Gerações A história de Mitsue, a filha deixada
no porto
Ela era uma criança quando,
no Porto de Kobe, foi impedida de embarcar com os pais para o Brasil
por causa de um tracoma. Só foi rever a família 36 anos depois
T.O.
Paulo Vitale
[O REENCONTRO] Mitsue
Nemoto (à dir.) reencontra pela primeira vez no Japão a irmã,
Adélia Fusata, que emigrou para o Brasil em 1936
Em
1936, Adélia Fusata tinha só 5 anos de idade, mas nunca esqueceu
a cena: de dentro do navio, ela via centenas de pessoas no porto acenando para
os parentes que partiam. O mar estava cheio de fitas coloridas: os passageiros
seguravam uma das extremidades das tiras nas mãos e lançavam a outra
na direção da terra para que os parentes agarrassem. Assim, unidos
pelas tiras que iam arrebentando à medida que o navio ganhava distância,
todos cantavam Hotaru no Hikari a canção da despedida. Ao
lado de Adélia, sua mãe soluçava.
A
família estava indo para o Brasil incompleta. Sua irmã mais velha,
Mitsue, de 8 anos, havia sido impedida de embarcar na última hora, depois
que os exames médicos indicaram que ela tinha tracoma, espécie de
conjuntivite altamente contagiosa. Como centenas de famílias que viveram
o mesmo drama na ocasião, a de Adélia não pôde voltar
atrás diante do diagnóstico: já havia vendido tudo, nada
mais lhe restava no Japão. Assim, combinou-se que a pequena Mitsue ficaria
com um tio, morador de Osaka. Ele planejava vir para o Brasil no ano seguinte
e poderia trazê-la. Foi o pai quem levou a menina do Porto de Kobe, onde
a família se preparava para a partida, para a casa do tio. Mitsue lembra:
"Ele disse que todos teriam de viajar, mas que dali a pouco voltariam. Pôs
umas moedas na minha mão e mandou que eu fosse comprar um doce. Quando
eu voltei, ele já tinha ido embora".
Passaram-se
36 anos antes que Mitsue voltasse a ver a família. Uma sucessão
de infortúnios explica a separação. Primeiro, o tio que deveria
levá-la ao Brasil resolveu adiar a viagem. Depois, a guerra estourou. O
tio foi convocado e morreu no campo de batalha. Mitsue passou a viver com a avó,
em Hokkaido, depois com a viúva do tio, em Osaka, e, mais tarde, com uma
mulher que a empregou como governanta, em Tóquio. Tantas mudanças
de endereço, mais as dificuldades que a família enfrentava no Brasil
e a precariedade da comunicação daquele tempo fizeram com que ela
ficasse anos sem notícias dos pais e irmãos. "Pensava que todos
haviam morrido." Foi só em 1971, quando já tinha 43 anos e
estava casada, morando em Tóquio, que um parente distante bateu à
sua porta trazendo uma carta que havia chegado para ela em Hokkaido. A data era
de anos antes, mas o remetente, descobriu Mitsue, continuava o mesmo. No ano seguinte,
ela embarcou para o Brasil. Junto com a bagagem, levava uma faixa de pano em que
havia escrito, em japonês: "Eu sou Mitsue". Planejava abri-la
quando desembarcasse no Brasil, com medo de que a família não a
reconhecesse.
Foi com a faixa enrolada
debaixo do braço que a irmã a encontrou, assustada, num canto do
Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Depois disso, Mitsue voltou ao Brasil outras
duas vezes. "Ir era sempre bom, mas a hora da partida era muito triste."
Até hoje, seus olhos se enchem de lágrimas quando ela se lembra
da última despedida. A mãe já estava doente nessa ocasião.
Antes de morrer, gravou uma fita cassete, que mandou para Tóquio. Na gravação,
dizia ter saudade do tempo em que todos da família viviam juntos e Mitsue,
pequena, vinha dormir junto com ela, à noite.
No
mês passado, Mitsue reencontrou a irmã, Adélia, pela primeira
vez no Japão. Desde aquele dia no Porto de Kobe, Adélia nunca mais
havia voltado à terra natal. Ela juntou as economias e aproveitou o convite
de uma associação envolvida na comemoração do centenário
da imigração para rever a irmã. Adélia está
com 76 anos; Mitsue, com 79. O reencontro das duas em Tóquio foi alegre,
barulhento e cheio de abraços. "A vida separa, mas também junta",
disse Adélia.