
anos. Qual é o melhor modelo para combater o crime?
Laub
Não existe um modelo único nem uma decisão que seja
a mais importante. Mas é certo que tem solução. O
crucial é o bandido saber que o risco de ele ser pego, julgado
e condenado é muito grande. Há vários pontos que
precisam de atenção. Aumentar o policiamento e promover
o contato com a comunidade são alguns. Também é importante
maior coordenação entre policiais e promotores.
Veja
Quais são os requisitos básicos para diminuir as taxas
de criminalidade?
Laub
As pessoas cometem crimes por vários motivos, que vão da
impulsividade a fatores sociais mais estruturais, como desigualdade econômica.
Mas são as oportunidades que fazem com que elas executem os crimes.
No curto prazo, deve-se trabalhar para diminuir as oportunidades. Combater
tráfico de drogas, uso de armas e as gangues. Isso reduz os índices
de criminalidade rapidamente. No longo prazo, os fatores são outros:
sociais e econômicos.
Veja
O que a polícia deve fazer?
Laub As
mudanças verificadas nas cidades americanas nos anos 90 são
conseqüência direta do trabalho de chefes de polícia
com grande liderança, como William Bratton em Nova York. Ele mudou
a cultura da polícia e o gerenciamento das informações.
A polícia precisa mapear os crimes. Sabemos que há áreas
muito mais violentas que outras e horas em que os crimes acontecem com
mais freqüência. O mesmo vale para certos grupos de pessoas.
A polícia precisa priorizar o combate nesses pontos e nesse pessoal.
Quando os crimes se moverem para outras zonas e horários, é
necessário estar em cima. Também vale a pena coibir os crimes
leves.
Veja
Por que combater pequenos delitos quando há tantos crimes
violentos ocorrendo?
Laub
Uma das coisas que sabemos sobre criminosos é que eles geralmente
cometem vários crimes. Ao combater pequenas infrações,
a polícia pode acabar pegando um criminoso que está sendo
procurado por um crime grave. Sem contar a oportunidade de prender gente
que está carregando armas ilegais. Nos Estados Unidos, a queda
da criminalidade também foi resultado do aumento do número
de prisões. Os criminosos foram tirados do ar. Estima-se que 25%
da queda foi conseqüência das prisões.
Veja
É possível combater o crime com uma força
policial corrupta?
Laub
Impossível. Você não pode pedir a uma organização
criminosa que reduza o crime. É preciso mudar a cultura da polícia
para que a população volte a ter confiança em seus
agentes de segurança. Uma operação interna tem de
acabar com a corrupção e outra, externa, precisa melhorar
a imagem da instituição perante a população.
Várias cidades dos Estados Unidos tiveram polícias extremamente
corruptas e conseguiram vencer essa dificuldade.
Veja
De que forma a cooperação entre policiais e promotores
ajudou a combater o crime nos Estados Unidos?
Laub
Em Boston, o problema era o crime juvenil. Uma das estratégias
usadas pelas autoridades foi marcar encontros com os líderes das
gangues. Os policiais, os promotores municipais e os estaduais participavam
dessas reuniões e diziam o seguinte: "Estamos vivendo numa nova
era e não vamos mais tolerar a ação criminosa". Avisavam
que estavam trabalhando em conjunto e que a desorganização
e a falta de diálogo entre as instituições eram coisa
do passado. Quando policiais e promotores trabalham em conjunto, os processos
são julgados mais rapidamente e as probabilidades de condenação
aumentam.
Veja
Os criminosos medem os riscos de ser pegos antes de assaltos
e roubos?
Laub
Sim. Muitos pensam como empresários, avaliando oportunidades e
riscos. Exercitam algum tipo de escolha racional. Nós, os estudiosos,
precisamos prestar mais atenção ao processo de decisão
dos bandidos. Eles não atuam no vácuo e tampouco agem dominados
por forças incontroláveis. Mas é preciso lembrar
que esse processo de decisão acontece em um contexto e é
diferente para adolescentes e adultos. Os adolescentes pensam no curto
prazo, são mais impulsivos. A maioria atua em grupos. Na frente
dos companheiros é mais difícil assumir ter medo.
Veja
É mais importante prevenir ações criminosas
ou responder rapidamente a elas?
Laub
Isso depende da situação. O aumento acentuado de crimes
violentos tem forte influência na vida das pessoas. As famílias
têm experiências com mortes e lesões. A comunidade
se sente extremamente vulnerável e com medo. Diminui muito a qualidade
de vida. Isso tem fortes conseqüências não apenas na
vida das pessoas como também na economia. Gente com medo não
sai na rua a qualquer hora, e quem tem uma loja ou supermercado perde
dinheiro. No curto prazo, a polícia precisa combater o crime violento
para que a população se sinta segura e comece a pensar em
prevenção de longo prazo. Também é primordial
atacar as causas sociais e econômicas. As duas coisas precisam andar
juntas.
Veja
À medida que ficam mais velhos os criminosos mudam para
crimes em que o risco de ser pegos é menor?
Laub
Infelizmente é impossível chegar a uma conclusão
definitiva sobre essa questão. Há uma grande controvérsia.
Alguns estudiosos dizem que muitos criminosos nunca param de se envolver
em encrencas. Continuam dirigindo bêbados ou batendo na mulher,
dois tipos de crime difíceis de ser detectados pela polícia.
Já as minhas pesquisas indicam que muitos criminosos realmente
param. Acho que as duas coisas acontecem.
Veja
Por que os criminosos desistem do crime?
Laub
Há várias teorias. Acredito na importância das relações
sociais, entre pessoas ou instituições. O criminoso investe
numa pessoa ou instituição e depois não quer perdê-la.
Ao longo dos anos, os criminosos têm algumas oportunidades de mudar
de vida radicalmente, de trocar de lado. Muitas vezes, essa mudança
não acontece da noite para o dia, é um processo. Um dos
fatores da mudança é o casamento com uma pessoa a quem se
sentem fortemente ligados. Outro fator é a identificação
com o trabalho. Educação e religião são também
importantes. Os criminosos precisam de um divisor de águas. Muitos
dos que desistem do crime falam que tiveram duas vidas. Uma de bandido
e outra de pai de família.
Veja
Qual é o fator mais importante?
Laub
É o casamento. Há evidências de que o matrimônio
tem várias conseqüências positivas. Não só
contra o crime. O casamento está relacionado com estabilidade econômica
e a compra da casa própria. Os casados são mais saudáveis
e há quem defenda que eles têm até vida sexual melhor.
Quanto a isso, já não sei se as evidências são
tão fortes.
Veja
O senhor é a favor da prisão perpétua?
Laub
Temos de nos perguntar qual é o objetivo da prisão perpétua.
Se formos a favor para evitar que uma pessoa volte às ruas e cometa
mais crimes, então estamos em dificuldades. É muito problemático.
Primeiro, porque os criminosos perigosos continuam cometendo crimes dentro
das prisões contra os carcereiros e outros presos. Segundo, porque
é impossível prever quem vai continuar na vida do crime
e quem irá desistir. Também não podemos esquecer
que algumas pessoas abandonam os crimes mais sérios à medida
que ficam mais velhas. Por outro lado, instituir a prisão perpétua
é defensável para desestimular o crime, para que a sociedade
deixe bem claro o que não tolera.
Veja
Onde aprendemos a obedecer à lei?
Laub
Em casa, com a família. A escola e a universidade são os
lugares onde a socialização ocorre e esses valores são
reforçados. Famílias fortes, em que pais e filhos desenvolvem
uma relação de amor e confiança, são a estratégia
mais eficaz contra o crime. Os pais precisam ter uma postura disciplinadora
quando os filhos não seguem certas regras. Não estou falando
em punição física, que pode fazer mais dano que bem.
Mas as piores coisas que os pais podem fazer é não dar limites
aos filhos, discipliná-los de forma errática ou sem consistência.
Isso pode causar comportamento anti-social, delinqüência e,
mais tarde, crime. Dito isso, quero deixar claro que o papel dos pais
não é o de agentes de controle social. Precisam amar e proporcionar
conforto aos filhos. Mas a questão dos limites é central.
Veja
A delinqüência está concentrada em famílias
pobres?
Laub Não.
É encontrada em todas as classes sociais. Adolescentes ricos e
pobres se envolvem em crimes, especialmente os menos graves, como o uso
de drogas. Já os mais sérios, como assaltos a mão
armada e homicídios, são mais comuns entre os pobres. A
maioria das pessoas pobres vive em famílias estruturadas que dão
carinho e impõem limites aos filhos. Mas alguns fatores são
estruturais. É mais comum encontrar crianças de famílias
pobres que ficam sozinhas porque os pais são obrigados a trabalhar
e não têm com quem deixá-las. Crianças sem
supervisão geralmente se metem em encrenca. Sem falar no stress
causado pela falta de dinheiro. Nos bairros onde os pobres se concentram,
as escolas são ruins, há poucas áreas de lazer, as
condições de saúde são péssimas e as
chances de progredir economicamente são poucas. Para completar,
há mais oportunidade de se envolver em crime: gangues, drogas e
armas. Essa é uma área em que o Estado pode ter papel decisivo.
Melhorias nesses bairros podem ter efeitos incríveis. Creches,
escolas de dois turnos podem resolver o problema das crianças que
ficam sozinhas.
Veja
O que as instituições para menores infratores
devem fazer?
Laub
Educar as crianças e os adolescentes. Pelo menos assim eles saem
de lá alfabetizados. Também devem oferecer cursos práticos,
o que lhes dá a oportunidade de conseguir um emprego no futuro.
Nos Estados Unidos, estamos dando muita atenção ao modo
como os infratores voltam ao convívio social. Ao mesmo tempo que
decide ser implacável com o crime, o Estado tem de ajudar essas
pessoas a encontrar trabalho e escola e continuar oferecendo tratamento
para alcoólatras e usuários de drogas.
Veja
O jeitinho brasileiro é prejudicial no combate ao crime?
Laub A
postura das pessoas, o aspecto cultural, é muito importante. Mas
não podemos esquecer que a maioria das pessoas em várias
partes do mundo tenta dar um jeitinho se acha que pode ficar imune. Quanto
mais policiais por perto, mais pessoas seguem a linha. A legitimidade
das leis e da polícia incentiva a obediência às regras.
É importante mostrar à população que as leis
são justas e existem para protegê-la. Ninguém gosta
de cair numa blitz no trânsito. Por outro lado, todos são
a favor de que criminosos violentos sejam presos. Se a população
for conscientizada de que a polícia pode colocar as mãos
em bandidos perigosos nas blitze, talvez não fique tão de
mau humor.
Veja
Qual o papel da religião?
Laub
As pesquisas sobre religião e crime não são claras.
À primeira vista, as pessoas religiosas são menos propensas
ao crime. Mas será que não estamos nos enganando ao isolar
esse fator? Nossas pesquisas mostram que as crianças ligadas à
religião são as mesmas que têm uma relação
mais próxima com a família. Qual é o fator mais determinante?
A religião ou a família? A religião pode ser um dos
fatores que motivam mudanças radicais na vida das pessoas. O presidente
George W. Bush diz, por exemplo, que parou de beber por causa da fé.
Veja
Por que os índices de criminalidade variam tanto?
Laub
Nos Estados Unidos, em meados dos anos 80, houve um grande aumento de
crimes violentos cometidos por adolescentes. Particularmente homicídios.
Eram homens, jovens e, na maioria da vezes, negros. Por quê? A entrada
de crack mudou o tráfico. Jovens foram chamados para distribuir
a droga. Como era perigoso, começaram a se armar. E o passo seguinte
foi um aumento incrível da violência, que acabou se alastrando.
Pessoas ficaram com medo e passaram a carregar armas. Por isso, brigas
com final trágico também aumentaram. Dez anos depois, houve
uma queda fantástica de homicídios cometidos por jovens.
Por quê? Mais policiamento, mais combate ao uso de armas ilegais,
mais cooperação com a comunidade, especialmente as igrejas,
mais crianças na escola, mais jovens infratores em instituições
de recuperação. Qual o principal fator? Não sabemos.
O segredo não é buscar a solução, mas as soluções.
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