Diogo Mainardi
Herbert Richers
vive
"Herbert Richers transformou
nossa linguagem.
Ele revogou todas as regras que constrangiam
nossa fala.
Em particular, ele nos libertou
da estapafúrdia
necessidade de expressar um sentido"
A morte de Herbert Richers foi o acontecimento mais marcante
de 2009. O mais marcante e, desoladoramente, o mais negligenciado. Herbert Richers
montou seu estúdio de dublagem em 1950. Em seis décadas de trabalho,
adaptando filmes, seriados de TV e desenhos animados, ele contribuiu de maneira
decisiva para moldar e disseminar o dialeto tapuio com o qual passamos a nos comunicar.
Se a língua portuguesa teve Camões com
seus latinismos, com seus volteios eruditos, com sua sonoridade épica ,
o patoá nacional teve Herbert Richers com seus estrangeirismos,
com seus falsos cognatos, com sua sonoridade de locutor de rádio. De dublagem
em dublagem, Herbert Richers transformou nossa linguagem. Violentando predicados,
pervertendo complementos, corrompendo particípios, ele revogou todas as
regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia
necessidade de expressar um sentido. Mas ele foi mais longe do que isso. Além
de revolucionar nossa linguagem, Herbert Richers revolucionou também nossa
moral. Quando Jack Lemmon, numa comédia de Billy Wilder, tem a mesma voz
e, principalmente, os mesmos atributos estéticos de Salsicha, num episódio
do desenho animado Scooby-Doo (ambos Jack Lemmon e Salsicha
dublados por Mário Monjardim), o resultado só pode ser uma sociedade
como a nossa, em que todos os valores se equivalem e, portanto, se anulam.
No Brasil, atualmente, Dilma Rousseff é quem melhor encarna a reviravolta
moral e linguística realizada por Herbert Richers. Ela é o epígono
ideal de Carlos Campanile (dublador de Clint Eastwood, Al Pacino, Robert de Niro
e Thor dos Cavaleiros do Zodíaco), de Garcia Neto (dublador de
Gregory Peck e do Homem-Fera) e de Sumara Louise (dubladora do desenho Gasparzinho e de Meryl Streep). Se alguém lhe pergunta por que as obras do programa
Minha Casa, Minha Vida continuam paradas, Dilma Rousseff responde como um médico-legista,
num filme estrelado por Bruce Willis (ambos Dilma Rousseff e Bruce Willis
dublados por Newton da Matta): "Olha, não é isso que
nós estamos vendo. Não é isso que a gente está vendo
e eu vou te falar a partir do que. Hoje, já tem mais de 400 projetos apresentados
para a Caixa, dominantemente naquela distribuição em que zero a
três é o pessoal que faz a moradia para renda de zero a três
salários mínimos, é a grande maioria".
Sim,
a morte de Herbert Richers, ocorrida dois meses atrás, foi o acontecimento
mais marcante de 2009. Mas ele estará sempre presente em 2010.
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