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12 de dezembro de 2007
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Auto-retrato
Corinne Maier

Magali Delporte/Eyevine


A psicanalista suíça Corinne Maier, 44 anos, tem sido alvo de protestos em jornais e programas de televisão europeus depois do lançamento de seu best-seller No Kid — Quarante Raisons de Ne Pas Avoir d’Enfant ("Nada de crianças – Quarenta Razões para Não Ter Filhos", ainda sem tradução). Com uma década de estudos sobre o assunto, ela diz: "A pressão pela maternidade tem resultado em mães infelizes". Casada e (sim) mãe de dois filhos, de 11 e 13 anos, Maier falou ao repórter Marcos Todeschini.

Por que a senhora escreveu um livro tão crítico em relação à maternidade?
A intenção foi dar à discussão um tom menos dogmático. As mulheres estão tendo filhos incentivadas por uma visão romanceada e ingênua. O primeiro equívoco é acreditar em algo como o "instinto materno". Os melhores estudos sobre as sociedades primitivas indicam justamente o contrário. Desde a Idade da Pedra, as mulheres sempre tiveram filhos motivadas por razões econômicas. Mais gente numa tribo significava força contra os inimigos e maior capacidade produtiva. Essa idéia persiste em lugares pobres e atrasados. Já em sociedades mais modernas, a pressão pela maternidade é ou-tra. Ela vem da pirâmide demográfica.

Como se manifesta essa pressão?
Os países estão envelhecendo e precisam de gente jovem para continuar a crescer. Por isso, o estado começa a dar às mulheres estímulos concretos para terem filhos e, de quebra, ainda contribui para a glamourização extrema da maternidade. Esse é um aspecto normalmente ignorado do problema. Eu sei, com base em minha experiência de consultório, que uma típica mulher européia se vê hoje extremamente pressionada pela nova ques-tão demográfica.

Quais são as conseqüências disso?
A pressão social não é apenas em relação a gerar filhos, mas se estende ao próprio exercício da maternidade. Incentivados por uma imagem idílica, pais e mães procuram uma perfeição impossível de atingir. Afinal, eles jamais terão parâmetros objetivos para medir a felicidade de um filho. Dessa eterna incerteza resultam a frustração e a culpa. Os pais de hoje sempre acham que poderiam fazer mais e melhor.

É possível falar numa dose ideal de afeto e atenção?
Costumo ser vaiada em público por afirmar que bons pais precisam cultivar uma certa indiferença em relação aos filhos. Não é bom dar amor de menos, tampouco demais. Falo isso porque está claro como o excesso de preocupação e afeto priva a criança da liberdade necessária para o devido crescimento e ainda torna os pais angustiados pela falta de tempo para si próprios.

A senhora consegue manter essa "certa indiferença"
em relação a seus dois filhos?

Quando fizeram 8 anos, eles passaram a ir para a escola sozinhos. Na adolescência, deixei de ajudar na lição de casa. Ganhei para mim duas horas do dia, eles não sentiram minha falta e continuamos tão próximos quanto antes.

A senhora foi criticada?
Sim, como era esperado, mas também fui celebrada. Depois do livro, muitas mulheres me escreveram dizendo se sentir, pela primeira vez, mais livres para expressar raiva, impaciência e contrariedade em relação às atitudes dos filhos. Ainda parece um sacrilégio em sociedades modernas, mas não há nada de errado nisso.

Em sua pesquisa sobre a maternidade nos diversos países, a senhora chegou a alguma conclusão sobre qual deles mais acerta?
Há diferenças culturais evidentes. Em países da América Latina, como o Brasil, os pais ainda mantêm uma relação quase primitiva com os filhos. A separação entre eles costuma ser lenta e se dar praticamente por inércia, quando os filhos se casam. Em países europeus, os jovens saem de casa, em média, cinco anos antes. Prefiro esse último modelo ou qualquer outro que, de algum modo, incentive a independência entre pais e filhos. É a base para uma relação mais satisfatória.




 

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