Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Guerras simbólicas
"Há baronatos
ideológicos que se digladiam
com obstinação. Examinemos um caso presente:
educadores versus economistas"
Os livros de história
estão abarrotados de guerras entre impérios.
E há as guerras puramente simbólicas, como o
choque entre o mundo ocidental e os muçulmanos, sugerido
por Samuel Huntington. Mas há também pequenos
baronatos ideológicos que se digladiam com obstinação.
Examinemos um caso presente: educadores versus economistas.
Tenho participado de inúmeras conferências de
educadores em que borbulham sempre as acusações
ao neoliberalismo e outras palavras do mesmo naipe (como FMI,
Banco Mundial etc.). Além das erupções
tupiniquins, já ouvi isso na Argentina, na Colômbia,
no Chile e até na Inglaterra. Aliás, "neoliberalismo"
é puro xingamento, pois ninguém se classifica
como neoliberalista.
Vejamos as colisões
no caso brasileiro, cujas origens já têm quase
meio século. Antes disso, os educadores (de múltiplas
origens profissionais) eram donos da educação
e falavam de pedagogia. Na década de 60, os economistas
ganharam visibilidade, sobretudo os do Ipea, pregando idéias
tão heréticas quanto calcular custos do ensino,
avaliar, medir a eficiência das escolas e estimar taxas
de retorno do investimento, como se educação
fosse uma fábrica de pregos. Enfim, tudo quantificado
e medido. Pior, passaram a elaborar os orçamentos do
MEC, tentando alocar recursos de acordo com princípios
de eficiência. Provocaram a ira incontida e diuturna
dos pedagogos puros-sangues, pois essas heresias colidem com
as visões do "homem integral", do "saber
pedagógico", da primazia do "afeto",
e reivindicações de um monopólio de tudo
o que tem a ver com educação e escolas. Mais
tarde, apareceram as teorias construtivistas engalanadas em
linguagem hermética e os slogans em prol de um ensino
puramente artesanal. Muitas vezes, vem tudo mesclado ao marxismo
e flertando com Gramsci.
Ilustração
Atômica Studio
Eis os exércitos simbólicos dos dois baronatos.
Quem terá razão? A revolução científica,
iniciada por Francis Bacon, desembocou na ciência contemporânea
tradicional. Segundo essa linha, mais cedo ou mais tarde
é preciso consultar o mundo real para ver se a observação
empírica conflita com a teoria. Ou seja, a sobrevida
da elaboração teórica está condicionada
à sua aderência ao que se observa coletando sistematicamente
dados, números e fatos. Se falha o teste da realidade,
a teoria vai para o "paredón". O novo credo
é "educação baseada em evidência".
Portanto, a ciência contemporânea é teórico-empírica.
Desdenha quem não demonstra com dados as suas teorias.
Porém, muitos educadores (não todos!) rejeitam
os avanços das medidas quantitativas. Em vez de tentarem
mostrar os limites dos números, que existem, refugiaram-se
em formulações que se bastam na elaboração
de teorias. Reagem com adjetivos ("neoliberal"),
e não com ciência moderna.
Persistem os economistas
com seus números. Na companhia de alguns educadores,
quantificam o conhecimento, criam testes, avaliam a eficiência
das escolas, publicam os seus "rankings", pregam
a concorrência entre elas e propõem prêmios
para os melhores. Avaliam também os procedimentos de
sala de aula e a eficiência dos materiais didáticos.
Resolve-se tudo com amostras aleatórias e testes estatísticos.
A julgar pelo que acontece no mundo e mesmo no Brasil, ganha
terreno a visão teórico-empírica, sempre
acompanhada de números, mesmo dentro de ministérios
com sabores de esquerda. Na França, o último
reduto de muitos educadores, o ministro declara que todos
os pais receberão os escores de seus filhos em testes
padronizados. Ganha vigência a percepção
de que a sociedade tem o direito de saber a quantas anda a
educação.
No ardor das batalhas,
os economistas exageram, medem sem entender o que está
sendo medido e subestimam o peso do que não admite
números. Educadores perdem a oportunidade de mostrar
as falhas de certas pesquisas quantitativas. Ademais, não
basta mostrar números. É preciso ir além
e oferecer explicações, entender o porquê
do encadeamento de causas e efeitos, complementando com boas
análises qualitativas o que dizem os números.
Em vez de gastar energia perseguindo moinhos de vento, seria
melhor concentrar os esforços para melhorar a educação.
Perdem todos. Sobretudo, os alunos.