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O João Ubaldo
da sacristia
Padre
Edmilson gosta de escrever
romances. Seus temas são crime
e sexo muito sexo
Marcelo Carneiro
Oscar Cabral
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CINCO
VEZES
"Era
enfim uma gostosa obsessão por aquele macho! Ela não
podia reclamar dos dois que tinha atualmente
na cama, pois o Manuel
era quase rival de Moacir...
Mais tímido, é claro, mas eficiente até as
raias da loucura, pois numa
só noite chegava a gozar
cinco vezes, sem se preocupar com a parceira que se esvaía
na dor
e no delírio!"
Trecho
de
No Fundo da Raloa
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| Padre
Edmilson: um palavrão de duas letras incomodou o arcebispo |
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O baiano
Edmilson Ribeiro sonha com a posteridade literária. Já tem
oito romances prontinhos e o tema é quase sempre o mesmo. Histórias
de sexo e morte sob o sol de uma pequena cidade do recôncavo. "Ele
não pensou duas vezes e caiu nos seus braços. Nunca seu
apetite foi tão voraz, nunca sua sede foi tão insaciável...
Possuiu Celina ali mesmo na grama do quintal", escreve Ribeiro em No
Fundo da Raloa, o seu segundo livro lançado (Imago; 180
páginas; 22 reais). O estilo apimentado de Ribeiro seria capaz
de fazer corar um frade? A pergunta pode ser feita ao próprio autor.
Ele é padre e comanda há treze anos a paróquia de
Ponta Negra, na cidade de Natal.
O
primeiro romance de padre Edmilson, Quem Vai Promover o Sargento Moura?,
atraiu a atenção do arcebispo de Natal, dom Heitor de Araújo
Sales. Um palavrão de apenas duas letras tirou o arcebispo do sério.
Padre Edmilson foi chamado às falas por seu superior, que sugeriu
mais comedimento nos livros seguintes, especialmente em descrições
anatômicas. Ele ouviu a admoestação, disse amém,
mas foi em frente. Seu novo livro reúne, em menos de 200 páginas,
referências a homossexualismo, bissexualismo, sodomia, tráfico
de drogas, espiritismo e candomblé. "O livro é pequeno,
mas tem conteúdo", orgulha-se o autor. De onde ele tira tanta experiência,
só Deus sabe. Aos 54 anos, padre Edmilson jura que desde os 23
cumpre com rigor o celibato imposto pela Santa Madre. "Para escrever sobre
sexo não é preciso experiência, só intuição",
afirma.
O ardor
do sacerdote conquistou admiradores improváveis, como o sisudo
e ultracatólico jurista Ives Gandra, que assina o prefácio
de No Fundo da Raloa. Poeta bissexto, Gandra garante que a obra
do colega tem inspiração nos romances policiais de Agatha
Christie. Diz ainda que o livro "lembra, em alguns momentos, o estilo
de José Sarney". A obra do vigário de Ponta Negra também
remete a seu conterrâneo ilustre, João Ubaldo Ribeiro. Em
seus livros, padre Edmilson descreve algumas posições do
ato sexual, como a "Elevador Lacerda" (comum em Salvador, supõe-se)
e "teco-teco" (comum em aeroclubes, supõe-se). O kama-sutra do
pároco parece ser uma versão em baixos teores de A Casa
dos Budas Ditosos, compêndio sobre a luxúria lançado
por João Ubaldo em 1999.
Mas, afinal
de contas, o que é "raloa"? Não adianta procurar no dicionário.
Segundo padre Edmilson, "raloa" é um neologismo "baianês".
Significa um grande ralo por onde são passadas as folhas de fumo
usadas na produção de charutos. Explica-se: o cenário
do romance é uma cidadezinha que tem no fumo a base de sua economia.
Não espere, contudo, mais que algumas linhas sobre o fascinante
tema da raloa. A palavra, de óbvio duplo sentido, só serve
como chamariz para o livro. Padre Edmilson gosta mesmo é de falar
sobre sexo e adultério, tudo com uma simplicidade franciscana.
"Moacir casou-se com Ana Maria, desprezando a paixão de adolescência
de sua vizinha Celina. No entanto, na sua própria noite de núpcias,
Moacir encontrou em Celina a sua amante. Desta relação nasceu
Júlio, um filho renegado pelo pai", essa é a sinopse na
orelha do livro. "Não quero ser excomungado pelo papa. Só
penso em divulgar meu livrinho", diz padre Edmilson. Que ele não
mande, então, o livrinho para João Paulo II.
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