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Tibete Uma guerra por almasCom
mistura de repressão e algum desenvolvimento,
Os bilhões de iuans que o governo central tem injetado na economia tibetana produziram resultados visíveis, pelo menos do ponto de vista material. Em 1997, a economia local engordou 10%, um índice superior ao da China, especialmente no atual momento de desaceleração. Há quatro décadas, só se viajava pelo Tibete a pé ou no lombo de animais. Agora há estradas asfaltadas e vôos diários para Pequim. Construíram-se pontes, escolas e hospitais. Embora a imensa maioria dos tibetanos continue vivendo da agricultura e do pastoreio, surgiu uma classe média resignada à necessidade de educar os filhos em escolas chinesas. A contrapartida são os depósitos de lixo atômico, as indústrias poluentes, a "bomba humana" da expansão populacional chinesa a imigração de empresários e trabalhadores braçais da vizinha e superpovoada (110 milhões) província chinesa de Sichuan é ativamente incentivada. Cinco décadas atrás, quando o "teto do mundo", como é tradicionalmente chamado, ainda estava fechado aos visitantes, não havia um só estrangeiro em Lhasa, a capital. Os chineses são agora metade dos 198.000 moradores da cidade encarapinhada a 3.650 metros de altura. Nos últimos dez anos, dois terços das construções tradicionais foram postos abaixo para dar lugar aos edifícios cinzentos e monótonos típicos dos regimes comunistas. Os 2,4 milhões de tibetanos (guardados por uma desproporcional guarnição de 200.000 soldados chineses), no entanto, resistem à integração forçada. Como numa espécie de Polônia oriental, a religião é o que os une e lhes dá força para resistir. O aspecto mais marcante da vida cotidiana é a apaixonada rezaria dos tibetanos. Todos os dias, a qualquer hora, milhares de peregrinos giram os "cilindros de orações" e fazem oferendas de ervas e incenso no templo de Jokhang, o mais venerado do país. Andando pelas ruas íngremes de Lhasa, os budistas mal olham para a seqüência de cassinos e casas de massagem, fachadas para pontos de prostituição, que denunciam a presença chinesa. Não que o budismo tibetano proíba o jogo ou incrimine o sexo. A revolta dos habitantes e peregrinos de Lhasa é contra a ocupação do país, o exílio do dalai-lama e a obstinada tentativa de destruir a identidade tibetana. O ressentimento explodiu numa revolta popular em 1959, suprimida com 87.000 mortos e a fuga para o exterior do dalai-lama, seguido por 100.000 tibetanos. Desde então, têm eclodido protestos esporádicos, mas a mão de ferro do regime chinês sufoca qualquer movimento organizado. Tanto a repressão quanto as tentações do progresso material esbarram na religiosidade arraigada dos budistas. A crença básica dessa filosofia é a de que as orações e a meditação aprimoram o carma, a lei moral que governa as reencarnações sucessivas de todas as almas até se atingir o nirvana, estágio de cessação de todos os desejos e fim do ciclo de renascimentos. Uma característica marcante da versão tibetana do budismo é a participação intensa da população nos assuntos religiosos. Quando os comunistas tomaram o país, um em cada quatro tibetanos pertencia a uma ordem religiosa. Outra é o sistema de lamas (o alto clero) reencarnados, fundindo a autoridade espiritual e a temporal na pessoa do principal deles, o dalai-lama (a atual é o 14º de uma seita no poder desde o século XVII). Em torno do líder exilado, que se instalou numa cidade indiana, reúne-se a única resistência organizada. Monges mais jovens andam namorando a idéia de um levante armado, mas o dalai-lama permanece fiel ao mais absoluto pacifismo, política que lhe garante grande simpatia no exterior e resultados nulos em relação aos chineses. Grotão místico O fascínio que o misticismo tibetano desperta no Ocidente e o ótimo trânsito internacional do dalai-lama operaram o milagre de transformar essa causa obscura a liberdade de um longínquo grotão do Himalaia em tema conhecido e charmoso. O problema, obviamente, é que a China tem a força: econômica, militar e diplomática. E defende obstinadamente a tese de que o Tibete é tão chinês quanto Hong Kong, o enclave cedido à força à Inglaterra colonialista, transformado em paraíso capitalista e devolvido em 1997. Não é o caso do teto do mundo. Apesar de uma vassalagem centenária, em nenhum momento da História antiga a China exerceu poder direto no Tibete. Entre 1913 e 1950, ano da invasão chinesa, o país foi praticamente independente. Longe de ser o nirvana social propagandeado pelo romantismo ocidental, era uma sociedade feudal, com castas e servos defeitos que o governo chinês repete e amplifica à exaustão para justificar a anexação. A China quer o Tibete por interesse estratégico, apetite territorial e destino imperial. Há muito tempo, o dalai-lama desistiu de reivindicar a independência e pede apenas autonomia, que incluiria a liberdade de culto e a restauração do ensino em língua tibetana. Pequim não quer nem ouvir falar nisso, inclusive pelo receio de que a mínima concessão possa incentivar o separatismo entre outras minorias étnicas do vasto império do meio. A China sabe que o líder tibetano é pragmático no relacionamento com o vizinho grandalhão e belicoso. Ainda adolescente, ele prestou reverência a Mao Tsé-tung (até hoje manifesta surpreendente simpatia pelo homem que massacrou seu povo) e, por falta de opção, aceitou quando lhe exigiram declarações de submissão à China e ao comunismo. Nada disso adianta. A própria veneração dos tibetanos ao líder espiritual, que a maioria nunca viu pessoalmente, é um obstáculo intragável, do ponto de vista chinês. Por definição, o dalai-lama está acima dos desacordos mundanos. Ungido aos 3 anos de idade, ele é um homem que entende o jogo político e as forças em ação no mundo contemporâneo, a ponto de relevar alguns de seus atributos tradicionais. "Há budistas que me consideram um Buda vivo. Isso é bobagem e é errado", desconversa. Os lamas são detectados entre crianças comuns pelos monges budistas por meio de sonhos e presságios. É nesse terreno, curiosamente, que se travou a última grande batalha pela alma tibetana. Em 1995, os chineses seqüestraram o menino designado pelos monges como reencarnação do panchen-lama, segundo homem na hierarquia espiritual tibetana, e impuseram a própria escolha, outro garoto, hoje com 10 anos de idade. Talvez esteja aí uma pista da estratégia chinesa: esperar para resolver o assunto com a próxima reencarnação do dalai-lama.
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