O irmão
foi ser operário no Japão. Ele ficou e os pais conseguiram
pagar-lhe a faculdade
Fotos Paulo Vitale
O CAÇULA
Como ocorreu em boa parte das famílias nikkeis no Brasil, na dos Oya, só
o filho mais novo chegou à faculdade. Formado em desenho industrial, Cláudio
hoje é dono de uma pequena empresa do ramo
"Meus pais
se conheceram na fábrica da Mitsubishi, em Kanagawa,
no Japão, onde trabalhavam como operários. Assim
que eles casaram, vieram para cá. Meu pai continuou
trabalhando como operário numa fábrica na Vila
Aricanduva, em São Paulo. Em casa, só falávamos
japonês e só comíamos comida japonesa.
Mas, fora de lá, eu ficava constrangido de falar japonês.
Os amigos gozavam. Lembro que, quando estava brincando na
rua e minha mãe me chamava para entrar, eu dizia: Tchoto
mate! (Daqui a pouco!). Era o que bastava para os amigos
tirarem um sarro: Que tomate, o quê!. Eu
ficava com vergonha, mas minha mãe não falava
português, não tinha jeito. Em 1980, meu pai
já trabalhava como projetista na Volkswagen, em São
Bernardo. Até hoje ele tem dificuldades em falar português,
mas é muito bom com números. Por isso, conseguiu
a promoção. Mudamos de casa e passamos a estudar
em uma escola particular. Só que, em 1985, meu pai
saiu da Volks para tentar montar uma confecção
de roupas de bebê. Esse período foi difícil,
mas eu só soube disso bem mais tarde. Naquele tempo,
eu tinha uns 13 anos e não tinha noção
da dificuldade dentro de casa. Tanto que me lembro de sentir
orgulho por comer mais do que o meu irmão, que era
maior do que eu. Hoje, eu sei que minha mãe deixou
algumas vezes de comer para que eu pudesse comer mais. Japonês
é muito calado, não fala de problemas. A pedido
da minha mãe, meu pai voltou a trabalhar na Volks.
"Nessa
ocasião, o Jorge passou no vestibular só que a faculdade
era particular e meus pais não podiam pagar. Foi aí que ele resolveu
ir para o Japão. Quando me disse que ia, a primeira coisa que pensei foi:
Que bom, agora vou ter um quarto só para mim. Nós sempre
dividimos o quarto. Eu não tinha noção do que significava
ele ir para o Japão. Só no dia em que embarcou, é que a ficha
caiu e eu percebi que estava perdendo o meu irmão. Chorei. Era o meu único
irmão! Foi há mais de vinte anos, mas eu me lembro bem desse dia.
A volta para casa do aeroporto foi um silêncio só. A pena é
que ele foi embora justamente na hora em que nós estávamos nos aproximando.
Como temos cinco anos de diferença, até ali as turmas e os interesses
eram outros. Mas a gente estava começando a se integrar. Tanto que a primeira
vez que fui a um baile à noite foi ele quem me levou.
"Depois
que o Jorge foi embora, fiquei muito apegado aos amigos dele. Em 1991, entrei
na faculdade. Fiz desenho industrial, uma área que sempre adorei. Meu pai
não entendia muito o que era isso, mas sempre foi, até certo ponto,
bastante liberal. Ele sempre dizia: Você pode fazer sempre o que quiser,
desde que não esqueça duas coisas. A primeira é que você
carrega o meu nome. A segunda é que você vai ter de se responsabilizar
pelas suas escolhas. Eu acho que eles só puderam pagar a minha faculdade,
que também foi particular, porque o Jorge havia ido embora e as despesas
diminuíram. Eu me formei e logo comecei a trabalhar. Resolvi investir em
comunicação visual e cheguei a fazer um estágio no Japão,
em 1996. Fiquei um ano e, na volta, montei minha empresa. Começou no fundo
da casa dos meus pais. Hoje, já está bem maior. Em 2003, eu me casei.
Em 2004, compramos nosso apartamento. Meu primeiro filho nasceu há cinco
meses. O caçula do Jorge está para chegar por esses dias (ele
nasceu pouco depois da entrevista, em 4 de outubro). Os dois vão ter
praticamente a mesma idade. Isso para mim é muito triste: não poder
acompanhar o crescimento dos filhos do meu irmão, meu irmão não
poder ver o crescimento do meu. Como meus pais não tinham parentes no Brasil,
nós nunca tivemos primos. E, infelizmente, com os nossos filhos vai ser
a mesma coisa.
"Eu
e minha mulher tínhamos planos de morar no Canadá. A idéia
era viver em um país em que não houvesse essa insegurança.
Muitos amigos comentam que, no Canadá, você paga impostos altos,
mas tem serviços de altíssima qualidade, é respeitado e a
violência não existe. No Japão, não tenho vontade de
morar. Primeiro, porque minha mulher acha o povo de lá frio, sistemático.
O outro motivo é que, pelo fato de eu ter nacionalidade japonesa e falar
a língua, sinto que as pessoas esperam que eu pense e aja como um japonês.
E eu me sinto brasileiro pelo menos quando estou lá."
Cláudio Oya
TOQUE ORIENTAL
Cláudio com a mulher e o filho, no bairro da Liberdade, onde fica a sua
empresa. No fim de semana, ele toca taiko, o tambor japonês
Onde
mora:apartamento
de 52 m2, em São Paulo
Com
quem mora: com a mulher e o filho de 5 meses
Renda
mensal da família: 7 000 reais
Rotina
diária: acorda às 5h30, trabalha das 6h30 às 19h, ajuda
a mulher a cuidar do filho e a fazer o jantar, vê TV (telejornal e filmes)
e navega na internet
O que faz nos
fins de semana: treina e ensina taiko (instrumento japonês de percussão);
aos domingos, almoça na casa dos sogros
Religião:
não tem
diversão:
tocar taiko e organizar um arquivo de vídeos da família
Pratos
preferidos: sushi e feijoada
Qualidades
fundamentais no homem: "Ser respeitoso e atencioso com a família"
Qualidades
fundamentais na mulher: "Ser respeitosa, carinhosa e dedicada"
Maior
medo: da morte
Maior alegria:
ver o sorriso do filho
Maior tristeza:
não ter o irmão por perto
Sonho
não realizado: o de morar no Canadá
JAPÃO
Jorge
queria ser dentista. Hoje, chefe de seção numa fábrica
em Saitama, não pretende voltar para o Brasil
"Eu
queria fazer odontologia e, depois de três anos de cursinho, consegui passar
em uma faculdade em Alfenas, Minas Gerais. Fiquei contente, mas, quando fiz as
contas, vi que não iria dar. Era uma escola particular, e o valor da soma
da mensalidade e da despesa que meu pai teria com a minha acomodação
era mais alto do que o salário dele. Meu pai ficou bravo: Não
falei para você pegar a USP? Eu não vou mais pagar cursinho para
você. O que é que você vai fazer agora?. Eu pensei: Meu
pai saiu do Japão e fez a vida dele no Brasil. Eu posso fazer o mesmo:
vou para o Japão e batalho lá. No início, meu pai não
me apoiou: Uma pessoa que não dá certo aqui não vai
dar certo no Japão. Mas eu insisti porque, pelas conversas que ouvia
dos amigos do meu pai, o Japão era um país onde, se você trabalhasse
certinho, honestamente, você conseguiria fazer a sua vida. E, no Brasil,
eu sabia que não iria ter futuro para mim. Meu pai, então, falou:
Se você quer mesmo ir, vai, mas só volta quando aprender a
ler um jornal japonês.
"Chegando aqui,
fui trabalhar numa fábrica de móveis onde já
trabalhava um tio que eu não conhecia. Fiquei morando
no alojamento da empresa. Era um lugar bem velho, meio sujo.
Tirando os quartos, só tinha um galpão enorme,
velho também, com uma televisão no fundo. Lembro
que passei uma noite de Natal nesse galpão e cheguei
até a chorar. Mas tinha muito serviço naquele
tempo. Cheguei a trabalhar das 8 da manhã às
11 da noite, durante três meses, todos os dias, incluindo
sábado e domingo. Em um único mês, ganhava
600 000 ienes (5 500 dólares). Mas não guardei
nada, sempre gostei muito de sair. Quando es-tava aqui
havia oito anos, a empresa fechou. Desanimei: Então,
aqui é a mesma coisa que no Brasil. Você batalha,
batalha e a empresa fecha?. Pensei em voltar para o
Brasil. Já namorava a minha mulher na época
e achei que ela não iria querer me acompanhar. Quando
perguntei, ela disse: Aonde você for, eu vou.
Aí, eu pensei: É com essa mulher que eu
quero casar. Mas aconteceu uma coisa: lembrei que, quando
era pequeno, ouvi muitas vezes minha mãe dizendo para
o meu pai que queria voltar para o Japão, porque ela
não entendia o que as pessoas falavam no Brasil. Não
queria que a minha mulher passasse pelo que minha mãe
passou. Foi aí que resolvi ficar definitivamente no
Japão e casar com ela.
"Há
dez anos, consegui comprar esta casa. Quer dizer, estou pagando ainda, mas ela
vai ficar para os meus filhos. Hoje, trabalho para uma empresa de cosméticos
e sou chefe de seção. Tomo conta de vários brasileiros. Mas
agora, para subir na empresa, eu precisaria saber ler e escrever em japonês.
Então, coloquei na cabeça que preciso aprender. Senão, vou
ficar parado onde estou. Há alguns meses, eu me matriculei em uma escolinha
aqui perto de casa. Vou para lá depois do trabalho na firma. Fico lá,
no meio das crianças, mas não me importo. Também existe outro
motivo, que são os meus filhos. Minha filha mais velha já está
aprendendo a ler e a escrever e eu não quero ser um analfabeto para sempre.
Embora eu esteja bem aqui no Japão, às vezes fico dividido por causa
dos meus pais. Quando fui ao Brasil para o casamento do meu irmão, perguntei
ao meu pai se ele estava triste pelo fato de eu ter vindo morar no Japão
porque, falando francamente, eu não quero mais voltar para o Brasil.
Ele me disse que, agora que eu tinha filhos, eu iria compreender que os pais se
sentem mais satisfeitos com o filho longe e feliz do que com o filho perto e infeliz.
Isso me deixou aliviado."
Jorge Oya
CHURRASCO
AOS SÁBADOS Jorge com
a família, em frente à sua casa. No fim de semana, o programa é
"assar uma carninha" no quintal
Onde
mora: casa própria, de 100
m2, na província de Saitama, no Japão
Com
quem mora: com a mulher e três filhos
Rotina
diária: acorda às 6 h, trabalha das 8h às 18h ou 19h,
janta, ajuda a mulher a cuidar do bebê, dá banho nas filhas e vai
para o computador
O que faz nos fins
de semana: quando não trabalha aos sábados, faz churrasco e
ajuda a mulher nas compras. Aos domingos, joga beisebol ou passa o dia na casa
dos sogros
Pratos preferidos: sushi
e churrasco
diversão: beisebol
Religião:
não segue nenhuma
Qualidades
fundamentais no homem: "Ser trabalhador e atencioso para com a família"
Qualidades
fundamentais na mulher: "Dedicação ao marido"
Maior
medo: solidão
Maior alegria:
chegar em casa e encontrar os filhos
Maior
tristeza: a morte do primeiro filho, aos 10 meses
Sonho
não realizado: ter convivido com com os avós