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Brasil
As sombras do passado
Brigas, traições,
inveja, dinheiro e macumba... A ex-primeira-dama Rosane Collor
conta pela primeira vez os bastidores
de uma das mais corruptas presidências da história

Alexandre Oltramari
Anderson Schneider
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Orlando Brito
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EM
DOIS TEMPOS
Rosane Collor agora (à esq.) e no
auge do poder: testemunha ocular e auricular da história
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Ninguém assistiu
à ascensão e queda do ex-presidente Fernando
Collor de uma posição mais privilegiada que
a de Rosane Malta Collor. Nascida em Canapi, no sertão
alagoano, Rosane casou-se com Collor aos 19 anos de idade,
quando ele ainda era um inexpressivo deputado federal por
Alagoas. Collor, como se sabe, elegeu-se governador do estado
e, três anos depois, atingiu o ápice da carreira
de qualquer político a Presidência da
República. Rosane estava ao lado de Collor quando ele
subiu a rampa do Palácio do Planalto e, quase três
anos depois, também o acompanhava, de mãos dadas,
quando ele deixou o governo e entrou para a história
como o primeiro presidente a sofrer um processo de impeachment.
Rosane Collor nunca contou publicamente o que testemunhou
então. Na semana passada, quinze anos depois, ela rompeu
o silêncio. Separada de Collor há três
anos, não se sente mais obrigada a ocultar segredos
dos tempos de primeira-dama. Em entrevista a VEJA, ela conta
detalhes dos momentos mais tensos do governo do marido na
ótica de uma ex-esposa. Rosane fala da relação
do ex-presidente com o tesoureiro entesourador Paulo César
Farias, o PC, conta como ele reagiu às denúncias
do irmão, diz que teve medo de Collor tentar o suicídio
e detalha as incursões do primeiro-casal no terreno
da magia negra. O depoimento de Rosane revela ainda um lado
desconhecido da personalidade do ex-presidente: ciumento,
ele mantinha a esposa sob permanente vigilância e, certa
vez, chegou a acusá-la de manter um caso extraconjugal.
Não eram raras as situações em que, contrariado,
tinha explosões de fúria que levaram a mulher
a suspeitar de que alguma coisa pudesse estar interferindo
em seu comportamento. O casal ficou três meses separado
durante a Presidência. Rosane Collor só se nega
a falar, por enquanto, de um assunto: o destino dos milhões
de dólares que a parceria entre o hoje senador Fernando
Collor e PC Farias teria produzido.
Veja
A saída do presidente
Collor e da senhora do Palácio do Planalto, há
quinze anos, foi o maior desafio institucional enfrentado
pelo país desde a volta à democracia. Como foram
os minutos que antecederam aquele momento?
Rosane Quando a Câmara dos Deputados
votou o impeachment, eu estava na Casa da Dinda. Fernando
pediu para ficar sozinho no gabinete presidencial. Não
queria ninguém na sala dele. Ele me ligava a cada minuto,
a cada voto. Dizia: "Quinha, esse cara jantou aí
em casa, falou que votaria contra e acaba de votar a favor".
No último voto, quando viu que não havia mais
jeito, ele me disse: "Está perdido". Pedi
para ele ter calma e não fazer nenhuma besteira. Em
seguida, determinei a um assessor que não o deixassem
só e que o trouxessem para casa.
Roberto Stuckert Filho/Ag.
O Globo
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IMPEACHMENT
Afastado da presidência, o casal deixa pela última
vez o Palácio do Planalto: paranóia, crises
de raiva e cabeçadas na parede |
Veja
O que ele lhe disse quando chegou em casa?
Rosane Fernando desceu do helicóptero,
beijou meu rosto e começou a chorar. Passamos uma noite
terrível. Dormimos apenas uma hora. Ele estava destruído.
Dois dias depois, voamos até o Palácio do Planalto
para a cerimônia oficial da saída da Presidência.
Havia manifestantes vaiando e gritando palavrões horríveis.
O cerimonial ficou com medo de que arremessassem ovos e tomates.
Queriam que saíssemos pelos fundos. Queriam humilhá-lo
mais ainda.
Veja O
presidente e a senhora embarcaram em um helicóptero
e foram para a Casa da Dinda. O que conversaram nesse trajeto?
Rosane Fernando me disse que tinha um último
desejo. Queria ver uma escola que estava sendo construída
nas proximidades da Casa da Dinda. Estávamos sentados
no banco de trás do helicóptero. Fernando fez
esse pedido. Sem nem consultar o piloto, o ajudante pediu
desculpas e informou que não havia gasolina. Fernando
chorou. Foi o momento em que ele teve consciência de
que não era mais presidente da República.
Veja Entre
a saída do Planalto, em setembro de 1992, e a renúncia
ao mandato, em dezembro do mesmo ano, passaram-se três
meses. Como foi esse período?
Rosane Trocamos a noite pelo dia. Dormíamos
às 6 horas da manhã e acordávamos à
1 da tarde. Fernando passou esse tempo todo trabalhando em
sua defesa. Não saíamos de casa. Passamos a
tomar remédios para dormir. Ele perdeu 14 quilos e
eu, 10. Também comecei a temer pela vida dele.
Veja Como
assim? O presidente pensou em se suicidar?
Rosane Fiquei com muito medo de que isso
pudesse acontecer. Fernando era muito forte, mas ficou arrasado.
Quando ele se levantava para ir ao banheiro, eu ia atrás.
Tinha medo de que ele fizesse uma besteira. Havia duas ou
três armas em casa. Mandei esconder tudo.
Veja
Qual foi o momento mais difícil?
Rosane Foi quando o Pedro Collor fez as
denúncias contra a gente. Além do caráter
político, havia uma questão familiar muito importante
em jogo. A mãe do Fernando, dona Leda Collor, morreu
por causa disso. Dona Leda tinha pressão alta e tomava
remédios controlados.
Veja
Pedro Collor desconfiava que o presidente assediava sua mulher,
Thereza. A senhora acha que foi essa a razão que o
levou a denunciar o irmão?
Rosane Não acredito nisso. Eles se
desentendiam desde que nasceram. Pedro, assim como Fernando,
tinha um temperamento muito forte. Eles simplesmente não
conseguiam conviver. Não lembro de um Natal que Fernando
tenha passado com a família dele em 21 anos de casamento.
Além disso, o Paulo César Farias montou um jornal
em Maceió para concorrer com o jornal que pertencia
à família do Fernando e era dirigido pelo irmão.
Isso deixou o Pedro irado. Ele achava que o Fernando estava
por trás do jornal do Paulo César.
Bia Parreiras
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INTRIGA
Pedro Collor, o irmão que provocou a queda do presidente:
Rosane diz que ele contou tudo a VEJA por inveja |
Veja E não estava?
Rosane Estava. Algumas vezes o Fernando
queria colocar uma matéria no jornal e o Pedro não
permitia. Ele tinha inveja do irmão.
Veja A
senhora e o presidente passaram um período rompidos
durante o governo. Collor inclusive fez questão de
aparecer em público sem aliança. O que ocorreu?
Rosane Aconteceram duas coisas ao mesmo
tempo. Fernando passou a reclamar do meu trabalho na Legião
Brasileira de Assistência (LBA). Aos 25 anos, comecei
a chamar a atenção da mídia. Os artistas
gostavam de mim, e dele, não. Ele começou a
ter muito ciúme. Ficou maluco quando publicaram uma
foto minha de biquíni. Ele era tão ciumento
que me ensinou a cumprimentar as pessoas com o braço
firme e esticado, para evitar que alguém tentasse beijar
o meu rosto.
Veja
O presidente, então, nunca desconfiou que a senhora
mantinha um relacionamento extraconjugal?
Rosane Num certo dia, ele chegou em casa
à noite e me disse que havia uma fita na qual eu aparecia
falando com um rapaz. Lidei com esse problema com a verdade.
A tal fita nunca apareceu. Não havia condições
práticas de eu manter um caso extraconjugal. Eu era
vigiada 24 horas. Talvez por um minuto isso tenha passado
na cabeça dele. Não mais que isso. Mas não
foi por esse motivo que ele tirou a aliança. A razão
principal foi mesmo o meu trabalho na LBA. Ele queria que
eu cuidasse mais da casa. Por isso, passamos três meses
separados.
Veja
Logo depois da separação, a senhora teve
de deixar a presidência da LBA sob denúncias
de corrupção. Foi coincidência?
Rosane Um dia, ao chegar para trabalhar,
encontrei a minha sala de trabalho arrombada. Reviraram todo
o gabinete. Até hoje não sei se alguém
entrou lá cumprindo ordens do presidente da República.
Fui absolvida de todas aquelas acusações.
Veja
A senhora disse que o presidente era muito ciumento. Ele
a agrediu fisicamente alguma vez?
Rosane Não, mas já quebrou
uma mesa de madeira após uma discussão. Às
vezes nem era só por ciúme. Ele tinha muita
raiva do que saía na imprensa. Quando soube que VEJA
publicaria a matéria com as denúncias do Pedro
Collor, ele deu murros na parede e derrubou tudo o que havia
sobre a sua mesa de trabalho. Disse todos os palavrões
possíveis. Falou que iria se vingar e que o Pedro pagaria
por aquilo.
Veja Collor
sempre se declarou um católico praticante. Mas eram
fortes os rumores de que ele freqüentava terreiros de
macumba. Isso chegou a acontecer?
Rosane Aconteceu. Eu e Fernando de fato
participamos de trabalhos espirituais. Alguns chegaram a ocorrer
na Casa da Dinda, mas eu não gostava muito. Pedi para
acabar com isso lá em casa. Aí os trabalhos
começaram a ser feitos numa casa vizinha, cedida por
um amigo.
Veja Com
que freqüência isso ocorria?
Rosane Não lembro. Mas recordo que
isso se intensificou no último ano de governo, quando
começamos a ter mais dificuldades em Brasília.
Veja Havia
sacrifício de animais?
Rosane Sim.
Veja O
presidente participava?
Rosane Sim. Mas era uma coisa horrível.
Nem gosto de lembrar.
Veja A
senhora chegou a freqüentar essa casa?
Rosane Fui lá algumas vezes. Eu não
gostava de assistir ao sacrifício de animais. Passava
mal sempre que via sangue.
Angel Mora
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Antonio Milena
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RIQUEZA
Após o impeachment, o casal mudou-se para Miami
e manteve uma vida de ostentação semelhante
à dos bons tempos em que o tesoureiro Paulo César
Farias bancava as despesas da família com dinheiro
arrecadado criminosamente junto a empresários que
prestavam serviços ao governo |
Veja
Como vocês faziam para freqüentar esses cultos
sem chamar atenção?
Rosane Era sempre de madrugada.
Veja
Qual era o objetivo desses rituais?
Rosane Fernando pedia proteção.
Pedia que todo mal que alguém lhe desejasse voltasse
para a pessoa que o estava amaldiçoando.
Veja
O presidente tinha mania de perseguição?
Rosane Ele achava que sempre havia alguém
querendo prejudicá-lo. Tinha muita raiva da imprensa.
Veja
É verdade que o presidente era usuário de
drogas?
Rosane Ele nunca fez nada na minha frente.
Mas houve uma época em que todo mundo só falava
disso. Até as minhas amigas começaram a me perguntar.
Fernando apresentava alterações de humor muito
bruscas. Às vezes, quando ficava bravo, ele dava socos
e batia com a cabeça na parede. Uma vez ele quebrou
a porta da casa da mãe por causa de um acesso de raiva.
Passei a ficar desconfiada. Perguntei-lhe algumas vezes se
usava drogas. Ele sempre me disse que não. Como ele
gostava muito de beber, achei que poderia ser efeito da bebida.
Veja Como
era sua rotina como primeira-dama?
Rosane Havia um lado glamouroso que era
maravilhoso. Conheci príncipes e princesas, reis e
rainhas, viajei pelo mundo e convivi com gente que jamais
imaginaria, como a princesa Diana e a Barbara Bush. Mas também
havia um lado muito difícil.
Veja
Qual é o sabor do poder?
Rosane Ter dinheiro não é
a mesma coisa que ter poder. Todo o dinheiro do mundo não
poderia comprar um jantar com a princesa Diana. Eu já
fui recebida em jantar por ela. Na Espanha, fomos hóspedes
do rei Juan Carlos, esse que acabou de mandar Hugo Chávez
calar a boca. Nos Estados Unidos, fomos hóspedes do
George e da Barbara Bush. Ela sempre me mandava cartas e chegou
a me enviar um livro que fez para o seu cachorrinho. Ela tinha
um carinho especial por mim.
Veja Foi
muito difícil voltar a levar uma vida normal depois
do impeachment?
Rosane Conseguimos dar a volta por cima.
Em Miami, pudemos levar uma vida normal. Eu e Fernando dirigíamos
o próprio carro. Jogávamos tênis, estudávamos
inglês, almoçávamos juntos e viajávamos
bastante. Ele montou um escritório num prédio
luxuoso, onde costumava passar as tardes.
Veja
Qual era, afinal, a relação entre Collor
e Paulo César Farias, o PC Farias?
Rosane Paulo César era homem de confiança
do Fernando. Era ele quem cuidava de todas as questões
financeiras. Ninguém entrega a tarefa de arrecadar
dinheiro para sua campanha a alguém em quem não
confia. Mas isso não significa que ele vivia na minha
casa. Não convivíamos. Era uma relação
profissional.
Veja
Collor sempre garantiu que nunca mais voltou a ver o tesoureiro
PC Farias depois de tomar posse como presidente. Isso é
verdade?
Rosane Ele e Paulo César tomaram
café-da-manhã juntos algumas vezes na Casa da
Dinda depois da posse. Também se encontraram várias
vezes fora dali.
Veja Durante
o governo Collor, uma frase de PC Farias que ficou famosa
dizia o seguinte: "Madame está gastando demais".
Quando a senhora descobriu que PC Farias pagava despesas pessoais
da senhora e de sua família?
Rosane Fiquei sabendo disso pelo noticiário.
Eu não sabia nem o que era fantasma. É muito
difícil saber que até o seu dentista é
pago por outra pessoa. Fernando me dizia que nada do que estavam
falando era verdade. Tudo o que eu queria o meu marido me
dava. Para mim, até então, o dinheiro era dele.
Ele era muito fechado sobre a relação que mantinha
com o Paulo César.
Veja Como
o presidente reagiu à notícia da morte de PC
Farias?
Rosane Estávamos no Taiti. Primeiro,
ele ficou chocado. Depois, ficou com muito medo de ser acusado
de ter mandado assassinar o Paulo César.
Veja
Por que vocês não foram ao enterro
dele?
Rosane Nessa época, eles já
tinham pouco contato. Lembro apenas de ele ter ligado para
um dos irmãos se solidarizando.
Veja
A prisão de PC Farias na Tailândia
deixou o presidente preocupado?
Rosane Ficou apreensivo.
Veja A
senhora acha que Collor errou ao receber dinheiro de PC Farias?
Rosane Eu nunca soube exatamente que tipo
de acordo regulava as relações financeiras entre
Fernando e Paulo César.
Veja A
senhora, então, achava que o presidente era um homem
muito rico?
Rosane Sempre achei que o Fernando fosse
rico. Quando moramos em Miami, ele me deu um Porsche de presente.
Tínhamos uns dez cartões de crédito.
Também guardávamos dinheiro em um cofre da casa.
Quando voltamos ao Brasil, continuamos vivendo maravilhosamente
bem. A minha mesada era de 40 000
reais. Passávamos o réveillon em Angra dos Reis
com ilha alugada, com segurança, mordomo e até
helicóptero. Também costumávamos esquiar
em Aspen. Com a nossa separação, em 2005, descobri
que Fernando tem uma renda mensal declarada de 25 800
reais.
Veja Entre
o impeachment, em 1992, e a sua eleição para
o Senado, no ano passado, o ex-presidente praticamente não
trabalhou. Como ele bancava seus gastos pessoais com uma renda
de 25 800 reais?
Rosane Não posso falar sobre isso.
Veja Estima-se
que a parceria entre PC Farias e o ex-presidente tenha deixado
um saldo de 60 milhões de dólares em contas
secretas no exterior. A senhora tem alguma idéia de
onde foi parar esse dinheiro?
Rosane Não posso falar sobre isso.
Veja A
senhora acredita que o presidente tenha contas secretas no
exterior?
Rosane Não posso falar sobre isso.
Veja A
senhora não pode responder porque não sabe ou
porque tem medo de sofrer alguma retaliação?
Rosane Não posso falar sobre isso.
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