|
Auto-retrato Corinne
Maier Magali
Delporte/Eyevine
 |
A
psicanalista suíça Corinne Maier, 44 anos, tem sido alvo de protestos
em jornais e programas de televisão europeus depois do lançamento
de seu best-seller No Kid Quarante Raisons de Ne Pas Avoir dEnfant
("Nada de crianças Quarenta Razões para Não Ter
Filhos", ainda sem tradução). Com uma década de estudos
sobre o assunto, ela diz: "A pressão pela maternidade tem resultado
em mães infelizes". Casada e (sim) mãe de dois filhos, de 11
e 13 anos, Maier falou ao repórter Marcos Todeschini.
Por
que a senhora escreveu um livro tão crítico em relação
à maternidade? A intenção foi dar à discussão
um tom menos dogmático. As mulheres estão tendo filhos incentivadas
por uma visão romanceada e ingênua. O primeiro equívoco é
acreditar em algo como o "instinto materno". Os melhores estudos sobre
as sociedades primitivas indicam justamente o contrário. Desde a Idade
da Pedra, as mulheres sempre tiveram filhos motivadas por razões econômicas.
Mais gente numa tribo significava força contra os inimigos e maior capacidade
produtiva. Essa idéia persiste em lugares pobres e atrasados. Já
em sociedades mais modernas, a pressão pela maternidade é ou-tra.
Ela vem da pirâmide demográfica. Como
se manifesta essa pressão? Os países estão envelhecendo
e precisam de gente jovem para continuar a crescer. Por isso, o estado começa
a dar às mulheres estímulos concretos para terem filhos e, de quebra,
ainda contribui para a glamourização extrema da maternidade. Esse
é um aspecto normalmente ignorado do problema. Eu sei, com base em minha
experiência de consultório, que uma típica mulher européia
se vê hoje extremamente pressionada pela nova ques-tão demográfica.
Quais são as conseqüências
disso? A pressão social não é apenas em relação
a gerar filhos, mas se estende ao próprio exercício da maternidade.
Incentivados por uma imagem idílica, pais e mães procuram uma perfeição
impossível de atingir. Afinal, eles jamais terão parâmetros
objetivos para medir a felicidade de um filho. Dessa eterna incerteza resultam
a frustração e a culpa. Os pais de hoje sempre acham que poderiam
fazer mais e melhor. É possível
falar numa dose ideal de afeto e atenção? Costumo ser vaiada
em público por afirmar que bons pais precisam cultivar uma certa indiferença
em relação aos filhos. Não é bom dar amor de menos,
tampouco demais. Falo isso porque está claro como o excesso de preocupação
e afeto priva a criança da liberdade necessária para o devido crescimento
e ainda torna os pais angustiados pela falta de tempo para si próprios.
A senhora consegue manter essa "certa
indiferença" em relação a seus dois filhos?
Quando fizeram 8 anos, eles passaram a ir para a escola sozinhos. Na adolescência,
deixei de ajudar na lição de casa. Ganhei para mim duas horas do
dia, eles não sentiram minha falta e continuamos tão próximos
quanto antes. A senhora foi criticada?
Sim, como era esperado, mas também fui celebrada. Depois do livro, muitas
mulheres me escreveram dizendo se sentir, pela primeira vez, mais livres para
expressar raiva, impaciência e contrariedade em relação às
atitudes dos filhos. Ainda parece um sacrilégio em sociedades modernas,
mas não há nada de errado nisso. Em
sua pesquisa sobre a maternidade nos diversos países, a senhora chegou
a alguma conclusão sobre qual deles mais acerta? Há diferenças
culturais evidentes. Em países da América Latina, como o Brasil,
os pais ainda mantêm uma relação quase primitiva com os filhos.
A separação entre eles costuma ser lenta e se dar praticamente por
inércia, quando os filhos se casam. Em países europeus, os jovens
saem de casa, em média, cinco anos antes. Prefiro esse último modelo
ou qualquer outro que, de algum modo, incentive a independência entre pais
e filhos. É a base para uma relação mais satisfatória.
|