Luiz
Felipe de Alencastro
O gringo talibã
"A
expansão do Islã traz no bojo sua
própria transformação. Seu convívio com
outras religiões, no seio de Estados que
respeitam o princípio da laicidade, dará
a plena dimensão de seu humanismo."
O rosto
emaciado de John Philip Walker, o jovem americano de família católica
que se converteu ao Islã e combatia ao lado dos talibãs,
surgiu em TVs e jornais do mundo inteiro na semana passada. Com seus olhos
fundos, o americano assemelhava-se aos afegãos e aos árabes:
o rosto de todos os homens acuados encontra-se na mesma parecença,
no mesmo desespero. Mas a foto do gringo talibã deixava também
entrever outro aspecto da atualidade: o avanço muçulmano
no Ocidente, dentro e fora das comunidades de imigrantes tradicionalmente
filiados a essa religião.
Ilustração Ale Setti
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Como se sabe,
o Islã é a religião que mais se estende no mundo.
Algumas fontes, como o Book of the Year da enciclopédia
Britannica, calculam que já existam mais muçulmanos
(cerca de 5,8 milhões) que judeus (5,6 milhões) nos Estados
Unidos. O mesmo crescimento é observado na Europa, onde o Islã
conta com um número crescente de seguidores. Em certas mesquitas
francesas e inglesas já é perceptível a presença
de muçulmanos de descendência européia. Nos Estados
Unidos, é notória a penetração do Islã
entre os afro-americanos.
Qual o impacto
desse fenômeno?
Na The
New York Review of Books, Christopher Jencks, professor em Harvard,
publica um ensaio resenhando livros importantes sobre a população
americana ("Who should get in?", 29 de novembro de 2001). Recapitulando
a imigração nos Estados Unidos, Jencks observa a virada
operada nos anos 1921-1924, quando foram estabelecidas as cotas que reduziam
drasticamente o número de imigrantes vindos da Europa central e
da Europa do sul. Jencks cita os efeitos da crise econômica dos
anos 1890 como um dos motivos do freio à imigração.
Mas não menciona as conseqüências do processo de Sacco
e Vanzetti. Acusados de roubo e assassinato, esses dois imigrantes italianos,
militantes anarquistas, foram condenados à morte em 1921 e executados
em 1927. Persuadidos de sua inocência, milhares de manifestantes
se mobilizaram em vários países. No entanto, para muitas
outras pessoas o caso Sacco e Vanzetti teve significação
diferente.
De fato,
para a maioria dos americanos que acreditavam na culpabilidade dos dois
italianos, o caso Sacco-Vanzetti rompia um dos mitos fundadores dos Estados
Unidos: a idéia de que o país podia receber do mundo inteiro
gente de todas as crenças e transformá-la em bons cidadãos.
Doravante, o governo deveria rejeitar os indesejáveis. Tal foi
o contexto da política de cotas de 1924.
Em 1965,
o Congresso abrandou as cotas, abrindo espaço para os imigrantes
da América Latina, das Antilhas e da Ásia. A modificação
deu lugar a uma nova vaga de imigração que facilitou a ida
dos brasileiros atualmente residentes nos Estados Unidos. Se o movimento
prosseguir no mesmo ritmo, em 2050 metade da população americana
será formada pelo conjunto dos imigrantes pós-1965 e seus
descendentes. Os atentados de 11 de setembro farão com que a política
imigratória americana se torne novamente restritiva?
Mais de
100.000 pedidos de autorização
de residência e extensão de visto, assim como 80.000
solicitações de asilo por parte de refugiados, estão
sendo passados a pente-fino pelas autoridades. Nessa perspectiva, o presidente
Bush deu uma declaração bastante significativa: "Saudamos
o processo que encoraja pessoas a vir para nosso país para visitá-lo,
estudar ou trabalhar. O que não saudamos são pessoas que
vêm para ferir o povo americano". Na seqüência, o secretário
da Justiça, John Ashcroft, foi encarregado de implementar uma política
de imigração restritiva a fim de impedir a entrada no território
americano de terroristas e seus aliados.
O endurecimento
visará aos muçulmanos em geral e aos árabes em particular?
Se tal for o caso, a nova política americana estará fadada
ao fracasso. Na realidade, a expansão do Islã traz no bojo
sua própria transformação. Seu convívio com
outras religiões, no seio de Estados que respeitam o princípio
da laicidade, dará a plena dimensão de seu humanismo.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@uol.com.br)
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