Panorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Catástrofe: A tragédia em Angra dos ReisInternacional
• Terrorismo: O agente triplo que enganou a CIAGeral
• Tecnologia: A revolução da TV em terceira dimensãoArtes e Espetáculos
• Cinema: Onde Vivem os Monstros, de Spike JonzeHistóriaHerói nacional, para sempreEstadista, historiador, diplomata e sedutor. E, acima de tudo,
|
|||||||||||||||||
Fundação Joaquim Nabuco![]() |
| O ABOLICIONISTA Joaquim Nabuco e a definição de seu papel: "Um mandato a que não se pode renunciar" |
Num domingo, dia 13, a princesa Isabel desceu a serra. Vinha de
Petrópolis e ia para um lugar de honra na história. Com os olhinhos
azuis iguais aos do pai, contemplou a multidão tomada de enorme comoção
que estava na frente do palácio imperial, no centro do Rio. Usava um
vestido de seda marfim, enfeitado com rendas francesas, e assinou com mão
firme as palavras de explosiva simplicidade escritas no documento à sua
frente: "É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão
no Brasil". Para quem olha o passado com displicência retroativa,
a história termina aí: transformações econômicas
e políticas empurraram um regime falido a aceitar a libertação
da massa vilmente explorada, com a participação de um ou outro
representante da elite esclarecida. Mas afastemos um pouquinho a cortina alegórica
que cerca o 13 de maio de 1888. Assinada a lei, Isabel voltou-se para o homem
alto e elegante que estava a seu lado naquele momento emocionante. "Estamos
reconciliados?", perguntou. Como perfeito cavalheiro que era, Joaquim Nabuco
acedeu e beijou a mão da princesa. Depois assomou à janela, para
saborear o momento de glória e a adulação da massa. Aquele
dia era dele, mais do que de qualquer um.
Não existe a mínima prova histórica, ainda mais no caso de uma princesa carola e apaixonada pelo marido, mas não é impossível imaginar pelo menos uma pontinha de flerte na pergunta de Isabel. As mulheres não resistiam a Nabuco. Aliás, os homens também não. No campo das ideias e da camaradagem viril, evidentemente. Joaquim Nabuco, que ressurge das brumas históricas ainda que fugazmente, em virtude do centenário de sua morte, neste dia 17, foi um personagem tão monumental que tudo em torno de sua extraordinária vida parece ser exagerado. Desvendada, a névoa do mito se revela, no entanto, tecida de verdade. Candidato a maior estadista da história nacional, embora no papel nunca tenha sido mais do que um simples deputado, Nabuco tem um título incontestável: foi o mais importante, o mais eloquente e o mais popular dos abolicionistas. Protagonizou o movimento pelo abolicionismo e, ao mesmo tempo, refletiu sobre a história que se desenrolava à sua volta, captando com a força de um intelecto preciso como laser a importância orgânica da escravidão na sociedade brasileira. No processo, como definiu o grande historiador Evaldo Cabral de Mello, escreveu "a mais brilhante análise do papel desempenhado pela escravidão na formação social e política do Brasil".
Fotos Fundação Joaquim Nabuco![]() |
| PAIXÃO NACIONAL O Brasil abraçou a causa abolicionista e seu mais conhecido defensor, Nabuco, que ganhou aura de ídolo pop: celebrado nas embalagens de cigarro, nas caricaturas e até no rótulo de cerveja |
"Absorvia-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me
como uma carícia muda toda a minha infância", escreveu ele
sobre a escravidão que conheceu como menino, num engenho pernambucano.
"Por felicidade da minha hora, eu trazia da infância e da adolescência
o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo - o bolbo que
devia dar a única flor da minha carreira." Não há
quem não se arrepie ao ler como o jovem Nabuco descobriu que a tepidez
do que parecia a ordem natural das coisas, de menino mimado pelas mucamas, era
na verdade brutal e amarga. Era menino ainda, estava sentado no patamar da escada
superior da casa onde havia sido criado pela madrinha, quando surgiu um jovem
de corpo castigado. Lançando-se a seus pés, o escravo pediu que
fosse comprado, salvando-o assim do senhor que o supliciava. "Foi este
o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição,
com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a
dor que ela ocultava", descreveu Nabuco. Nasceram ali as sementes que o
levaram a, mais tarde, autodesignar-se representante do "mandato do escravo",
explicado com palavras de impressionante contemporaneidade: "Delegação
inconsciente da parte dos que a fazem, interpretada pelos que a aceitam como
um mandato a que não se pode renunciar".
À luz da história no que tem de mais estéril - a entediante versão mil vezes repetida do 13 de maio e seus antecedentes -, é difícil reproduzir a força avassaladora que o movimento contra a escravidão despertou em todo o país. O que o Brasil teve de pior - o comércio, a servidão, a exploração e a indizível violência mil vezes cometida contra seres humanos - gerou o que o Brasil de melhor conseguiu oferecer, sob a forma da luta abolicionista. Foi uma história de homens tomados de paixão por uma causa justa e, entre eles, nenhum mais apaixonado do que o jovem pernambucano de família ilustre, pai, avô e bisavô senadores do Império, com muito berço e quase nenhum dinheiro, que se tornou o que de mais parecido poderia existir no século XIX com uma celebridade ao estilo contemporâneo, aclamado, paparicado e adorado.
Iconographia![]() |
| DIA DE GLÓRIA Missa em celebração da Lei Áurea, com a sua signatária, Isabel, sob o baldaquim: "Preciso bater-me pela princesa, a nossa Lincoln", prometeu Nabuco |
Nabuco pensava como um gigante histórico, polemizava como
um estivador e jogava para a plateia como um ídolo pop. Travada, em grande
parte, no centro da vida intelectual da época - os teatros -,
a campanha abolicionista forneceu o palco ideal a um Nabuco simultaneamente
confiante, arrojado, pedante, metido. Ou, na definição da cientista
social Angela Alonso, autora da ótima biografia Joaquim Nabuco (Companhia
das Letras), um "enamorado de si mesmo", impelido ao fulcro do cenário
nacional tanto pelo imperativo moral quanto pelo desejo de aplausos e aprovação
- que artista não se identificaria com ele? Entre os muitos palcos,
nenhum foi mais consagrador do que o do Teatro de Santa Isabel, no Recife natal,
onde as mulheres faziam fila nos camarotes especiais, suspiravam, lançavam
pétalas de rosas e lencinhos com seu rosto pintado. No ápice da
campanha e da popularidade, também se tornou marca de cigarros (Nabuquistas
e Príncipes da Liberdade), de cerveja (Salvator Bier) e até de
um modelo de chapéu (O Abolicionista, com um retrato dele). Pois, ainda
por cima, o herói da causa era bonito. "Branco alvíssimo",
numa descrição da época, media 1,86 metro e tinha olhos
de mormaço, como a Capitu que ainda haveria de nascer da cabeça
de seu amigo Machado de Assis. Correspondia, em tudo, até no bigodão,
uma novidade em relação às barbas da época, ao apelido
de Quincas, o Belo. Nos retratos e fotos, aparece sempre de mãos à
cintura ou com dois dedos no bolso do colete ou em alguma outra pose que gritasse:
sou o dono do mundo. Era assumidamente metrossexual, ou, como se dizia no século
XIX, um dândi, o tipo masculino preocupado com a aparência e sensível
a modismos. Usava robe de seda japonesa, malas Louis Vuitton e senso de humor.
"Riem e se cutucam quando entro na Câmara, culpa do meu terno de
casimira clara, do sapato inglês e do chapéu de palha", escreveu
a seu eterno e complicado amor, Eufrásia Teixeira Leite (leia mais). "Só para provocar usei outro dia a pulseira
de ouro. Aquela que me deste." A joia já havia dado o que falar.
Numa das campanhas eleitorais (ganhava, perdia, ganhava, perdia), os adversários
o apelidaram, maldosamente, de "candidato da pulseira".
Fotos Fundação Joaquim Nabuco![]() |
| INDO E VOLTANDO Nabuco nos Estados Unidos (fotografado com o filho Maurício em Palm Beach) e as honras na morte, que completa 100 anos: "De um lado do mar sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país" |
![]() |
Quem o julgasse apenas pela aparência polida incorreria
em grave erro. Nabuco sabia bater. No calor da campanha abolicionista, que inflamava
o país inteiro mas esbarrava na resistência composta de boa parte
dos políticos (tanto liberais quanto conservadores) e dos fazendeiros
do oeste paulista, do Vale do Paraíba e da zona cafeeira de Minas, escreveu
que o Brasil estava dividido em duas falanges: "A pirataria e a civilização".
Tinha, também, seu lado Tancredi, o personagem do Gattopardo de
Lampedusa (e do filme de Visconti), e sua excessivamente usada frase sobre as
mudanças necessárias para não mudar a ordem essencial das
coisas. Cheio, portanto, de contradições, sofria períodos
de depressão, pensou em emigrar para a Austrália ou a Nova Zelândia,
vivia dividido entre o Brasil e a Europa. "De um lado do mar sente-se a
ausência do mundo; do outro, a ausência do país", escreveu.
Enfim, a complexidade e os questionamentos que se esperam dos intelectos superiores.
Foi um monarquista esclarecido que escreveu contra Pedro II o panfletário O Erro do Imperador (daí a frase de Isabel no dia da abolição),
um interessado na "política que é história" que
conheceu o que a outra política tem de pior, um deputado que entrou para
a Câmara "tão inteiramente sob a influência do liberalismo
inglês como se militasse às ordens de Gladstone" e que acabou
incluído em artigo do Times de Londres na turma de "comunistas"
que usavam o abolicionismo radical para subverter a ordem.
Devido à multiplicidade e à riqueza tanto de sua personalidade quanto de sua obra política, até hoje é possível beber na fonte nabuquista a partir de diferentes perspectivas. Como em todas as grandes obras, cada um encontra em Nabuco o que procura - ou, melhor ainda, o que nem sabia existir. À esquerda, causa simpatia sua defesa da nacionalização das terras para uma reforma agrária que acabasse com a miséria provocada, em especial no Nordeste, pelo sistema de grandes propriedades, "fazendas ou engenhos isolados, com uma fábrica de escravos, com os moradores das terras na posição de agregados do estabelecimento, de camaradas ou capangas". Mas é difícil competir com sua análise da "superstição do estado-providência", pois, sendo o estado "a única associação ativa, aspira e absorve pelo imposto e pelo empréstimo todo o capital disponível e distribui-o, entre os seus clientes, pelo emprego público".
Voltando ao 13 de maio. Feito o beija-mão, Joaquim Nabuco recebeu as ondas intermináveis de aplausos. "Delírio no recinto, meu nome muito aclamado", anotou em seu diário. Quem acha que o Carnaval dura muito não imagina o que foi a festa da libertação dos escravos: sete dias de feriado nacional, todo mundo na rua, bandas e cortejos, prédios enfeitados, espetáculos gratuitos nos teatros. No dia 17, quando aconteceu a missa celebratória diante de 20 000 pessoas, Nabuco e Isabel de novo se cruzaram. Ela passava de carruagem, cercada pela massa eufórica. Nabuco surgiu e, como um Moisés no Mar Vermelho, caminhou entre a multidão, que se abriu para lhe dar passagem. Cumprimentou a princesa e lhe ofereceu camélias brancas, a flor do abolicionismo. Era festa, mas o destino dela e da monarquia que representava já estava selado. Sabendo disso, Nabuco prometeu a si mesmo: "Eu hei de ser o último dos monarquistas. Preciso bater-me pela princesa, a nossa Lincoln, como me bati pela abolição". Como homem honrado, cumpriu o prometido.
As imagens da escravidão que estão na memória de muitos de nós são as gravuras de Debret - meio apagadas, distantes, coisa de muito tempo atrás. Por isso é sempre um choque descobrir que a ignomínia do trabalho escravo conviveu por bom tempo com a fotografia, uma das novidades tecnológicas que inauguraram a era contemporânea. À exceção do impressionante e anônimo flagrante da mulher na liteira, com dois carregadores, as fotos aqui reproduzidas foram feitas por nomes conhecidos no século XIX, fundadores de estúdios fotográficos importantes. O alemão Alberto Henschel fotografou as duas mulheres, a babá com o menino e a do retrato ao lado, ambas belas e fortes. Marc Ferrez, o filho de franceses que mostrou tantas e tão deslumbrantes belezas do Rio, fotografou os escravos na colheita de café. O suíço Georges Leuzinger congelou no tempo a fazenda arrancada à rocha viva em Jacarepaguá, as crianças negras em andrajos, o menino branco todo arrumadinho no cavalo de brinquedo. Eles todos são nós e nós somos eles.
Fotos Museu Imperial/Ibram/Minc, Alberto Henschel/Coleção G. Ermakoff, Leibniz Institut Fur Landerkunde, Anônimo/Instituto Moreira Salles, Marc Ferrez/Coleção e Gilberto Ferraz/Instituto Moreira
Salles![]() |
|
![]() |
![]() |
![]() |
|
![]() |
|