
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Duas vezes
Monteiro Lobato
Dois
livros recentes
evocam suas
histórias infantis, melhores ainda
quando lidas na idade adulta
Iracema,
Brás Cubas, Capitu, Policarpo Quaresma... Um livro recém-lançado
enfeixa as "biografias críticas", como se diz na introdução,
de doze dos mais marcantes personagens da literatura brasileira, cada
uma elaborada por um especialista na matéria. Além dos já
citados, desfilam no livro (Personae, organização
de Lourenço Dantas Mota e Benjamin Abdala Junior; Editora Senac)
Riobaldo, Augusto Matraga, Macunaíma, Dona Flor, o Capitão
Rodrigo de Érico Veríssimo, o Paulo Honório de Graciliano
Ramos, a Macabéa de Clarice Lispector. Todos indispensáveis
à idéia a boa idéia que norteia o volume,
e por isso mesmo previsíveis. Mais surpreendente é a inclusão
nesse time da personagem que deixamos por último: Emília.
Ela mesma, a boneca de pano de Monteiro Lobato. A surpresa decorre do
fato de Emília ser originária de um universo o da
literatura infantil em geral desprezado em escolhas desse tipo,
e não da falta de méritos. Pelo contrário, Emília
é tão boa como alguns dos companheiros de livro, e melhor
que outros.
O texto
sobre Emília, de autoria da professora Marisa Lajolo, da Unicamp,
mostra com inteligência como a boneca, com sua voz que inquire,
questiona, atalha e teima, é quem confere a originalidade, a magia
e o sentido crítico que impregnam o ambiente do Sítio do
Picapau Amarelo. Emília é a "porta-voz" de Lobato, diz a
professora Lajolo. Ela desafia verdades e valores com mais petulância
do que o autor de carne e osso se permitiria, e propõe com mais
liberdade a liberdade infinita que é o universo de fantasia
das histórias para crianças a ordem que julga mais
adequada ao mundo. Ela é uma voz, sobretudo. A aquisição
da fala é portanto o ponto crucial da "biografia" de Emília,
e então a autora relembra as circunstâncias em que isso se
deu.
Narizinho
levou sua boneca, até então muda, ao Doutor Caramujo, reputado
médico do Reino das Águas Claras, inventor de certas infalíveis
pílulas falantes. O médico pôs uma pílula na
boca da paciente. Emília engoliu a pílula, "muito bem engolida",
e começou a falar. "E falou, falou, falou, mais de uma hora sem
parar", conta Lobato. Tanto falou que Narizinho, atordoada, perguntou
se não era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e
engolir uma mais fraca. "Não é preciso explicou o
grande médico. Ela que fale até cansar. Depois de
algumas horas de falação, sossega e fica como toda a gente.
Isso é fala recolhida, que tem de ser botada para fora."
Emília
falou três horas seguidas e depois se calou. Ou melhor, calou-se
é modo de dizer, como nota a professora Lajolo. Emília é
aquela que nunca se cala. Nós, leitores, ficamos devendo a Monteiro
Lobato, via Doutor Caramujo, o genial conceito de "fala recolhida".
Em outro
livro recente, o cientista Luiz Hildebrando, professor da USP cassado
em 1964, reputado por suas pesquisas sobre doenças tropicais, relembra,
em forma de crônicas, os mais de trinta anos que viveu em Paris,
para onde foi como exilado e onde acabou por criar e dirigir o Centro
de Parasitologia do Instituto Pasteur (Crônicas de Nossa Época,
editora Paz e Terra). As crônicas evocam os encontros e desencontros
do grupo que, como o autor, nunca abandonou o vezo de, a cada dia, redesenhar
o Brasil distante, cujos rumos cruéis insistiam em escapar-lhe
aos desejos. O livro nada tem a ver com o anterior, exceto que... Exceto
que, a certa altura, também acaba por desaguar nas histórias
infantis de Monteiro Lobato.
Isso ocorre
na última e bela crônica, em que Hildebrando explica por
que, apesar dos pesares, das trombadas ao longo da vida e do colapso do
mundo soviético, decidiu continuar comunista. Ele começa
a crônica com uma volta à infância, e reconstitui a
alegria de que eram possuídos, ele e os irmãos, quando o
pai chegava com novo livro de Monteiro Lobato. Cabia à mãe
lê-lo, em voz alta, para deleite supremo das crianças. Foi
assim quando ela lhes leu a história do vestido que Dona Aranha,
costureira do Reino das Águas Claras, teceu para Narizinho. O vestido
ficou tão lindo que o espelho foi arregalando os olhos, e mais
e mais, até que craque quebrou de admiração.
Narizinho pensou que Dona Aranha fosse ficar furiosa. Em vez disso, dançava
de alegria. Ocorre que ela era aranha por força de um feitiço
que a condenara àquela condição, assim como à
de costureira. Quando fizesse o vestido mais lindo do mundo, podia virar
outro ser, o que escolhesse.
Toca a escolher
no que virar. Princesa? Sereia? Nada era satisfatório. Discute
daqui, discute de lá, nada. Até que Dona Aranha conclui:
"Acho melhor ficar no que sou. (...) Como já sou aranha há
mil anos, estou acostumadíssima". E continuou aranha. Hildebrando,
igualmente acostumadíssimo, continua comunista. Nós leitores
de Lobato nos admiramos pela forma como ele subverte a lógica do
encantamento das histórias infantis e faz a personagem continuar
ela mesma. Das lembranças trazidas pelos dois livros citados, surge
a suspeita de que Lobato, lido na idade adulta, fica melhor ainda.
|
|
 |
|
 |

|
 |