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Edição 2038

12 de dezembro de 2007
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BRASIL

O irmão foi ser operário no Japão. Ele ficou
e os pais
conseguiram pagar-lhe a faculdade

Fotos Paulo Vitale
O CAÇULA
Como ocorreu em boa parte das famílias nikkeis no Brasil, na dos Oya, só o filho mais novo chegou à faculdade. Formado em desenho industrial, Cláudio hoje é dono de uma pequena empresa do ramo


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"Meus pais se conheceram na fábrica da Mitsubishi, em Kanagawa, no Japão, onde trabalhavam como operários. Assim que eles casaram, vieram para cá. Meu pai continuou trabalhando como operário numa fábrica na Vila Aricanduva, em São Paulo. Em casa, só falávamos japonês e só comíamos comida japonesa. Mas, fora de lá, eu ficava constrangido de falar japonês. Os amigos gozavam. Lembro que, quando estava brincando na rua e minha mãe me chamava para entrar, eu dizia: ‘Tchoto mate!’ (Daqui a pouco!). Era o que bastava para os amigos tirarem um sarro: ‘Que tomate, o quê!’. Eu ficava com vergonha, mas minha mãe não falava português, não tinha jeito. Em 1980, meu pai já trabalhava como projetista na Volkswagen, em São Bernardo. Até hoje ele tem dificuldades em falar português, mas é muito bom com números. Por isso, conseguiu a promoção. Mudamos de casa e passamos a estudar em uma escola particular. Só que, em 1985, meu pai saiu da Volks para tentar montar uma confecção de roupas de bebê. Esse período foi difícil, mas eu só soube disso bem mais tarde. Naquele tempo, eu tinha uns 13 anos e não tinha noção da dificuldade dentro de casa. Tanto que me lembro de sentir orgulho por comer mais do que o meu irmão, que era maior do que eu. Hoje, eu sei que minha mãe deixou algumas vezes de comer para que eu pudesse comer mais. Japonês é muito calado, não fala de problemas. A pedido da minha mãe, meu pai voltou a trabalhar na Volks.

"Nessa ocasião, o Jorge passou no vestibular – só que a faculdade era particular e meus pais não podiam pagar. Foi aí que ele resolveu ir para o Japão. Quando me disse que ia, a primeira coisa que pensei foi: ‘Que bom, agora vou ter um quarto só para mim’. Nós sempre dividimos o quarto. Eu não tinha noção do que significava ele ir para o Japão. Só no dia em que embarcou, é que a ficha caiu e eu percebi que estava perdendo o meu irmão. Chorei. Era o meu único irmão! Foi há mais de vinte anos, mas eu me lembro bem desse dia. A volta para casa do aeroporto foi um silêncio só. A pena é que ele foi embora justamente na hora em que nós estávamos nos aproximando. Como temos cinco anos de diferença, até ali as turmas e os interesses eram outros. Mas a gente estava começando a se integrar. Tanto que a primeira vez que fui a um baile à noite foi ele quem me levou.

"Depois que o Jorge foi embora, fiquei muito apegado aos amigos dele. Em 1991, entrei na faculdade. Fiz desenho industrial, uma área que sempre adorei. Meu pai não entendia muito o que era isso, mas sempre foi, até certo ponto, bastante liberal. Ele sempre dizia: ‘Você pode fazer sempre o que quiser, desde que não esqueça duas coisas. A primeira é que você carrega o meu nome. A segunda é que você vai ter de se responsabilizar pelas suas escolhas’. Eu acho que eles só puderam pagar a minha faculdade, que também foi particular, porque o Jorge havia ido embora e as despesas diminuíram. Eu me formei e logo comecei a trabalhar. Resolvi investir em comunicação visual e cheguei a fazer um estágio no Japão, em 1996. Fiquei um ano e, na volta, montei minha empresa. Começou no fundo da casa dos meus pais. Hoje, já está bem maior. Em 2003, eu me casei. Em 2004, compramos nosso apartamento. Meu primeiro filho nasceu há cinco meses. O caçula do Jorge está para chegar por esses dias (ele nasceu pouco depois da entrevista, em 4 de outubro). Os dois vão ter praticamente a mesma idade. Isso para mim é muito triste: não poder acompanhar o crescimento dos filhos do meu irmão, meu irmão não poder ver o crescimento do meu. Como meus pais não tinham parentes no Brasil, nós nunca tivemos primos. E, infelizmente, com os nossos filhos vai ser a mesma coisa.

"Eu e minha mulher tínhamos planos de morar no Canadá. A idéia era viver em um país em que não houvesse essa insegurança. Muitos amigos comentam que, no Canadá, você paga impostos altos, mas tem serviços de altíssima qualidade, é respeitado e a violência não existe. No Japão, não tenho vontade de morar. Primeiro, porque minha mulher acha o povo de lá frio, sistemático. O outro motivo é que, pelo fato de eu ter nacionalidade japonesa e falar a língua, sinto que as pessoas esperam que eu pense e aja como um japonês. E eu me sinto brasileiro – pelo menos quando estou lá."

 

Cláudio Oya


TOQUE ORIENTAL
Cláudio com a mulher e o filho, no bairro da Liberdade, onde fica a sua empresa. No fim de semana, ele toca taiko, o tambor japonês

Onde mora: apartamento de 52 m2, em São Paulo

Com quem mora: com a mulher e o filho de 5 meses

Renda mensal da família: 7 000 reais

Rotina diária: acorda às 5h30, trabalha das 6h30 às 19h, ajuda a mulher a cuidar do filho e a fazer o jantar, vê TV (telejornal e filmes) e navega na internet

O que faz nos fins de semana: treina e ensina taiko (instrumento japonês de percussão); aos domingos, almoça na casa dos sogros

Religião: não tem

diversão: tocar taiko e organizar um arquivo de vídeos da família

Pratos preferidos: sushi e feijoada

Qualidades fundamentais no homem: "Ser respeitoso e atencioso com a família"

Qualidades fundamentais na mulher: "Ser respeitosa, carinhosa e dedicada"

Maior medo: da morte

Maior alegria: ver o sorriso do filho

Maior tristeza: não ter o irmão por perto

Sonho não realizado: o de morar no Canadá

 

JAPÃO

Jorge queria ser dentista. Hoje, chefe de seção numa
fábrica em Saitama, não pretende voltar para o Brasil

"Eu queria fazer odontologia e, depois de três anos de cursinho, consegui passar em uma faculdade em Alfenas, Minas Gerais. Fiquei contente, mas, quando fiz as contas, vi que não iria dar. Era uma escola particular, e o valor da soma da mensalidade e da despesa que meu pai teria com a minha acomodação era mais alto do que o salário dele. Meu pai ficou bravo: ‘Não falei para você pegar a USP? Eu não vou mais pagar cursinho para você. O que é que você vai fazer agora?’. Eu pensei: ‘Meu pai saiu do Japão e fez a vida dele no Brasil. Eu posso fazer o mesmo: vou para o Japão e batalho lá’. No início, meu pai não me apoiou: ‘Uma pessoa que não dá certo aqui não vai dar certo no Japão’. Mas eu insisti porque, pelas conversas que ouvia dos amigos do meu pai, o Japão era um país onde, se você trabalhasse certinho, honestamente, você conseguiria fazer a sua vida. E, no Brasil, eu sabia que não iria ter futuro para mim. Meu pai, então, falou: ‘Se você quer mesmo ir, vai, mas só volta quando aprender a ler um jornal japonês’.

"Chegando aqui, fui trabalhar numa fábrica de móveis onde já trabalhava um tio que eu não conhecia. Fiquei morando no alojamento da empresa. Era um lugar bem velho, meio sujo. Tirando os quartos, só tinha um galpão enorme, velho também, com uma televisão no fundo. Lembro que passei uma noite de Natal nesse galpão e cheguei até a chorar. Mas tinha muito serviço naquele tempo. Cheguei a trabalhar das 8 da manhã às 11 da noite, durante três meses, todos os dias, incluindo sábado e domingo. Em um único mês, ganhava 600 000 ienes (5 500 dólares). Mas não guardei nada, sem–pre gostei muito de sair. Quando es-tava aqui havia oito anos, a empresa fechou. Desanimei: ‘Então, aqui é a mesma coisa que no Brasil. Você batalha, batalha e a empresa fecha?’. Pensei em voltar para o Brasil. Já namorava a minha mulher na época e achei que ela não iria querer me acompanhar. Quando perguntei, ela disse: ‘Aonde você for, eu vou’. Aí, eu pensei: ‘É com essa mulher que eu quero casar’. Mas aconteceu uma coisa: lembrei que, quando era pequeno, ouvi muitas vezes minha mãe dizendo para o meu pai que queria voltar para o Japão, porque ela não entendia o que as pessoas falavam no Brasil. Não queria que a minha mulher passasse pelo que minha mãe passou. Foi aí que resolvi ficar definitivamente no Japão e casar com ela.

"Há dez anos, consegui comprar esta casa. Quer dizer, estou pagando ainda, mas ela vai ficar para os meus filhos. Hoje, trabalho para uma empresa de cosméticos e sou chefe de seção. Tomo conta de vários brasileiros. Mas agora, para subir na empresa, eu precisaria saber ler e escrever em japonês. Então, coloquei na cabeça que preciso aprender. Senão, vou ficar parado onde estou. Há alguns meses, eu me matriculei em uma escolinha aqui perto de casa. Vou para lá depois do trabalho na firma. Fico lá, no meio das crianças, mas não me importo. Também existe outro motivo, que são os meus filhos. Minha filha mais velha já está aprendendo a ler e a escrever e eu não quero ser um analfabeto para sempre. Embora eu esteja bem aqui no Japão, às vezes fico dividido por causa dos meus pais. Quando fui ao Brasil para o casamento do meu irmão, perguntei ao meu pai se ele estava triste pelo fato de eu ter vindo morar no Japão – porque, falando francamente, eu não quero mais voltar para o Brasil. Ele me disse que, agora que eu tinha filhos, eu iria compreender que os pais se sentem mais satisfeitos com o filho longe e feliz do que com o filho perto e infeliz. Isso me deixou aliviado."

 

Jorge Oya


CHURRASCO AOS SÁBADOS
Jorge com a família, em frente à sua casa. No fim de semana, o programa é "assar uma carninha" no quintal

Onde mora: casa própria, de 100 m2, na província de Saitama, no Japão

Com quem mora: com a mulher e três filhos

Rotina diária: acorda às 6 h, trabalha das 8h às 18h ou 19h, janta, ajuda a mulher a cuidar do bebê, dá banho nas filhas e vai para o computador

O que faz nos fins de semana: quando não trabalha aos sábados, faz churrasco e ajuda a mulher nas compras. Aos domingos, joga beisebol ou passa o dia na casa dos sogros

Pratos preferidos: sushi e churrasco

diversão: beisebol

Religião: não segue nenhuma

Qualidades fundamentais no homem: "Ser trabalhador e atencioso para com a família"

Qualidades fundamentais na mulher: "Dedicação ao marido"

Maior medo: solidão

Maior alegria: chegar em casa e encontrar os filhos

Maior tristeza: a morte do primeiro filho, aos 10 meses

Sonho não realizado: ter convivido com com os avós




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