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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

O gringo talibã

"A expansão do Islã traz no bojo sua
própria transformação. Seu convívio com
outras religiões, no seio de Estados que
respeitam o princípio da laicidade, dará
a plena dimensão de seu humanismo."

O rosto emaciado de John Philip Walker, o jovem americano de família católica que se converteu ao Islã e combatia ao lado dos talibãs, surgiu em TVs e jornais do mundo inteiro na semana passada. Com seus olhos fundos, o americano assemelhava-se aos afegãos e aos árabes: o rosto de todos os homens acuados encontra-se na mesma parecença, no mesmo desespero. Mas a foto do gringo talibã deixava também entrever outro aspecto da atualidade: o avanço muçulmano no Ocidente, dentro e fora das comunidades de imigrantes tradicionalmente filiados a essa religião.

Ilustração Ale Setti

Como se sabe, o Islã é a religião que mais se estende no mundo. Algumas fontes, como o Book of the Year da enciclopédia Britannica, calculam que já existam mais muçulmanos (cerca de 5,8 milhões) que judeus (5,6 milhões) nos Estados Unidos. O mesmo crescimento é observado na Europa, onde o Islã conta com um número crescente de seguidores. Em certas mesquitas francesas e inglesas já é perceptível a presença de muçulmanos de descendência européia. Nos Estados Unidos, é notória a penetração do Islã entre os afro-americanos.

Qual o impacto desse fenômeno?

Na The New York Review of Books, Christopher Jencks, professor em Harvard, publica um ensaio resenhando livros importantes sobre a população americana ("Who should get in?", 29 de novembro de 2001). Recapitulando a imigração nos Estados Unidos, Jencks observa a virada operada nos anos 1921-1924, quando foram estabelecidas as cotas que reduziam drasticamente o número de imigrantes vindos da Europa central e da Europa do sul. Jencks cita os efeitos da crise econômica dos anos 1890 como um dos motivos do freio à imigração. Mas não menciona as conseqüências do processo de Sacco e Vanzetti. Acusados de roubo e assassinato, esses dois imigrantes italianos, militantes anarquistas, foram condenados à morte em 1921 e executados em 1927. Persuadidos de sua inocência, milhares de manifestantes se mobilizaram em vários países. No entanto, para muitas outras pessoas o caso Sacco e Vanzetti teve significação diferente.

De fato, para a maioria dos americanos que acreditavam na culpabilidade dos dois italianos, o caso Sacco-Vanzetti rompia um dos mitos fundadores dos Estados Unidos: a idéia de que o país podia receber do mundo inteiro gente de todas as crenças e transformá-la em bons cidadãos. Doravante, o governo deveria rejeitar os indesejáveis. Tal foi o contexto da política de cotas de 1924.

Em 1965, o Congresso abrandou as cotas, abrindo espaço para os imigrantes da América Latina, das Antilhas e da Ásia. A modificação deu lugar a uma nova vaga de imigração que facilitou a ida dos brasileiros atualmente residentes nos Estados Unidos. Se o movimento prosseguir no mesmo ritmo, em 2050 metade da população americana será formada pelo conjunto dos imigrantes pós-1965 e seus descendentes. Os atentados de 11 de setembro farão com que a política imigratória americana se torne novamente restritiva?

Mais de 100.000 pedidos de autorização de residência e extensão de visto, assim como 80.000 solicitações de asilo por parte de refugiados, estão sendo passados a pente-fino pelas autoridades. Nessa perspectiva, o presidente Bush deu uma declaração bastante significativa: "Saudamos o processo que encoraja pessoas a vir para nosso país para visitá-lo, estudar ou trabalhar. O que não saudamos são pessoas que vêm para ferir o povo americano". Na seqüência, o secretário da Justiça, John Ashcroft, foi encarregado de implementar uma política de imigração restritiva a fim de impedir a entrada no território americano de terroristas e seus aliados.

O endurecimento visará aos muçulmanos em geral e aos árabes em particular? Se tal for o caso, a nova política americana estará fadada ao fracasso. Na realidade, a expansão do Islã traz no bojo sua própria transformação. Seu convívio com outras religiões, no seio de Estados que respeitam o princípio da laicidade, dará a plena dimensão de seu humanismo.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris – Sorbonne (lfa@uol.com.br)


 
 
   
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