Os sanseis, como são
chamados os netos dos imigrantes, são os primeiros descendentes de japoneses
a nascer majoritariamente na área urbana. No início da década
de 60, a população nipo-brasileira das cidades já superava
a do campo. Como a grande maioria das famílias que se mudaram para São
Paulo e cidades do Paraná tinha pouquíssimos recursos e era chefiada
por isseis e nisseis, era obrigatório que o negócio a ser montado
atendesse a pelo menos dois requisitos: não podia exigir grande investimento
inicial nem conhecimentos avançados de português. Assim, boa parte
dos colonos passou a se dedicar ao pequeno comércio ou à prestação
de serviços básicos. Nessa segunda categoria, as tinturarias foram
a melhor opção.
Na
década de 70, 80% dos 3 500 estabelecimentos que lavavam e passavam as
roupas dos cidadãos de São Paulo pertenciam aos japoneses. "O
negócio era conveniente para as famílias, porque elas podiam morar
nos fundos da tinturaria e fazer todo o serviço sem precisar contratar
funcionários. Além disso, a comunicação exigida pela
atividade era breve e simples", diz a antropóloga Célia Sakurai.
A rede de tinturarias da capital paulista tornou-se tão organizada que,
em 1950, conseguiu eleger o primeiro deputado estadual
descendente de japoneses do Brasil, Yukishigue Tamura. Trabalho não faltava,
já que, como lembra Hirofumi Ikesaki, cuja família era dona da Tinturaria
Moderna de Santana, "para irem ao cinema, os homens tinham de usar terno
e chapéu; e as mulheres vestiam saias plissadas, complicadas de cuidar".
Outro
ramo que prosperou entre os japoneses recém-chegados às cidades
foi o do comércio de frutas e hortaliças. O trabalho com quitandas
e barracas de feira era facilitado pelo contato que os japoneses urbanos tinham
com os que haviam ficado no campo os fornecedores eram, em geral, amigos
ou parentes. Qualquer que fosse a atividade escolhida pela família, porém,
cabia sempre aos primogênitos a tarefa de trabalhar ombro a ombro com os
pais. O costume era fruto da tradição japonesa de delegar ao filho
mais velho a continuação da atividade familiar e também
da necessidade de ajudar a custear os estudos dos irmãos mais novos. Assim,
enquanto os mais velhos trabalhavam, os caçulas ingressavam em cursos técnicos
(como o de contabilidade, principalmente, já que era mais fácil
lidar com números do que com o português). No que se refere às
faculdades, as preferidas eram engenharia, medicina e direito, que garantiam dinheiro
e prestígio social. Em 1958, os descendentes de japoneses já representavam
21% dos brasileiros com formação acima da secundária. Em
1977, eles, que eram 2,5% da população de São Paulo, somaram
13% dos aprovados na Universidade de São Paulo, 16% dos que passaram no
Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e 12% dos selecionados
na Fundação Getulio Vargas (FGV).
Os
reflexos da crise econômica da década de 80, mais as conseqüências
do Plano Collor e a demanda do Japão por mão-de-obra, fizeram com
que, entre 1980 e 1990, cerca de 85 000 japoneses e descendentes residentes no
Brasil decidissem tentar a vida do outro lado do mundo. Em busca de um futuro
que não enxergavam aqui, eles lotaram as linhas de produção
das fábricas japonesas, dispostos a trabalhar duro e voltar mais prósperos
para a terra natal mais ou menos como haviam feito seus antepassados no
início daquele século.
Quem são:
netos dos imigrantes japoneses
Quantos
são: 41% da comunidade nipo-brasileira
Miscigenados*:
42%
Faixa etária:
menos de 50 anos
Profissões
mais comuns: profissionais liberais das áreas de exatas e biológicas
*
Têm pelo menos um ascendente não-japonês
Fonte:
"Pesquisa da população de descendentes de japoneses residentes
no Brasil" (1988), Célia Oi, historiadora