Música
As filiais do rock
Músicos que constituíram fama e carreira em uma
banda
cansam
de tocar as mesmas canções com os mesmos parceiros.
Nascem
assim alguns dos projetos mais criativos do pop atual

Sérgio Martins
Onze anos depois de ter anunciado sua dissolução,
o Faith No More - cujo híbrido de funk e rock pesado exerceu grande influência,
nos anos 90, sobre outras bandas, como Korn e System of a Down - voltou a se
reunir no ano passado para uma série de shows, inclusive no Brasil. Mas
será temerário afirmar que o grupo está mesmo de volta
à ativa: o vocalista Mike Patton se dedica a tantos projetos simultâneos
que se torna difícil (até para ele) apontar qual o principal.
"Sou um artista que gosta de variar", declarou Patton a VEJA. É
dizer pouco: o cantor é integrante do Fantômas, que recria temas
de filmes de horror e quadrinhos, do Tomahawk, que faz uma mescla meio experimental
de rock e soul, e neste ano vai lançar o trabalho de estreia do Mondo
Cane, no qual interpreta canções pop italianas (ele foi casado
com uma artista italiana e morou em Bolonha por sete anos). No Brasil, acaba
de sair o disco do Peeping Tom, projeto de Patton que combina música
eletrônica e hip-hop, com participações das cantoras Bebel
Gilberto e Norah Jones. Embora poucos sejam tão ecléticos quanto
Patton, muitos roqueiros investem em projetos paralelos aos grupos que constituíram
sua fama. É uma estratégia segura para o músico que está
desgastado ou entediado em sua banda original.
A oportunidade de trabalhar com um amigão do peito é
um grande motivador para que os músicos montem suas filiais. O Little
Joy nasceu da amizade do baterista do grupo americano Strokes, Fabrizio Moretti,
e do guitarrista e vocalista do brasileiro Los Hermanos, Rodrigo Amarante, que
se conheceram durante a gravação do disco de um amigo em comum,
o cantor Devendra Banhart. O Raconteurs define-se como uma banda de "amigos
de longa data" - no caso, os guitarristas Brendan Benson e Jack White,
este do White Stripes. Com a colaboração de mais músicos,
a banda permite que Jack se exercite fora do enquadramento minimalista do White
Stripes, formado apenas por ele e pela (péssima) baterista Meg White.
Jack participa ainda de uma terceira banda, o Dead Weather, e tem planos para
um disco-solo - mas, prudente, não anunciou o fim do White Stripes.
O desgaste natural de tocar anos ao lado das mesmas pessoas é
o fator mais premente para novas experiências. Cantor, guitarrista e líder
do Foo Fighters, Dave Grohl teve uma crise durante as gravações
de um disco do quarteto, em 2002. Largou as sessões no meio para tocar
bateria com o Queens of the Stone Age e para criar o Probot, um grupo de heavy
metal. Grohl voltou ao Foo Fighters - mas, no fim do ano passado, embarcou
no seu mais ambicioso projeto paralelo, como baterista do Them Crooked Vultures,
ao lado do guitarrista Josh Homme (Queens of the Stone Age) e do baixista John
Paul Jones (ex-Led Zeppelin). Em todas essas frentes, Grohl faz sempre rock.
Outros músicos desviam-se de suas formações originais para
tentar novos gêneros. Uma banda, afinal, acaba por se tornar uma marca,
uma empresa que não pode ignorar as expectativas que criou. O Blur ajudou
a definir, nos anos 90, o som que se tornou conhecido como britpop, reciclando
os timbres de guitarras roqueiras dos anos 60. Associando-se ao amigo cartunista
Jamie Hewlett, Damon Albarn, cantor do Blur, criou uma banda fictícia
muito diferente: o Gorillaz, integrado por personagens de desenho animado, tem
mais elementos do hip-hop do que do rock. Albarn - que mantém outra
banda paralela, The Good, The Bad & The Queen - deve lançar
o terceiro disco do Gorillaz em março. O Blur fez uma turnê no
ano passado, registrada no filme No Distance Left do Run - mas,
por ora, está em compasso de espera, sem planos de novos trabalhos. Uma
brincadeira que deu certo (vende mais que o Blur), o Gorillaz talvez seja o
caso mais exemplar de projeto paralelo. Descompromissadas, as filiais muitas
vezes se mostram mais criativas do que a casa matriz.
Costurando para fora
Os projetos paralelos de alguns grandes nomes do rock quase sempre
resultam melhores do que suas bandas originais
THEM CROOKED VULTURES
Redferns/Getty Images
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É o que se costuma chamar de "superbanda", integrada
por estrelas de grupos famosos: Dave Grohl (foto), do Foo Fighters, Josh
Homme, do Queens of the Stone Age, e John Paul Jones, ex-Led Zeppelin
Melhor que os originais? Sim e não. O CD de estreia supera os
lançamentos mais recentes de Foo Fighters e Queens of the Stone Age.
Mas não chega perto do Led Zeppelin
PEEPING TOM
David Atlas/Corbis/Latinstock
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Um dos vários traballhos de Mike Patton (à
dir. na foto), ex-vocalista do Faith No More, a banda toca música eletrônica
e hip-hop, com participações de cantoras suaves como Norah Jones
e Bebel Gilberto - é o oposto do som pesado do grupo que consagrou o
cantor
Melhor que o original? Em termos. Faz boa música para dançar,
mas faltam a agressividade e o humor do Faith No More
GORILLAZ
Fotos divulgação
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Brincadeira de Damon Albarn, vocalista e líder do quarteto
inglês Blur, o Gorillaz é um grupo integrado por personagens
de desenho animado
Melhor que o original? Sim. Com canções pop mais acessíveis,
seu primeiro CD vendeu, nos Estados Unidos, mais do que todos os sete discos
do Blur juntos
The RACONTEURS
Projeto do guitarrista Jack White, do White Stripes (que
também atua - como baterista - na banda Dead Weather), faz um rock de
garagem com levada pop
Melhor que o original? Sim. Jack White faz o que sabe - toca guitarra
- sem as limitações musicais da sua banda de origem (leia-se:
sem a batucada medíocre de Meg White, baterista do White Stripes)
THE LAST SHADOW PUPPETS
Brian Ritchie/Rex Features
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Dois jovens músicos de bandas badaladas do rock inglês
- Alex Turner, guitarrista e vocalista dos Arctic Monkeys, e Miles
Kane, guitarrista dos Rascals - fazem um tributo ao pop mais melódico
dos anos 60 e 70
Melhor que o original? Sim. No lugar das manjadas guitarras
distorcidas, Turner e Kane valeram-se de bons arranjos orquestrais
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