Independente, saudável
e dona de 70% da riqueza do Japão, a geração acima de
60 anos viaja, consome, disputa as atenções do mercado
e, ainda assim, gostaria de voltar a trabalhar
Fotos
Paulo Vitale
[SOB
UM CHAPÉU DE PANO] Sempre há um
idoso viajando para algum lugar: os "cidadãos de prata" são
o principal público do mercado de turismo
Onde
quer que haja uma plataforma de ônibus ou de trem, lá estarão
eles, com seus chapeuzinhos de pano, mochilas nas costas e passos lépidos.
O destino pode ser o Monte Fuji, uma estação de águas ou
um parque onde as cerejeiras acabam de florir. No Japão, os idosos
quer dizer, os "cidadãos de prata", como são chamados
pelo governo estão sempre a caminho de algum lugar. Principal público
do mercado de turismo, têm, só no bairro de Ginza, em Tóquio,
um dos metros quadrados mais caros do planeta, três grandes agências
especializadas em pacotes para eles. Com ofertas que incluem de cruzeiros a 160 000
dólares por cabeça a roteiros para quem gosta de observar pássaros,
jogar golfe, fazer trekking, apreciar obras de arte, tomar chá, assistir
a concertos musicais ou visitar ruínas históricas, as agências
se desdobram para satisfazer os caprichos de um público que hoje concentra
nada menos do que 70% da riqueza do país.
No
Japão, quem tem dinheiro são os velhos sobretudo os que nasceram
no pós-guerra e tiveram a sorte de estar na fase mais produtiva da vida
quando a bolha econômica da década de 80 elevou os salários
aos píncaros, produziu farta distribuição de bônus
e fez ações e imóveis valer pequenas fortunas. Os baby boomers
que aproveitaram esse sopro não precisaram construir nenhuma carreira extraordinária
para garantir uma velhice tranqüila. Hoje, o patrimônio médio
dos japoneses com mais de 60 anos de idade é de 135 000 dólares
quase o dobro do que possuem as pessoas com idade entre 40 e 49 anos e
mais que o triplo do que acumularam as que estão na faixa dos 20 aos 39
anos.
[PAÍS
GRISALHO] Em 2050, a previsão é que em
cada cinco japoneses dois serão idosos
Por
isso, o mercado de produtos voltados para o público sênior é
um filão dos mais rentáveis e criativos. Eis alguns exemplos: vasos
sanitários que, monitorados por sensores de movimento, se iluminam suavemente
à noite, evitando que o usuário tenha de acender a luz do banheiro
(pesquisas apontam que o gesto faz com que os idosos percam o sono). Celulares
equipados com dispositivo "slow-voice", que, ao ser acionado, faz com
que a voz de quem está do outro lado da linha soe mais lenta e compreensível
para quem ouve. Chaleiras elétricas que, quando ligadas, emitem um sinal
para um telefone previamente escolhido. Esse último produto é destinado,
na verdade, aos filhos dos idosos receptores da mensagem da chaleira, cujo
significado é: "Papai (ou mamãe) está preparando o chá;
portanto, deve estar bem (ou, no mínimo, vivo)". O equipamento foi
inspirado no tempo em que o leite era entregue em domicílio e os moradores
costumavam monitorar a saúde dos vizinhos mais velhos pela quantidade de
garrafas cheias que viam diante da sua porta. Se elas se acumulavam, era sinal
de que algo estava errado com o idoso. Nesse caso, corriam para avisar um parente.
As garrafas de leite não existem mais e vizinhos solidários são
difíceis de achar, mas o número de velhos que moram sozinhos no
Japão aumenta a cada dia. Em 1980, apenas 4% da população
idosa masculina e 11% da feminina viviam sós. Em 2000, essas porcentagens
saltaram para 8% e 18%, respectivamente.
Em
grande número, independentes e muito longevos (a expectativa de vida dos
japoneses é a mais alta do mundo: 79 anos para os homens e 85,8 anos para
as mulheres), eles serão 40% da população do Japão
em 2050. As ruas, ao menos, já estão preparadas para recebê-los.
Desde 2000, o governo vem colocando em prática um programa que visa a facilitar
a locomoção dos velhos nas cidades: o tempo dos semáforos
para a travessia de pedestres aumentou e os prédios públicos e as
estações de trem receberam elevadores, portas giratórias,
rampas e degraus mais largos, além de sinalizações em braile
e telefones públicos adaptados para quem tem problemas de audição.
O tamanho das letras e dos símbolos das placas de direção
e tráfego também aumentou perfeito para um país que
tem perto de 350 000 motoristas com mais de 75 anos de idade.
[Ricos
e longevos] Com a maior expectativa de
vida do mundo, os idosos japoneses têm patrimônio médio de
135 000 dólares
O
iminente encolhimento da população, fruto da baixa taxa de fecundidade,
e o alto número de idosos farão com que o Japão enfrente
sérios problemas em breve: a sobrecarga da previdência social (que
terá menos contribuintes e mais aposentados para sustentar) e a queda da
produtividade decorrente da falta de mão-de-obra são apenas dois
deles. Mas, se os velhos são a principal causa do primeiro, podem ajudar
a resolver o segundo. Para amenizar a futura escassez de trabalhadores, o governo
tem poucas alternativas: fazer crescer a taxa de fecundidade (coisa que vem tentando
desde 1995, até agora sem sucesso), incrementar o sistema de robotização
das fábricas ou estimular o ingresso de estrangeiros, mulheres e também
idosos no mercado de trabalho. Pesquisas já demonstraram que disposição
para isso eles têm: 50% dos homens aposentados com idade entre 60 e 64 anos
e 40% dos que têm entre 65 e 69 afirmam que gostariam de voltar a trabalhar.
Num país que espera um déficit de quase 5 milhões de trabalhadores
nos próximos vinte anos, os cidadãos de prata podem valer ouro.