Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Para entender
a politicolíngua
Termos mais em
evidência do idioma falado no reino dos renans e seu significado
Acordão
s.m. Aumentativo de acordo. Usado na semana passada para caracterizar
o movimento que levou à absolvição no Senado, por 48 votos
contra 29 e três abstenções, do senador Renan Calheiros, no
processo em que era acusado de quebra de decoro por ser proprietário secreto
de empresas de comunicação. Os aumentativos são muito apreciados
no Brasil, quer quando se trata de estádios de futebol (Mineirão,
Barradão, Engenhão), de campeonatos (Brasileirão) e até
de empreendimentos comerciais (Drogão, Feirão, Ponto Frio Bonzão).
A idéia parece ser não só ressaltar a magnitude das obras
(no caso dos estádios), dos eventos e dos empreendimentos comerciais, mas
também, pelo apelido de suposto gosto popular, criar um vínculo
de familiaridade, ou mesmo afeto, com o público. No caso da política,
além de significar uma operação de proporções
grandes (o acordo para salvar Renan uniu múltiplos grupos, partidos e pessoas),
o aumentativo transmite, ao contrário, um sentido de ação
escusa, ou debochada, ou ilícita. Ilustre antecedente de "acordão",
no léxico político, é o "centrão" da época
da Constituinte. "Centrão" queria dizer não só
um centro grande, mas um centro debochado, pelo qual transitavam preferencialmente
os pleitos fisiológicos e os interesses inconfessáveis. "Acordão"
remete igualmente ao locus privilegiado da malandragem ou da pura e simples roubalheira.
Quando se fala em "centro" ou "acordo", a coisa é séria.
Quando se fala em "centrão" ou "acordão", não
é.
Chinelinho s.m.
Diminutivo de chinelo. Usado pelo senador Wellington Salgado (o da cabeleira),
logo após a derrota da medida provisória que criava a Secretaria
de Longo Prazo, em setembro, para designar o agrado, o mimo, o presentinho, que
seu grupo, o dos parlamentares menos conhecidos do PMDB, reivindicava para votar
com o governo. A palavra inseria-se na seguinte e piedosa declaração:
"Não é um sapato de cromo alemão que os franciscanos
querem, mas um chinelinho novo. Pode até ser usado, o que ninguém
agüenta mais é machucar o pé". Tal qual os aumentativos,
os diminutivos servem a peculiares intenções, na língua brasileira.
Podem pretender disfarçar grandes vícios por exemplo, quando
se diz "vou tomar um uisquinho" ou "vou fumar um cigarrinho".
Podem querer amortecer o impacto de transgressões, como quando o empregado
diz ao patrão, ou o marido à mulher, que vai dar "uma saidinha".
Ou podem tentar esconder o caráter insuperável de uma dificuldade,
como quando se diz que surgiu "um probleminha". No caso, o senador quer
dizer que não está querendo grande coisa, o que talvez não
seja verdade (como quando se pede "um favorzinho"), mas louve-se sua
sinceridade ao admitir que está pedindo, sim, e que só em troca
de um benefício, uma vantagem, uma paga, é que votará com
o governo. Chama atenção igualmente a menção aos "franciscanos",
e não apenas porque esses religiosos usam chinelinhos, mas porque é
uma explícita remissão ao "é dando que se recebe"
da oração de São Francisco tão entoada pelo "centrão"
em outros momentos do Parlamento brasileiro. Como se vê, aumentativos, como
"centrão", e diminutivos, como "chinelinho", convergem
para o mesmo leito em que corre o rio da política brasileira.
Metamorfose
s.f., ambulante adj. Modo pelo qual o presidente
Lula se definiu ao justificar na semana passada sua mudança de idéia
com relação à CPMF contra quando na oposição,
hoje a favor. A expressão, já citada em ocasião anterior
pelo presidente, é uma citação do roqueiro Raul Seixas: "Prefiro
ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada
sobre tudo". Equivale a uma versão Lula do "Esqueçam o
que escrevi" de seu antecessor. Metamorfoses ambulantes são Lula e
também o PT. No caso da CPMF, até se pode considerar que a metamorfose
se opera numa manifestação benigna. Mais grave é a metamorfose
experimentada por um e outro no departamento da moral e bons costumes políticos.
Renânia
nome próprio Região da Alemanha à margem
do Rio Reno. Mas também, na feliz criação do jornalista Melchiades
Filho, da Folha de S.Paulo, a terra dos renans, "quer dizer, Brasília".
Engana-se quem pensa que Renan Calheiros foi o único absolvido na semana
passada. Foi o conjunto de renans (pelo menos 48) que se absolveu a si próprio.
Brasília tem nos renans um de seus espécimes mais característicos.
No caso Renan Calheiros espelhava-se uma multidão de renans que, não
fosse o bafo na nuca soprado pela imprensa e pela opinião pública,
teria arremessado o assunto ao arquivo morto já no nascedouro. Assim como
Renan Calheiros, mais de vinte outros renans do Senado são proprietários
de meios de comunicação, ao contrário do que determina a
Constituição. Terminada a votação, os renans, entre
os quais aqueles que atendem pelo nome de Barbalho, Lobão ou Jucá
(Jucá!), foram comemorar o resultado na residência do senador Sarney.
Nada mais justo: a casa pode ser considerada a capital da Renânia, e seu
dono, seu santo padroeiro.