Brasil
Trágico, absurdo, previsível
Na
virada do ano, os temporais de verão voltam a destruir e matar. Angra
dos Reis, a cidade mais atingida, é a síntese de um drama brasileiro
que tem como protagonistas o descaso das autoridades e a falta de infraestrutura

Marcelo
Bortoloti
André Luiz Mello/Ag. O Dia
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A
POUSADA SANKAY (acima, à esq.) antes da noite de réveillon,
quando foi soterrada por uma avalanche
que matou 31 pessoas na Enseada
do Bananal (foto grande): embora deslizamentos sejam frequentes,
não
há mapeamento geológico da região |
Todos os anos, chuvas de verão
derrubam pontes, fecham estradas, deixam milhares de brasileiros desabrigados,
matam. Em seguida, autoridades partem em romaria para os locais afetados, fazem
discursos compadecidos e prometem verbas ou obras emergenciais, como se tivessem
sido colhidas de surpresa pela catástrofe. Desta vez, 126 pessoas morreram
no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, os estados mais
atingidos. O número de desabrigados passa de 3 000, e 39 municípios
decretaram estado de emergência ou calamidade pública. Entre eles,
Angra dos Reis é o caso mais dramático e, também, o retrato
mais preciso do conjunto de fatores que desencadeia esse tipo de tragédia.
Ali, morreram 52 pessoas, na virada do ano, vítimas de deslizamentos de
encostas. Tudo era previsível. Na bela região em torno da Baía
de Angra, com suas 365 ilhas e mais de 2 000 praias, chove quase o dobro
da média do Rio de Janeiro, e a instabilidade das encostas é conhecida.
Em 2002, 39 pessoas morreram em Angra num deslizamento com características
semelhantes às de agora. Apesar disso, nunca foi feito um mapa geológico
para verificar quais terrenos são impróprios para construção.
A ocupação do solo é regida por regras municipais, estaduais
e federais que se sobrepõem, e ninguém as cumpre. Como se não
bastasse, existe um impressionante histórico de corrupção
nos órgãos responsáveis pela fiscalização em
Angra.
É verdade que, do começo de dezembro
até a primeira semana de janeiro, caiu o dobro de água do que se
esperava. Foi o maior índice em dez anos. Só nos dois últimos
dias de 2009, desabaram sobre Angra 220 bilhões de litros de água,
o suficiente para encher 116 000 piscinas olímpicas. Mas não
é essa a principal explicação para o que aconteceu na cidade,
que experimentou um vertiginoso crescimento populacional a partir dos anos 1970.
A construção da Rodovia Rio-Santos aumentou o fluxo de turistas,
e grandes obras, como a usina nuclear de Angra 1, levaram multidões de
trabalhadores à região. A população do município,
que era de 40 000 habitantes na década de 70, dobrou em 1990 e triplicou
em 2000, quando 5,5% já moravam em favelas. É um crescimento de
quase três vezes a média brasileira no período. E num local
onde o problema de espaço é crônico. Espremida entre a serra
e o mar, a cidade não tem para onde crescer. Casas e casebres foram se
aglomerando no pé dos morros e, quando não havia espaço,
em cima deles. Hoje, 60% dos moradores vivem em áreas de encosta. E as
características do relevo da região tornam tudo mais perigoso (veja
o quadro).
Ana
Branco/Ag. O Globo
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ESPANTADO,
GOVERNADOR?
Sérgio Cabral no Morro da Carioca,
onde morreram
21 pessoas:
providências atrasadas |
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Na Enseada do Bananal,
na Ilha Grande, morreram 31 pessoas soterradas. Elas estavam na pousada Sankay
e em cinco outras residências engolidas por uma avalanche na madrugada do
dia 1º. A pousada tinha licença de funcionamento da prefeitura, mas
não a licença ambiental do estado. Mesmo se tivesse, o risco de
deslizamento da encosta não teria sido analisado. As casas atingidas no
Morro da Carioca, no centro de Angra, onde morreram 21 pessoas, tampouco
tinham licença. Antes da tragédia, porém, a prefeitura
dispunha de um programa para levar saneamento e iluminação pública
para aquela área, como se não houvesse um grave problema de segurança.
Em Angra sempre foi mais fácil construir e depois conseguir licença,
fosse por acordo, fosse simplesmente comprando uma autorização. Entre 2006 e 2007, 44 funcionários da prefeitura de Angra, do governo
estadual e do Ibama foram presos por vender pareceres técnicos favoráveis
às construções. A situação chegou a tal ponto
que, em junho do ano passado, o governador Sérgio Cabral assinou um decreto
autorizando retroativamente a construção em áreas que antes
não eram edificáveis na zona de proteção ambiental,
como se legalizar o que foi feito na marra fosse solução. Cabral,
aliás, não visitou a região imediatamente, como era seu dever.
A tragédia expôs os problemas de um dos destinos mais visitados do
país. Angra recebe 1,2 milhão de turistas por ano. Durante o verão,
3 milhões de reais diários entram na economia local, graças
ao turismo. De Tom Cruise a Madonna, as celebridades internacionais também
costumam bater ponto por lá. Cerca de 100 000 estrangeiros passam
anualmente pela cidade. No réveillon, Pierre Sarkozy, filho mais velho
do presidente da França, estava entre os hóspedes da Ilha dos Porcos
Grande, do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. A chuva causou dois
deslizamentos de terra, que abriram um gigantesco clarão na propriedade.
"Em quarenta anos na ilha, nunca vimos nada parecido", diz Helcius Pitanguy,
filho do cirurgião.
Não é a chuva que
mata, mas o descaso. E ele é nacional. Dos 645 milhões de reais
previstos no Orçamento da União em 2009 para ações
de prevenção de desastres, apenas 135 milhões foram utilizados.
Para o Rio de Janeiro estavam previstos 160 milhões de reais, mas foi empregado
menos de 1% do total. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(DNIT), responsável pela manutenção da estrada Rio-Santos,
estava licitando no ano passado obras para contenção de onze pontos
críticos da rodovia, que vive interrompida por queda de barreiras. Com
as chuvas, caíram 34 pontos. Como se não bastasse a pífia
execução do Orçamento, gasta-se mal. Em 2009, o país
destinou dez vezes mais em ações de resposta a desastres do que
em programas de prevenção. No mundo civilizado, são tomadas
providências para que a população viva segura em locais onde
as condições naturais são adversas. Resta saber até
quando o Brasil vai preferir pagar a conta dos desastres anuais. Este último
já custa, por baixo, 1,2 bilhão de reais.
Com reportagem de Ronaldo Soares e Silvia Rogar
Não
foi o rio que derrubou a ponte
Jefferson
Bernades/AFP
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No último dia 5, parte de uma ponte de
314 metros sobre o Rio Jacuí, a 240 quilômetros de Porto Alegre,
despencou. Entre vinte e trinta pessoas estavam sobre a estrutura de 132
metros que desabou. Três delas morreram. Outras duas ainda estavam
desaparecidas na noite da sexta-feira. O governo gaúcho atribui o desastre
à elevação das águas do Jacuí. Por essa versão,
o rio subiu até a pista, que se partiu. Os sobreviventes dão outro
testemunho. "As águas estavam 5 metros abaixo do concreto", diz
o aposentado Élio Prade, de 57 anos. Erguida há 47 anos, a ponte
já apresentara falhas de engenharia. Nos anos 70, seu vão central
afundou, formando um enorme degrau. Seus alicerces não eram vistoriados
havia três anos, e, dois anos atrás, os promotores estaduais começaram
a apurar a negligência na manutenção da rodovia da qual ela
faz parte.
Igor Paulin, do Rio Grande do Sul |
Três
séculos de história escorreram em
poucas horas
Roosevelt Cassio/Reuters
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DESTRUIÇÃO
Cerca
de 25% do patrimônio colonial de São Luiz do Paraitinga foi destruído
e um terço dos moradores perdeu suas casas |
Na noite de 31 de dezembro, quando moradores da
pequena São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, comemoravam
o réveillon na praça principal, a garoa começou. Durante
a madrugada, virou chuva grossa e, no início da tarde do dia 1º, o
rio que corta o município, o Paraitinga, já transbordava. "Ele
subia 50 centímetros a cada meia hora", lembra a prefeita Ana Lúcia
Bilard Sicherle. Na madrugada do dia 2, com dezenas de casas submersas, a luz
da cidade teve de ser desligada para que os botes de resgate pudessem circular
com menos risco. A essa altura, o Paraitinga estava quase 10 metros acima
do nível normal e, nas ruas, a enchente invadia até o 2º andar
dos sobrados. Foi só no começo da tarde do dia 2, quando as águas
finalmente começaram a baixar, que os 10 000 moradores de São
Luiz do Paraitinga puderam ver toda a extensão da tragédia. O centro
histórico, na parte mais baixa da cidade, parecia ter sido alvo de um bombardeio.
Dezenas de casarões coloniais construções de pau a
pique e taipa do auge do período cafeeiro foram ao chão.
Estima-se que 25% do centro histórico tenha sido destruído. A Igreja
Matriz de São Luiz de Tolosa desapareceu da paisagem. Mais de 2 000
moradores, um terço da população urbana, tiveram suas casas
destruídas ou interditadas.
Na semana passada, cinco
dias depois do temporal, São Luiz ainda era só escombros. Bujões
de gás podiam ser vistos em cima de telhados e carros se equilibravam por
sobre os pedaços que haviam restado da igreja matriz, onde quase todo mundo
na cidade se casou ou foi batizado. Praticamente só o que restou de São
Luiz foram 1 000 toneladas de entulhos, que um vaivém de caminhões
agora tenta recolher. A Igreja do Rosário, na parte alta do município,
foi transformada em quartel-general, no qual centenas de pessoas, coordenadas
por voluntários ao microfone, distribuem leite e alimentos aos desabrigados.
Além da agropecuária, São Luiz do Paraitinga
tinha no turismo uma de suas principais fontes de renda. A cidade era dona de
um dos maiores conjuntos arquitetônicos tombados do Estado mais de
400 de suas construções eram consideradas patrimônio histórico.
Só no Carnaval, o lugar recebia 200 000 turistas, atraídos
pelo charme de suas casinhas coloridas, suas ladeiras e bandas de música
especializadas em marchinhas antigas. Apenas daqui a noventa dias se saberá
quanto tempo e dinheiro serão necessários para reerguer o que a
chuva destruiu. Sem praça, sem banda de música, e com tantos motivos
para tristeza, São Luiz terá neste ano o seu Carnaval mais silencioso.
Laura
Diniz, de São Luiz do Paraitinga
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