"Certamente
há muito que melhorar, mas é igualmente certo que o nosso professorado não
trabalha em condições infra-estruturais sofríveis. A idéia de um professor
acuado pela violência também não se confirma quando contrastada com a
frieza dos dados"
O professor brasileiro é
um herói. Batalha com afinco contra tudo e todos em prol de uma educação
de qualidade em um país que não se importa com o tema, ensinando
em salas hiperlotadas de escolas em péssimo estado de conservação.
Tem de trabalhar em dois ou três lugares, com uma carga horária exaustiva.
Ganha um salário de fome, é constantemente acossado pela indisciplina
e desinteresse dos alunos e não conta com o apoio dos pais, da comunidade,
do governo e da sociedade em geral.
Se
você tem lido a imprensa brasileira nos últimos vinte anos, provavelmente
é assim que você pensa. Permita-me gerar dúvidas.
Segundo
a última Sinopse Estatística do Ensino Superior, em 2005 havia 904.000
alunos matriculados em cursos da área de educação, ou o equivalente
a 20% do total de alunos do país. É a área de estudo mais
popular, deixando para trás gerenciamento e administração
(704.000) e direito (565.000). Ademais, é uma área que só
faz crescer: em 2001, eram 653.000 alunos um aumento de quase 40% em apenas
quatro anos.
No mercado profissional,
os números do professorado também são mastodônticos.
Segundo dados da última Pnad tabulados por Simon Schwartzman, há
2,9 milhões de professores em todo o país. É provavelmente
a categoria profissional mais numerosa.
Jose
Patricio/AE
Professores em formação: uma profissão muito procurada no Brasil apesar das queixas
Surge
o questionamento: se a carreira de professor é esse inferno que se pinta,
por que tantas pessoas optam por ela? Pior: por que esse interesse aumenta ano
a ano? Seria uma categoria que atrai masoquistas? Ou desinformados?
A
resposta é mais simples: porque a realidade da carreira de professor é
bastante diferente da imagem difundida.
A
maioria dos professores trabalha em apenas uma escola. Segundo o Perfil dos Professores
Brasileiros, ampla pesquisa realizada pela Unesco, 58,5% têm apenas um local
de trabalho. Os que fazem dupla jornada são pouco menos de um terço:
32,2%. Só 9%, portanto, trabalham em três escolas ou mais. Sua carga
horária também não é das mais massacrantes: 31% trabalham
entre uma e vinte horas em sala de aula por semana, 54% ficam entre 21 e quarenta
horas e o restante trabalha mais de quarenta horas. Os professores costumam argumentar
que seu trabalho se estende para fora da sala de aula, com correção
de tarefas, preparação de aulas etc. Nisso, não são
diferentes de todos os outros profissionais liberais qual o médico
que não estuda fora do consultório ou o advogado que não
pesquisa a legislação nos horários fora do escritório?
O
que os representantes da categoria não costumam mencionar são as
vantagens da profissão: as férias longas, a estabilidade no emprego
e o regime especial de aposentadoria (80% são funcionários públicos)
e, sobretudo, a regulamentação frouxa. No estado de São Paulo,
13% dos professores da rede estadual faltam a cada dia, contra 1% daqueles da
rede privada. Há um amontoado de proteções jurídicas
para que essa ausência não redunde em perda salarial infelizmente,
não conseguimos blindar o aprendizado dos alunos contra as faltas docentes.
Não
é correta, também, a idéia de que os professores trabalham
em estabelecimentos superlotados. Segundo os dados oficiais, há 27 alunos
por turma no ensino fundamental (de 1ª a 8ª série). A relação
só sobe nos três anos do ensino médio, para 37 alunos por
turma dentro da normalidade, portanto.
Tampouco
procede a idéia de que as escolas não tenham as condições
mínimas de infra-estrutura para a realização de aulas. As
histórias de escolas de lona ou de lata rendem muito noticiário
justamente por serem a exceção, a aberração. Mais
de 90% de nossas escolas de ensino fundamental têm banheiro, água
encanada e esgoto, e 87% contam com eletricidade. Quase um terço tem quadra
esportiva, e 42% dispõem de computadores. Certamente há muito que
melhorar, mas é igualmente certo que o nosso professorado não trabalha
em condições infra-estruturais sofríveis.
Paulo
Liebert/AE
Patrulha na porta de uma escola em São Paulo: os professores não estão mais expostos
à violência
A idéia de
um professor acuado pela violência também não se confirma
quando contrastada com a frieza dos dados. Questionário respondido pelos
professores quando da aplicação do Saeb, o teste do ensino básico,
revela que apenas 3% deles haviam visto, em toda a sua carreira, alunos com armas
de fogo, que só 5,4% dos professores já foram ameaçados e
0,7% sofreu agressão de aluno. São incidentes lamentáveis
e que devem ser punidos com todo o rigor da lei. Essa quantidade de problemas,
porém, está longe de indicar uma epidemia de violência tomando
conta das nossas escolas.
Finalmente,
a questão crucial: o salário. Há uma idéia encravada
na mente do brasileiro de que professor ganha pouco, uma mixaria. É verdade
que o professor brasileiro tem um salário absoluto baixo o que se
explica pelo fato de ele ser brasileiro, não professor. Somos um país
pobre, com uma massa salarial baixa. O professor tem um contracheque de valor
baixo, assim como médicos, carteiros, bancários, jornalistas e todas
as demais categorias profissionais do país, com exceção de
congressistas (e suas amantes). Quando estudos econométricos comparam o
salário dos professores com o das outras carreiras, levando em consideração
a jornada laboral e as características pessoais dos trabalhadores, não
há diferença para a categoria dos docentes. Ou seja, os professores
ganham aquilo que é compatível com a sua formação
e o seu trabalho, e ganhariam valor semelhante se optassem por outra carreira.
Quando se leva em conta a diferença de férias e aposentadoria, o
salário do professor é mais alto do que o do restante. Estudo recente
de Samuel Pessôa e Fernando de Holanda, da FGV, também mostrou que
o salário do professor de escola pública é mais alto do que
aquele recebido por seu colega de escola particular. Achados semelhantes emergem
quando se compara o professor brasileiro com aquele de outros países. Enquanto
aqui ele ganha o equivalente a 1,5 vez a renda média do país, a
média dos países da OCDE (que têm a melhor educação
do planeta) é de 1,3. Na América do Sul, os países com qualidade
de ensino melhor que a brasileira têm professores que recebem menos: 0,85
na Argentina, 0,75 no Uruguai e 1,25 no Chile. Esses são dados um pouco
defasados, de 2005. É provável que atualmente o quadro seja ainda
melhor, pois os estudos sobre o tema mostram que os rendimentos dos professores
vêm aumentando, à medida que mais deles têm diploma universitário.
Segundo os dados da última Pnad colhidos por Schwartzman, houve um aumento
de 20% nos rendimentos dos professores da rede estadual e de 16% nos da rede municipal
apenas entre 2005 e 2006.
Apesar de todos
esses dados estarem amplamente disponíveis, perdura a visão de que
o professor é um coitado e/ou um herói, fazendo esforços
hercúleos para carregar o pobre aluno ladeira acima. Longe de ser uma questão
apenas semântica ou psicológica, essa caracterização
do professor é extremamente daninha para o progresso do nosso ensino, porque
ela emperra toda e qualquer agenda de mudança. A literatura empírica
aponta que há muito que professores, diretores e gestores públicos
podem fazer para obter melhorias substanciais no aprendizado de nossos alunos,
mas é quase impossível ter qualquer discussão produtiva nesse
sentido no Brasil, pois, antes de mais nada, seria necessário "recuperar
a dignidade do magistério", "dar condições mínimas
de trabalho aos professores" etc. A mitificação do nosso professor
impede que o vejamos como ele é: um profissional, adulto, consciente de
suas decisões e potencialidades, inserido em uma categoria profissional
que, como todas as outras, abriga muita gente competente, muita gente incompetente
e muitos outros medíocres e que, portanto, deve receber não apenas
encorajamento e defesa condescendentes, mas também cobranças e críticas
construtivas e avaliações objetivas de seus méritos e falhas.
Só assim melhoraremos o desempenho das nossas escolas e daremos um futuro
ao país.