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Edição 2038

12 de dezembro de 2007
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Gerações
Os nisseis

Hostilizada durante a guerra, a segunda geração
de japoneses assistiu à violência da Shindo Renmei
e viu ruir o sonho de voltar para o Japão


Naiara Magalhães


Fotos Paulo Vitale

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Abril no Centenário da Imigração Japonesa

A segunda geração de japoneses no Brasil é dividida em dois grupos. O primeiro é formado pelos filhos mais velhos dos imigrantes, aqueles que viveram a tensão da II Guerra Mundial e trabalharam pesado ao lado dos pais – no campo e, depois, nos pequenos comércios na cidade. O segundo grupo é composto dos filhos mais jovens, que, por ser ainda pequenos no período da guerra, acabaram poupados da maior parte do sofrimento e, ao contrário dos primogênitos, puderam completar os estudos. A história deles é semelhante à dos japoneses de terceira geração.

Os filhos mais velhos padeceram as conseqüências de um antiniponismo que vinha sendo gestado antes mesmo de o Kasato Maru aportar em Santos. No começo do século XX, grupos formados, entre outros setores, por representantes das oligarquias agrícolas do Norte e Nordeste acreditavam que era preciso "branquear o Brasil" para torná-lo um país desenvolvido – e a vinda dos japoneses estava na contramão desse projeto. "Além disso, os japoneses eram vistos como um povo de vocação expansionista, o que inspirava cuidados", diz o historiador Rogério Dezem. Essas ressalvas ideológicas acabaram ficando em segundo plano, a princípio, em função do imperativo econômico: os cafezais paulistas precisavam de mão-de-obra. Mas quando Getúlio Vargas implantou sua política nacionalista, durante o Estado Novo (1937-1945), o antiniponismo saiu do discurso e foi colocado em prática: em 1938, o governo ordenou o fechamento dos nihon-gakus – as escolas onde os filhos de imigrantes aprendiam não só a ler e escrever em japonês, mas a ser e agir como japoneses. Em 1941, foi a vez de os jornais da comunidade serem fechados e, no ano seguinte, por causa da guerra, a embaixada japonesa cerrou as portas. Em 1942, o Brasil entrou oficialmente no conflito – tendo o Japão do outro lado do front. Famílias japonesas que moravam em áreas consideradas de segurança nacional, como a cidade de Santos ou bairros da região central de São Paulo, como a Liberdade, foram obrigadas a deixar suas casas às pressas e mudar-se para o interior do estado. A interiorização dos imigrantes fazia parte da chamada "geopolítica do controle".

Mesmo com o fim da guerra e da ditadura varguista, a situação não se acalmou. A própria comunidade japonesa se dividiu: de um lado, ficaram os que aceitavam a derrota do Japão (os makegumi, ou derrotistas); de outro, os que acreditavam que a rendição do arquipélago, anunciada nas rádios, não passava de propaganda americana (os kachigumi, ou vitoristas). O ceticismo de alguns em relação à derrota do Japão não era de todo irracional. Afinal, em 2.600 anos de história, o país nunca havia perdido uma guerra e estava em vantagem naquele conflito até 1941 – exatamente o ano em que os jornais japoneses foram fechados. As publicações brasileiras, que a maioria dos imigrantes e descendentes de segunda geração não lia, não eram consideradas confiáveis. O Brasil não estava do lado inimigo? E quem já ouvira falar em bomba atômica? Tudo parecia uma grande invenção. Os vitoristas chegaram a fundar uma organização na-cionalista com o objetivo de juntar dinheiro para propagandear o "espírito de invencibilidade" japonês. A Shindo Renmei, ou Liga do Caminho dos Súditos, chegou a ter 30.000 sócios registrados. Um braço radical dessa instituição foi responsável por um dos episódios mais trágicos da história da imigração japonesa no Brasil. Entre os anos de 1946 e 1947, por considerarem que os derrotistas eram traidores da pátria, extremistas da Shindo Renmei mataram 23 pessoas e feriram 147. Ainda em 1946, quase 400 deles foram condenados à prisão.

A vida aos poucos foi voltando ao normal, mas, a essa altura, os parentes dos imigrantes japoneses que viviam no Japão já haviam mandado cartas para o Brasil, relatando a situação difícil em que se encontrava o país no pós-guerra. Para a maioria quase absoluta das famílias que aqui estavam, era o fim do sonho de retornar ao Japão. Os imigrantes se convenceram, então, da necessidade de preparar os filhos – ao menos os caçulas – para ascender na sociedade brasileira. Para isso, mudaram de cenário – foram do campo para a cidade. É no ambiente urbano que começa a história da terceira geração.

 

Quem são: filhos dos imigrantes japoneses

Quantos são: 31% da comunidade nipo-brasileira

Miscigenados*: 6%

Faixa etária: entre 15 e 80 anos

Profissões mais comuns: agricultores, comerciantes e prestadores de serviço, no caso dos mais velhos; técnicos e profissionais liberais das áreas de exatas e biológicas, no caso dos mais jovens

* Têm pelo menos um ascendente não japonês

Fonte: "Pesquisa da população de descendentes de japoneses residentes no Brasil" (1988), Célia Oi, historiadora





1 Aurea Imai (44 anos) – 2 Alice K (51 anos) – 3 Cristina Sano (43 anos) – 4 Eduardo Fujii (42 anos) – 5 Gertrudes Akikubo (82 anos) – 6 Hideko Honna (52 anos) – 7 Yugo Mabe (52 anos) – 8 Seisim Miyashiro (72 anos) – 9 Alice Miyashiro (82 anos) – 10 Kiko Miyashiro (74 anos) – 11 Hideomi Nakamura (77 anos) – 12 Horacio Yamauchi (57 anos) – 13 Mari Kanegae (50 anos) – 14 Ruy Ohtake (69 anos) – 15 Sergio Watanabe (30 anos) – 16 Lumi Toyoda (62 anos) – 17 Hugo Kawauchi (56 anos) – 18 Jun Sakamoto (42 anos) – 19 Otavio Hosokawa (58 anos) – 20 Yotaka Fukuda (62 anos)
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