Para os jovens, adolescentes
e crianças que compõem a quarta geração de japoneses
no Brasil, o que restou de herança dos seus antepassados não vai
muito além da carga genética que resultou em um par de olhos puxados,
rosto arredondado e cabelos lisos e escuros. "A maior parte dos yonseis não
tem mais vínculos significativos com a comunidade japonesa", afirma
o coordenador da comissão jovem da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa,
Claudio Kurita. Além do passar do tempo, outros motivos contribuem para
isso. Um deles é o fato de que apenas 12% dos jovens da quarta geração
hoje moram com os avós e só 0,4% deles vivem com os bisavós.
Até recentemente, era comum que nos lares japoneses convivessem pelo menos
três gerações. A mudança da comunidade para o ambiente
urbano também teve papel fundamental no processo de abrasileiramento dos
nikkeis, afirma a socióloga Amélia Shimidu, no livro Assimilação
e Integração dos Japoneses no Brasil. No ambiente rural, a proximidade
entre os membros da comunidade e a força das relações familiares
fazem com que as tradições japonesas permaneçam mais vivas,
ao contrário do que ocorre na cidade, onde em geral as relações
são mais impessoais, diz a pesquisadora. Como 90% dos yonseis vivem na
região urbana, tendem a assimilar mais os costumes brasileiros do que os
japoneses.
Alguns hábitos,
no entanto, resistem e os culinários estão entre os mais
renitentes, como mostra uma pesquisa de 2002, que levantou a influência
da cultura de origem em estudantes nikkeis da Universidade Federal do Paraná
(um terço deles, yonsei). De acordo com a autora, Rosa Maria Zagonel, embora
os pratos brasileiros predominem no cardápio dos membros dessa geração,
eles mantêm o hábito de comer freqüentemente o gohan (arroz
branco japonês, sem tempero) e de consumir shoyu, verduras e legumes cozidos
à maneira oriental. A pesquisa mostrou, ainda, que a maioria desses jovens
não fala japonês, mas entende palavras e expressões domésticas
básicas. Algumas práticas ligadas ao culto dos ancestrais, um dos
pilares do budismo e do xintoísmo, também sobrevivem: muitos conservam
em casa o butsudan, altar em que se colocam as fotos dos mortos da família,
para quem os parentes oferecem água, comida e orações. Outra
prática que persiste é a de levar, em velórios, um envelope
preto e branco (o koden) com contribuição em dinheiro para
os familiares do morto um gesto ao mesmo tempo prático, já
que visa a ajudar nas despesas dos funerais, e simbólico, por significar
solidariedade diante da perda.
A mais recente pesquisa sobre a população de descendentes de japoneses
residentes no Brasil indica também que os yonseis são muito mais
receptivos do que as gerações anteriores ao casamento com não-descendentes
(novo censo será coordenado, no ano que vem, pelo pesquisador Reimei Yoshioka).
O fato de os próprios yonseis já terem, em sua maioria, um não-japonês
na árvore genealógica (caso de 61% deles) leva a crer que os olhinhos
puxados podem estar com os dias contados. Eles deverão ficar mais e mais
redondos nas próximas décadas.
Quem são:bisnetos dos imigrantes
japoneses
Quantos são:
13% da comunidade nipo-brasileira
Miscigenados*:
61%
Faixa etária:
menos de 35 anos
Profissões
mais comuns: estudantes e profissionais liberais nas áreas de exatas,
biológicas e humanas
*
Têm pelo menos um ascendente não-japonês
Fonte:
"Pesquisa da população de descendentes
de japoneses residentes no Brasil" (1988), Célia Oi, historiadora
No círculo da bandeira
nas págs. 78 e 79, começando da esquerda, no sentido anti-horário,
estão onze integrantes da quinta geração, os gosseis: Victor
Kato (8 anos), Helen Masuda (5 anos), Ian Yoshinari (7 anos), Erik Shimizu (3
anos), Nicholas Nomura (3 anos), Gabriela Aoki (2 meses), Vitor Kenzo (11 meses),
Enzo Yasuda (4 anos), Danton Honda (1 ano), Gabriela Katsuragawa (4 anos), Audrey
Hirano (7 anos)