As japonesas querem
maridos dedicados, bem empregados e, de preferência, que se vistam bem.
Na falta de candidatos assim, continuam solteiras para desespero do
governo, que luta para aumentar a taxa de fecundidade do país
A segunda nação
mais rica do mundo precisa desesperadamente de algo que nem
o seu monumental PIB de 4,5 trilhões de dólares
é capaz de comprar e nem todo o seu virtuosismo tecnológico
é capaz de produzir: bebês. Mais precisamente,
cerca de 900 000 a mais por ano. Com uma das menores
taxas de fecundidade do planeta e o maior porcentual de idosos,
o Japão corre o risco de ver sua população
de 128 milhões de pessoas encolher juntamente
com a sua produtividade e riqueza para um patamar inferior
a 100 milhões de habitantes em 2046. Na tentativa de
amenizar tal catástrofe, o governo anunciou, no último
mês de junho, o terceiro pacote de medidas em doze anos
destinado a aumentar o número de Akiras e Michikos
nos berçários do país. Com um orçamento
de 15 bilhões de dólares, o programa é
uma tentativa de facilitar a vida das mães que trabalham.
Mas não tem o poder de alterar aquilo que especialistas
apontam como a principal causa da escassez de crianças
no país: a pouca disposição dos japoneses
e, sobretudo, das japonesas de casar cedo. Num
país em que praticamente não existem pais solteiros,
o altar é etapa inescapável para a procriação
e, quanto mais tarde os casais chegam a ele, menor
a probabilidade de que contribuam para povoar a nação.
Por que os japoneses
estão adiando o momento de compartilhar o tatame? Nas pesquisas, homens
e mulheres respondem a mesma coisa: porque ainda não acharam o parceiro
certo. Por "parceiro certo", entendem alguém que tenha bom caráter,
seja carinhoso e dedicado à família. Os predicados exigidos por
um e outro gênero são basicamente os mesmos. À exceção
de um, invariavelmente mencionado pelas mulheres: o parceiro ideal, afirmam as
japonesas, tem de ser alguém "economicamente estável.
Eis
aí, afirmam especialistas, a mais incontornável das dificuldades
a separar o mundo ideal da realidade. Até 1992 antes do estouro
da bolha econômica que mergulhou o Japão numa recessão de
dez anos , 95% dos trabalhadores entre 20 e 35 anos tinham emprego fixo.
Hoje, esse número caiu para 70%. O restante forma o segregado grupo de
trabalhadores temporários conhecidos como "freeters" (contração
da palavra inglesa "free", ou livre, com "arbeiter", que significa
trabalhador, em alemão). "As mulheres não querem se casar com
freeters", diz Masahiro Yamada, sociólogo e professor da Universidade
Tokyo Gakugei. "Isso diminui em 30% o seu leque de pretendentes." Sinal
de que as japonesas são conservadoras e querem ser sustentadas pelo marido?
Não, responde a pesquisadora Mariko Fujiwara: sinal de que são pragmáticas
e têm noção do que as espera. No Japão, diz Mariko,
diretora do instituto de pesquisas Hakuhodo, especializado em comportamento, à
exceção de um pequeno grupo de mulheres que hoje ocupa cargos executivos
nas empresas, a grande maioria das trabalhadoras é pouco qualificada ou
formada em universidades de menor prestígio. Numa sociedade competitiva
como a oriental, elas sabem que não têm grandes perspectivas de carreira.
"Essa percepção faz com que ajam de forma realista. Para se
casarem, querem um homem que se responsabilize financeiramente pela família",
diz a pesquisadora.
As amigas Mizuko
Toriyama, 34 anos, e Akiko Takahashi, 33, confirmam a tese de Mariko. As duas
dizem que não pretendem se casar com alguém "financeiramente
instável". "Não sei se vou querer trabalhar até
os 60 anos de idade", justifica Mizuko. "Não quero baixar meu
padrão de vida", explica Akiko. Como secretária da presidência
de uma grande empresa, Akiko ganha o equivalente a 1.800 dólares por mês.
Diz que a boa situação financeira de um pretendente não é
a primeira condição para que ela aceite casar-se com ele ("dedicação
à família vem antes"), mas é a segunda. "Quando
somos mais novas, só enxergamos a parte externa do homem: se é bonito,
como se veste. Depois, quando amadurecemos, a realidade fala mais alto: entendemos
que é necessário procurar alguém que tenha futuro",
diz ela. Ah, sim, Akiko tem namorado e com uma boa situação
profissional: engenheiro de sistemas numa grande empresa. Akiko pretende casar-se
com ele? Não. E por que não? "Desconfio que ele seja o típico
homem japonês", diz. Segue a descrição do "típico
homem japonês", segundo Akiko: "Aquele que trabalha todo dia até
11 da noite, nunca janta com a família e, nos fins de semana, vai jogar
golfe com os amigos".
Mulheres
exigentes, homens desorientados: o problema dos solteiros no Japão é
tão sério que, em algumas regiões, o poder público
tomou para si a tarefa de tentar encontrar noivas para eles. É o caso da
cidade de Ikeda, na província de Nagano, oeste do Japão. Com 11
000 habitantes e uma economia baseada na rizicultura, ela é berço
natural para um tipo de solteiro com pouco valor de mercado: aquele que vem de
uma família de orçamento modesto e tradições arraigadas
como a que reza que a mulher deve ir morar com a sogra depois do casamento.
Por causa disso, a prefeitura mantém, desde 2004, um Departamento de Promoção
de Casamentos, com a atribuição, entre outras, de organizar "eventos
de confraternização para solteiros" encontros campestres
que se destinam a aproximar os avulsos locais das solteiras da vizinhança.
Por
meio de panfletos, solteiros e solteiras são convidados a participar (elas,
com o transporte pago pela prefeitura) de um "Tokimeki-biyori", algo
como "dia perfeito para se encantar". Em geral, o encontro começa
com um piquenique, seguido de atividades variadas, como rafting. O último
encontro do gênero ocorreu no ano passado. Depois dele, a prefeitura percebeu
que talvez não fosse suficiente reunir num mesmo espaço jovens de
sexos opostos e objetivos idênticos. Para que o evento produzisse o resultado
esperado (leia-se romance, namoro e, oxalá, casamento), era preciso, antes
de tudo, que as partes se comunicassem. Eis aí algo difícil para
os japoneses. "Os homens tinham grande dificuldade em aproximar-se das mulheres",
afirma Tohru Ohsawa, coordenador de eventos da prefeitura. Foi dele a idéia
de contratar o professor Kiyoharu Ohashi para uma série de palestras na
cidade. Ohashi especializou-se em ensinar homens solteiros a se comportar diante
das mulheres de modo a aumentar suas chances de mudar de estado civil. No mês
passado, ele deu sua terceira palestra em Ikeda, patrocinada pela prefeitura (veja
reportagem abaixo).
[POBRE,
NÃO] Com 33 e 34 anos, as amigas Akiko
e Mizuko continuam solteiras e dizem que assim pretendem permanecer até achar
um homem que seja dedicado à família "e que tenha futuro"
As mulheres japonesas podem se dar ao luxo de ser mais exigentes do que os homens
por dois motivos. O primeiro é que estão em vantagem numérica
a porcentagem de solteiros é maior do que a de solteiras no Japão.
O segundo é que elas estão muito menos expostas do que eles às
pressões sociais para deixar o celibato. No caso dos homens, essas pressões
partem tanto da família, interessada na perpetuação da linhagem,
como dos chefes e colegas de trabalho já que, no Japão, funcionário
confiável é funcionário casado. A vida das solteiras japonesas
também tende a ser bem mais divertida do que a dos homens. Para elas, trabalhar
(ainda) é uma opção. Para eles, é uma atividade obrigatória
em todos os aspectos, além de ser, muitas vezes, extenuante. O Japão
é o país em que mais se trabalha no planeta: 28% dos seus habitantes
cumprem jornadas de mais de 50 horas por semana (contra 20% dos americanos, 15%
dos ingleses e 5% dos alemães e franceses). Já as solteiras costumam
ter um animado círculo de amigas, avulsas como elas, e que, como elas,
podem gastar como quiserem o dinheiro que ganham, já que vivem com os pais.
"Com uma vida boa e confortável, acabam rejeitando um candidato na
espera de coisa melhor. Mais tarde, rejeitam outro e, quando vêem, estão
com 30 e muitos anos", diz Mariko Fujiwara. O problema não é,
portanto, que as japonesas não queiram se casar e ter filhos. Como a maioria
das solteiras do mundo, elas sonham com isso apenas estão à
espera do homem ideal. E, ao contrário do Japão, não têm
urgência em resolver o assunto.
A opção pelo filho único
Apesar
dos incentivos do governo, mulheres acham que um segundo filho ameaça
o seu emprego
[DOIS
É DEMAIS] A engenheira Natsuki e seu
primeiro filho. "Se tiver um segundo, vão dizer: ‘De novo?’·"
Engenheira
formada pela Universidade Nihon, uma das maiores do Japão, Natsuki Tanaka,
de 32 anos, acaba de ter o seu primeiro filho. Embora diga que gostaria que o
bebê tivesse ao menos um irmão, já decidiu que vai encerrar
a produção por aí. Motivo: ela teme que uma segunda gravidez
a force a deixar o bom emprego que tem numa grande empresa de telecomunicações.
A decisão de Natsuki está bem de acordo com os resultados de uma
pesquisa feita pelo governo japonês. Ela mostra que a maioria dos casais
com um só filho queria, na verdade, ter dois. Não o faz por dois
motivos: o primeiro é o alto custo para criar uma criança no Japão
(em torno de 200 000 dólares, do nascimento ao término da
faculdade) e o segundo é precisamente o fato de as mulheres acreditarem
que um segundo filho inviabilizaria suas chances de continuar empregadas.
Não
que as leis japonesas não facilitem a vida das mães que trabalham.
Até o início da década de 90, as coisas eram bem difíceis:
cada empresa tinha sua própria política de licença-maternidade,
quando tinha alguma. A maior parte se contentava em conceder às gestantes
algumas semanas de folga, quase sempre não remuneradas. Sucessivos anos
de baixíssimas taxas de natalidade, no entanto, mudaram a situação.
Hoje, as empresas são obrigadas a conceder às funcionárias
catorze semanas de licença-maternidade (seis antes do parto e oito depois),
seguidas da opção de retornar ao trabalho ou de ficar em casa (recebendo
50% do salário) até que o bebê faça 1 ano. Depois disso,
a criança tem direito a uma vaga em creche subsidiada pelo governo e a
mãe, a um horário de trabalho mais flexível que o dos colegas.
Natsuki
concorda que a lei é bastante razoável. Mas diz que não são
as condições objetivas que a preocupam. O que ela teme é
que uma segunda gravidez desagrade seu chefe e colegas de trabalho. "Eles
são gentis, mas, quando dizem: Que bom que você vai poder ficar
tanto tempo fora cuidando do seu bebê, percebo que há uma certa
crítica pelo fato de que alguém terá de fazer o meu serviço",
conta. Para a engenheira, no entanto, ainda que a gravidez de uma funcionária
sobrecarregue seus colegas, não há grandes problemas quando ela
ocorre pela primeira vez. "Mas, na segunda, vão dizer: De novo?."
Natsuki também não acredita que vai usufruir o direito legal de
chegar mais tarde e ir embora mais cedo do serviço. "Se todos tiverem
de trabalhar até meia-noite, eu não poderei simplesmente virar as
costas e ir embora", diz. "Não é uma questão de
a lei permitir ou não. Na vida real, as coisas funcionam de outro modo."
Como seduzir uma
japonesa
Diante da escassez de noivas, solteiros
fazem curso para aprender a conquistar mulheres
[PRIMEIRA
LIÇÃO] Combinar as cores e "parar de
comprar roupas no supermercado", diz a instrutora
Estendida
na parede da sala de aula, uma faixa com letras grandes convida: "Vamos polir
o homem que mora dentro de você: as chaves para fazer sucesso nos encontros".
Na platéia, estão quatro homens com idade entre 29 e 35 anos, todos
solteiros. É a terceira palestra que o professor Kiyoharu Ohashi, diretor
da Escola de Noivos de Nagoya, faz na cidade de Ikeda a convite da prefeitura
local. Há quatro anos, Ohashi dá cursos em que ensina a homens ansiosos
por deixar o celibato noções de moda e "técnicas de
conversação" o ponto fraco dos japoneses em matéria
de sedução, segundo ele.
Dessa
vez, Ohashi trouxe instrutoras para ajudá-lo. A platéia, minúscula,
está muda e tensa. A primeira instrutora começa por relacionar temas
que podem render "boas conversas". De acordo com o professor Ohashi,
escolher sobre o que vai falar é uma das principais dificuldades relatadas
pelos alunos. "Ao contrário das mulheres, que lêem revistas
e vão a restaurantes da moda com as amigas, os homens japoneses só
trabalham. Na hora de um encontro, não têm assunto." A instrutora
sugere que os alunos comecem por perguntar às mulheres em que cidade nasceram.
Para efeito de treino, propõe simular diálogos com os participantes.
O primeiro se recusa. O segundo desiste logo no início. O terceiro segue
a sua orientação e começa perguntando de onde ela é.
"Kioto", responde a instrutora. Ele leva a mão ao queixo e permanece
vários segundos em silêncio balançando afirmativamente a cabeça,
até que, finalmente, diz: "Ah, Kioto... Tem muita violência
em Kioto, não?". A instrutora salta da cadeira, levando as mãos
à testa: "Não, não!", exclama, enquanto os demais
riem. "O comentário deve ser agradável!" O participante
enrubesce.
Outro exercício consiste
em aprender a sorrir no momento de cumprimentar uma mulher tarefa que pode
ser das mais complicadas para um japonês. Parte por timidez, parte por tradição,
muitos homens costumam apresentar-se às mulheres com a cara mais fechada
possível. "Isso assusta", informa a instrutora. Depois de distribuir
espelhos aos participantes, ela pede a eles que exercitem alguns músculos
faciais, de modo a "relaxá-los e aprender a dar um sorriso natural".
I. Matsuoka 32 anos, funcionário de uma empresa de construção
que, como os demais participantes, afirma ter-se inscrito no curso "por curiosidade"
concentra-se diante da própria imagem, move alguns músculos
do rosto para baixo e para cima e logo desanima: "Muzukashi" ("difícil"),
diz. Ohashi concorda. "Assim como não foram treinados para sorrir,
os japoneses não foram ensinados para atrair uma mulher e nem mesmo para
ser agradáveis com ela", diz. Agora, diante da concorrência
apertada, correm o risco de ficar para titios.