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Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
Entrevista: John Laub

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Uma agressão gratuita

Especialista americano diz que
é possível vencer rapidamente
o crime e que o respeito à lei se
aprende em casa

Eduardo Salgado


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VEJA de 6/2/2002 - O mais experiente policial brasileiro em negociações com seqüestradores fala como agir para um seqüestro não acabar em tragédia.

O sociólogo americano John Laub, presidente da Sociedade Americana de Criminologia e professor da Universidade de Maryland, foi vítima de um crime pela última vez há quinze anos, quando morava em Boston e sua casa foi arrombada. Isso não o impediu de conhecer e falar cara a cara com dezenas de bandidos. Laub estuda a criminalidade desde o começo dos anos 70. Foi co-autor do estudo que mostrou que a delinqüência juvenil pode explodir de uma hora para a outra devido à ligação com o narcotráfico, o acesso a armas e à ação ineficaz da polícia. Atualmente trabalha no livro Boys in Trouble and How They Age (Meninos Metidos em Problemas e Como Eles Envelhecem), uma pesquisa exaustiva que acompanha até os 70 anos a vida de pessoas que estiveram presas na juventude. O trabalho dele reforça a idéia de que os criminosos são versáteis. Ou seja, o sujeito que rouba bancos também passa sinal vermelho e comete outros crimes menores – tese que influiu na adoção da tolerância zero contra o crime em Nova York. Ainda saboreando a entrada da única filha no curso de medicina, Laub, aos 48 anos, falou a VEJA de seu escritório na Universidade de Maryland, próximo a Washington.

Veja – Cidades como Nova York, nos Estados Unidos, e Bogotá, na Colômbia, conseguiram diminuir o crime de forma dramática nos últimos anos. Qual é o melhor modelo para combater o crime?
Laub –
Não existe um modelo único nem uma decisão que seja a mais importante. Mas é certo que tem solução. O crucial é o bandido saber que o risco de ele ser pego, julgado e condenado é muito grande. Há vários pontos que precisam de atenção. Aumentar o policiamento e promover o contato com a comunidade são alguns. Também é importante maior coordenação entre policiais e promotores.

Veja – Quais são os requisitos básicos para diminuir as taxas de criminalidade?
Laub – As pessoas cometem crimes por vários motivos, que vão da impulsividade a fatores sociais mais estruturais, como desigualdade econômica. Mas são as oportunidades que fazem com que elas executem os crimes. No curto prazo, deve-se trabalhar para diminuir as oportunidades. Combater tráfico de drogas, uso de armas e as gangues. Isso reduz os índices de criminalidade rapidamente. No longo prazo, os fatores são outros: sociais e econômicos.

Veja – O que a polícia deve fazer?
Laub – As mudanças verificadas nas cidades americanas nos anos 90 são conseqüência direta do trabalho de chefes de polícia com grande liderança, como William Bratton em Nova York. Ele mudou a cultura da polícia e o gerenciamento das informações. A polícia precisa mapear os crimes. Sabemos que há áreas muito mais violentas que outras e horas em que os crimes acontecem com mais freqüência. O mesmo vale para certos grupos de pessoas. A polícia precisa priorizar o combate nesses pontos e nesse pessoal. Quando os crimes se moverem para outras zonas e horários, é necessário estar em cima. Também vale a pena coibir os crimes leves.

Veja – Por que combater pequenos delitos quando há tantos crimes violentos ocorrendo?
Laub – Uma das coisas que sabemos sobre criminosos é que eles geralmente cometem vários crimes. Ao combater pequenas infrações, a polícia pode acabar pegando um criminoso que está sendo procurado por um crime grave. Sem contar a oportunidade de prender gente que está carregando armas ilegais. Nos Estados Unidos, a queda da criminalidade também foi resultado do aumento do número de prisões. Os criminosos foram tirados do ar. Estima-se que 25% da queda foi conseqüência das prisões.

Veja – É possível combater o crime com uma força policial corrupta?
Laub – Impossível. Você não pode pedir a uma organização criminosa que reduza o crime. É preciso mudar a cultura da polícia para que a população volte a ter confiança em seus agentes de segurança. Uma operação interna tem de acabar com a corrupção e outra, externa, precisa melhorar a imagem da instituição perante a população. Várias cidades dos Estados Unidos tiveram polícias extremamente corruptas e conseguiram vencer essa dificuldade.

Veja – De que forma a cooperação entre policiais e promotores ajudou a combater o crime nos Estados Unidos?
Laub – Em Boston, o problema era o crime juvenil. Uma das estratégias usadas pelas autoridades foi marcar encontros com os líderes das gangues. Os policiais, os promotores municipais e os estaduais participavam dessas reuniões e diziam o seguinte: "Estamos vivendo numa nova era e não vamos mais tolerar a ação criminosa". Avisavam que estavam trabalhando em conjunto e que a desorganização e a falta de diálogo entre as instituições eram coisa do passado. Quando policiais e promotores trabalham em conjunto, os processos são julgados mais rapidamente e as probabilidades de condenação aumentam.  

Veja – Os criminosos medem os riscos de ser pegos antes de assaltos e roubos?
Laub – Sim. Muitos pensam como empresários, avaliando oportunidades e riscos. Exercitam algum tipo de escolha racional. Nós, os estudiosos, precisamos prestar mais atenção ao processo de decisão dos bandidos. Eles não atuam no vácuo e tampouco agem dominados por forças incontroláveis. Mas é preciso lembrar que esse processo de decisão acontece em um contexto e é diferente para adolescentes e adultos. Os adolescentes pensam no curto prazo, são mais impulsivos. A maioria atua em grupos. Na frente dos companheiros é mais difícil assumir ter medo.  

Veja – É mais importante prevenir ações criminosas ou responder rapidamente a elas?
Laub – Isso depende da situação. O aumento acentuado de crimes violentos tem forte influência na vida das pessoas. As famílias têm experiências com mortes e lesões. A comunidade se sente extremamente vulnerável e com medo. Diminui muito a qualidade de vida. Isso tem fortes conseqüências não apenas na vida das pessoas como também na economia. Gente com medo não sai na rua a qualquer hora, e quem tem uma loja ou supermercado perde dinheiro. No curto prazo, a polícia precisa combater o crime violento para que a população se sinta segura e comece a pensar em prevenção de longo prazo. Também é primordial atacar as causas sociais e econômicas. As duas coisas precisam andar juntas.

Veja – À medida que ficam mais velhos os criminosos mudam para crimes em que o risco de ser pegos é menor?
Laub – Infelizmente é impossível chegar a uma conclusão definitiva sobre essa questão. Há uma grande controvérsia. Alguns estudiosos dizem que muitos criminosos nunca param de se envolver em encrencas. Continuam dirigindo bêbados ou batendo na mulher, dois tipos de crime difíceis de ser detectados pela polícia. Já as minhas pesquisas indicam que muitos criminosos realmente param. Acho que as duas coisas acontecem. 

Veja – Por que os criminosos desistem do crime?
Laub – Há várias teorias. Acredito na importância das relações sociais, entre pessoas ou instituições. O criminoso investe numa pessoa ou instituição e depois não quer perdê-la. Ao longo dos anos, os criminosos têm algumas oportunidades de mudar de vida radicalmente, de trocar de lado. Muitas vezes, essa mudança não acontece da noite para o dia, é um processo. Um dos fatores da mudança é o casamento com uma pessoa a quem se sentem fortemente ligados. Outro fator é a identificação com o trabalho. Educação e religião são também importantes. Os criminosos precisam de um divisor de águas. Muitos dos que desistem do crime falam que tiveram duas vidas. Uma de bandido e outra de pai de família.  

Veja – Qual é o fator mais importante?
Laub – É o casamento. Há evidências de que o matrimônio tem várias conseqüências positivas. Não só contra o crime. O casamento está relacionado com estabilidade econômica e a compra da casa própria. Os casados são mais saudáveis e há quem defenda que eles têm até vida sexual melhor. Quanto a isso, já não sei se as evidências são tão fortes.  

Veja – O senhor é a favor da prisão perpétua?
Laub – Temos de nos perguntar qual é o objetivo da prisão perpétua. Se formos a favor para evitar que uma pessoa volte às ruas e cometa mais crimes, então estamos em dificuldades. É muito problemático. Primeiro, porque os criminosos perigosos continuam cometendo crimes dentro das prisões contra os carcereiros e outros presos. Segundo, porque é impossível prever quem vai continuar na vida do crime e quem irá desistir. Também não podemos esquecer que algumas pessoas abandonam os crimes mais sérios à medida que ficam mais velhas. Por outro lado, instituir a prisão perpétua é defensável para desestimular o crime, para que a sociedade deixe bem claro o que não tolera.  

Veja – Onde aprendemos a obedecer à lei?
Laub – Em casa, com a família. A escola e a universidade são os lugares onde a socialização ocorre e esses valores são reforçados. Famílias fortes, em que pais e filhos desenvolvem uma relação de amor e confiança, são a estratégia mais eficaz contra o crime. Os pais precisam ter uma postura disciplinadora quando os filhos não seguem certas regras. Não estou falando em punição física, que pode fazer mais dano que bem. Mas as piores coisas que os pais podem fazer é não dar limites aos filhos, discipliná-los de forma errática ou sem consistência. Isso pode causar comportamento anti-social, delinqüência e, mais tarde, crime. Dito isso, quero deixar claro que o papel dos pais não é o de agentes de controle social. Precisam amar e proporcionar conforto aos filhos. Mas a questão dos limites é central.

Veja – A delinqüência está concentrada em famílias pobres?
Laub – Não. É encontrada em todas as classes sociais. Adolescentes ricos e pobres se envolvem em crimes, especialmente os menos graves, como o uso de drogas. Já os mais sérios, como assaltos a mão armada e homicídios, são mais comuns entre os pobres. A maioria das pessoas pobres vive em famílias estruturadas que dão carinho e impõem limites aos filhos. Mas alguns fatores são estruturais. É mais comum encontrar crianças de famílias pobres que ficam sozinhas porque os pais são obrigados a trabalhar e não têm com quem deixá-las. Crianças sem supervisão geralmente se metem em encrenca. Sem falar no stress causado pela falta de dinheiro. Nos bairros onde os pobres se concentram, as escolas são ruins, há poucas áreas de lazer, as condições de saúde são péssimas e as chances de progredir economicamente são poucas. Para completar, há mais oportunidade de se envolver em crime: gangues, drogas e armas. Essa é uma área em que o Estado pode ter papel decisivo. Melhorias nesses bairros podem ter efeitos incríveis. Creches, escolas de dois turnos podem resolver o problema das crianças que ficam sozinhas.

Veja – O que as instituições para menores infratores devem fazer?
Laub – Educar as crianças e os adolescentes. Pelo menos assim eles saem de lá alfabetizados. Também devem oferecer cursos práticos, o que lhes dá a oportunidade de conseguir um emprego no futuro. Nos Estados Unidos, estamos dando muita atenção ao modo como os infratores voltam ao convívio social. Ao mesmo tempo que decide ser implacável com o crime, o Estado tem de ajudar essas pessoas a encontrar trabalho e escola e continuar oferecendo tratamento para alcoólatras e usuários de drogas.  

Veja – O jeitinho brasileiro é prejudicial no combate ao crime?
Laub – A postura das pessoas, o aspecto cultural, é muito importante. Mas não podemos esquecer que a maioria das pessoas em várias partes do mundo tenta dar um jeitinho se acha que pode ficar imune. Quanto mais policiais por perto, mais pessoas seguem a linha. A legitimidade das leis e da polícia incentiva a obediência às regras. É importante mostrar à população que as leis são justas e existem para protegê-la. Ninguém gosta de cair numa blitz no trânsito. Por outro lado, todos são a favor de que criminosos violentos sejam presos. Se a população for conscientizada de que a polícia pode colocar as mãos em bandidos perigosos nas blitze, talvez não fique tão de mau humor.

Veja – Qual o papel da religião?
Laub – As pesquisas sobre religião e crime não são claras. À primeira vista, as pessoas religiosas são menos propensas ao crime. Mas será que não estamos nos enganando ao isolar esse fator? Nossas pesquisas mostram que as crianças ligadas à religião são as mesmas que têm uma relação mais próxima com a família. Qual é o fator mais determinante? A religião ou a família? A religião pode ser um dos fatores que motivam mudanças radicais na vida das pessoas. O presidente George W. Bush diz, por exemplo, que parou de beber por causa da fé.

Veja – Por que os índices de criminalidade variam tanto?
Laub – Nos Estados Unidos, em meados dos anos 80, houve um grande aumento de crimes violentos cometidos por adolescentes. Particularmente homicídios. Eram homens, jovens e, na maioria da vezes, negros. Por quê? A entrada de crack mudou o tráfico. Jovens foram chamados para distribuir a droga. Como era perigoso, começaram a se armar. E o passo seguinte foi um aumento incrível da violência, que acabou se alastrando. Pessoas ficaram com medo e passaram a carregar armas. Por isso, brigas com final trágico também aumentaram. Dez anos depois, houve uma queda fantástica de homicídios cometidos por jovens. Por quê? Mais policiamento, mais combate ao uso de armas ilegais, mais cooperação com a comunidade, especialmente as igrejas, mais crianças na escola, mais jovens infratores em instituições de recuperação. Qual o principal fator? Não sabemos. O segredo não é buscar a solução, mas as soluções.

 
 
   
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