"O
pastor escreveu uma encíclica para exaltar a ‘oração, o agir, o sofrer e o
Juízo (Final)como lugares da aprendizagem da esperança’. O pensador nos
convida a pesar as conseqüências de um mundo sem Deus, aquele no qual tudo
é permitido"
O papa Bento XVI tornou pública,
no dia 30 do mês passado, a segunda encíclica de seu pontificado,
Spe salvi, expressão resumida da frase de São Paulo aos romanos
Spe salvi facti sumus: é na esperança que fomos salvos. Trata-se,
inequivocamente, do texto de um pastor, chefe máximo de uma igreja, mas
é também a reflexão de um pensador contemporâneo. O
pastor entende os motivos que levam o homem, "expulso do paraíso terrestre",
a substituir a "fé em Jesus Cristo" pela "fé no progresso".
O pensador considera dois momentos em que essa substituição se fez
história a Revolução Francesa (1789) e o socialismo
e aponta o erro fundamental do teórico comunista alemão Karl
Marx (1818-1883): "esqueceu o homem e a sua liberdade". O papa não
critica o marxismo como uma ameaça presente, mas como a expressão
máxima de um risco permanente.
O pastor escreveu uma encíclica para exaltar a "oração,
o agir, o sofrer e o Juízo (Final) como lugares da aprendizagem
da esperança". O pensador nos convida a pesar as conseqüências
de um mundo sem Deus, aquele no qual tudo é permitido. O pastor
sem dúvida, um bom fundamentalista vai ao fundamento de sua crença
e recupera a importância da "parúsia", que é a segunda
vinda do Messias (voltarei a essa palavra). O pensador dialoga com os agnósticos
e os ateus e, na prática, os incita a considerar a dimensão religiosa
um dado da cultura ao menos sem deixar de declarar a supremacia da fé,
tomada como sinônimo da esperança.
Seja por conta da crítica severa ao marxismo, seja por causa da caracterização
dualista que faz do progresso "em mãos erradas (...), tornou-se
um progresso terrível no mal" , não faltará quem
veja nas palavras de Bento XVI a expressão de um insofismável reacionarismo.
Será? Segundo o papa, a ditadura do proletariado, imaginada por Marx como
uma etapa necessária do comunismo futuro, não deu à luz um
mundo sadio, "deixando atrás de si uma destruição desoladora".
Alguém se atreve a negar? E Bento XVI vai além: "(Marx)
esqueceu que o homem permanece sempre homem. (...) Esqueceu que a liberdade permanece
sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem
a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo:
de fato, o homem não é só o produto de condições
econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições
econômicas favoráveis".
Alessia
Giuliani/AFP
O
papa Bento XVI: crítica ao "reino de Deus sem Deus", oferecido
pelo materialismo e pela ciência
Entenda-se:
Bento XVI não está ressuscitando a Guerra Fria, a disputa pela hegemonia
mundial entre o capitalismo e o socialismo. Essa batalha já foi vencida
pela civilização do óbvio no século passado, e a economia
de mercado triunfou como atributo ou da Criação ou do progresso
natural da humanidade cada um escolha a causa que lhe parecer melhor. O
que o papa faz é tomar o marxismo como exemplo máximo de uma visão
totalizante do ser, em que a ética se subordina apenas à dimensão
material da vida. Certamente não é a única corrente de pensamento
a fazê-lo, mas se tornou a mais influente e convincente das visões
materialistas. Escreve o papa: "Se ao progresso técnico não
corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento
do homem interior, então aquele não é um progresso, mas uma
ameaça para o homem e para o mundo".
Bento
XVI critica, assim, a visão de mundo segundo a qual o bem-estar humano
é mera decorrência das estruturas, "por mais válidas
que sejam". Observa que a "liberdade necessita de uma convicção".
Afinal, se as condições materiais do indivíduo garantissem,
por si mesmas, a sua felicidade, forçoso seria concluir que estaria abolida
toda escolha e, por conseqüência, a liberdade. Os totalitarismos
do século passado e suas manifestações remanescentes neste
século jamais se assumiram como tais. Em todos eles, sempre há uma
retórica meritória que apela à reforma das estruturas em
nome do bem comum. Mas com quais valores se pretendeu e se pretende construir
esse novo homem? E o papa recorre ao filósofo alemão Immanuel Kant
(1724-1804) para responder: "Não há dúvida de que um
reino de Deus realizado sem Deus e, por conseguinte, um reino
somente de homem resolve-se, inevitavelmente, no fim perverso
de todas as coisas (...). Já o vimos e vemo-lo sempre de novo".
O
"reino de Deus sem Deus" é uma referência também
à ciência. Chega a parecer um tanto estranho e talvez vire motivo
de pilhéria que o papa, em 2007, aponte um "equívoco"
do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), passados quase 400
anos de sua morte. E ele o faz. Trata-se de um pretexto para contestar que o homem
possa ser salvo apenas pelo conhecimento científico, sem o concurso da
fé. Nesse momento da encíclica (parágrafo 25), Bento XVI
está se preparando para admoestar também os cristãos.
Não
é segredo que a pesquisa, especialmente no campo da genética, se
confronta com limites que são de natureza ética, e a religião,
o catolicismo em particular, tem sido a porta-voz do que costuma ser caracterizado
na imprensa e no debate público como a expressão de um preconceito,
de um "medievalismo". Não quero fugir ao propósito deste
texto, que é o de apresentar as linhas gerais de um documento de cinqüenta
parágrafos e 18.822 palavras, para abrir uma frente particular de debate.
Observo apenas que, para Bento XVI, "a ciência pode contribuir muito
para a humanização do mundo e dos povos", mas "também
pode destruir o homem e o mundo se não for orientada por forças
que estão fora dela".
Collection
Roger-Viollet/AFP
O
teórico comunista Karl Marx: a ditadura do proletariado deixou atrás
de si "uma destruição desoladora"
Cumpre
perguntar: o que são essas "forças fora da ciência"
que devem orientá-la, assim como devem orientar a política e a vida
cotidiana? Bento XVI observa que, para um cristão, "o homem é
redimido pelo amor", mas este também não basta, porque a mortalidade
evidencia a fragilidade dessa resposta. E o papa exalta, então, o outro
amor, o "incondicionado". E convida o leitor ao mesmo fervor de São
Paulo: "Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o
presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem
qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está
em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rom 8,38-39).
Disse
que voltaria à palavra "parúsia", a segunda vinda do Messias,
e que Bento XVI fazia uma admoestação também aos cristãos.
Esses dois fios soltos do texto se enlaçam agora. O papa reitera que a
promessa do retorno de Jesus "de novo há de vir em sua glória
para julgar os vivos e os mortos" é parte "central"
do "grande Credo" da Igreja. E, portanto, cabe a quem crê viver
a certeza da justiça de Deus. A evolução da iconografia foi
tornando o Juízo Final "ameaçador e lúgubre", mas
deve ser a grande fonte de esperança de um cristão.
Ocorre
que a força salvífica da fé, aponta Bento XVI, tem de ser
coletiva. E aqui está a admoestação: "Devemos constatar
também que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ciência
na progressiva estruturação do mundo, tinha se concentrado em grande
parte somente sobre o indivíduo e a sua salvação. Desse modo,
restringiu o horizonte da sua esperança e não reconheceu suficientemente
sequer a grandeza da sua tarefa".
Finalmente,
cumpre indagar, juntamente com os ateus dos quais o marxismo foi e é
a expressão mais influente: num mundo onde as injustiças são
tão candentes e onde os inocentes padecem as maiores crueldades, é
possível falar de um Bom Deus? Esse Deus tem de ser contestado em nome
da moral, não é? E o papa responde: "Se, diante do sofrimento
deste mundo, o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão
de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz
de fazer é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não
é por acaso que dessa premissa tenham resultado as maiores crueldades e
violações da justiça".
Além
ou aquém do Mistério, a fé nesse Deus de que nos fala Bento
XVI é também uma garantia dos direitos essenciais do homem. O cristianismo,
afinal, é um humanismo. É o que diz o pensador. É o que diz
o pastor.