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Gustavo
Franco
Juros: por que
tão altos?
"Diz
a teoria que os juros domésticos devem
ser tais que não haja entradas nem saídas
contínuas de capital, pois nenhuma dessas
situações
pode ser duradoura"
Ilustração Alê Setti
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Hoje em dia praticamente não existe a escolha entre ser ou não
ser uma economia aberta, no que diz respeito a fluxos financeiros. O capital
é um ser que habita em cima do muro e que a todo momento observa
a taxa de retorno no país e fora dele, sempre tomando em conta
níveis comparáveis de risco. Tecnicamente, esse comportamento
é descrito pelo termo "arbitragem internacional". Numa linguagem
mais leiga, diz-se que o capital é "especulativo". Na verdade,
não há capital que não funcione dessa forma nem capitalista
(poupador) que não pense diferente.
A fim de
demonstrar essas proposições, é conveniente traduzir
para o leitor o que diz a teoria econômica sobre essa "arbitragem
internacional de capitais". Não se trata de nada complicado e serve
para responder a uma pergunta muito freqüente de bom número
de brasileiros: por que temos uma taxa de juros tão alta no Brasil?
Diz a teoria
que os juros domésticos devem ser tais que não haja entradas
nem saídas contínuas de capital, pois nenhuma dessas situações
pode ser duradoura. Assim sendo, a taxa de juros dentro do Brasil tem
de ser tão boa quanto uma aplicação lá fora,
sempre lembrando que deve ser no mesmo nível de risco. Para simplificar
a comparação, tomem-se dois títulos do governo de
mesmo prazo, um da dívida interna, com juros prefixados em reais,
outro da dívida externa, que paga juros e amortização
em dólares.
Os títulos
da dívida externa são transacionados com certo desconto,
o que é o mesmo que dizer que os juros que eles efetivamente pagam
é maior que seus juros contratuais do papel. Hoje, um bônus
da dívida externa pode ser comprado de tal sorte a oferecer um
retorno de uns 14% em dólar, os quais costumam ser decompostos
em dois pedaços: uma parte (hoje por volta de 2%) equivale à
taxa de juros do Tesouro americano e a outra (por volta de 12%) é
o chamado "risco país".
Pois bem,
o último passo para estabelecer qual o juro doméstico de
"equilíbrio" é perguntar como se compara uma taxa de juros
em dólar de 14% com uma taxa prefixada em reais. A resposta depende
do regime cambial.
Em 1995/1997,
quando a taxa de câmbio se desvalorizava cerca de 8% ao ano, na
vigência do sistema de bandas (que muita gente, erradamente, chama
de câmbio fixo), a resposta era simples. Naquele tempo, todavia,
a taxa de juros americana esteve mais alta, em torno de uns 5%, em média,
e o "risco país" bem mais baixo, talvez uns 6%, em média.
Com isso, era verdade quando se dizia que a taxa de juros não podia
cair muito abaixo de 5% + 6% + 8% = 19%, pois, se isso ocorresse, ia sair
capital.
Dizia-se
também que se o regime cambial mudasse tudo ia ser diferente, o
que não se observou exatamente. Em 2000 (vamos abstrair anos de
crise, 1998 e 1999, em que tudo é bem mais confuso), os juros americanos
foram maiores, algo como 6,5%, e o risco Brasil também maior, em
torno de 7,5%, e o que se verificou é que sempre vai haver um "risco
cambial" que transforma uma aplicação em dólares
numa em reais, e vice-versa.
Ou seja,
num regime de flutuação cambial, o sujeito que dispunha
de um retorno em dólares de 6,5% + 7,5% = 14% e quisesse aplicar
em reais teria de considerar uma expectativa de desvalorização,
ou melhor, um risco de flutuação, que ficou muito alto porque
o câmbio flutuava bastante. Sendo esse prêmio por volta de
5%, os juros domésticos tinham de ficar, como de fato ficaram,
nos mesmos 19% de antes.
Em 2001,
os juros americanos caíram para 2%, mas, por causa da Argentina,
e também por mazelas nossas, o "risco país" subiu para 12%.
Com o risco decorrente da volatilidade cambial na mesma faixa de 5%, os
juros permaneceram nos mesmos 19%.
Os números
acima mostram três momentos de nossa economia nos quais, por diferentes
motivos, os juros estiveram em 19%. Os exemplos servem para provar que,
assim como a teoria econômica, a arbitragem internacional de capitais
continua relevante. Outra maneira mais picante de dizer isso é
observar que é tão tolo dizer que havia uma "dependência
de capitais especulativos" antes de 1999 quanto dizer que hoje não
há.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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