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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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O João Ubaldo da sacristia

Padre Edmilson gosta de escrever
romances. Seus temas são crime
e sexo – muito sexo

Marcelo Carneiro

 
Oscar Cabral

CINCO VEZES

"Era enfim uma gostosa obsessão por aquele macho! Ela não podia reclamar dos dois que tinha atualmente
na cama, pois o Manuel
era quase rival de Moacir...
Mais tímido, é claro, mas eficiente até as raias da loucura, pois numa
só noite chegava a gozar
cinco vezes, sem se preocupar com a parceira que se esvaía na dor
e no delírio!"

Trecho de No Fundo da Raloa

Padre Edmilson: um palavrão de duas letras incomodou o arcebispo  

O baiano Edmilson Ribeiro sonha com a posteridade literária. Já tem oito romances prontinhos e o tema é quase sempre o mesmo. Histórias de sexo e morte sob o sol de uma pequena cidade do recôncavo. "Ele não pensou duas vezes e caiu nos seus braços. Nunca seu apetite foi tão voraz, nunca sua sede foi tão insaciável... Possuiu Celina ali mesmo na grama do quintal", escreve Ribeiro em No Fundo da Raloa, o seu segundo livro lançado (Imago; 180 páginas; 22 reais). O estilo apimentado de Ribeiro seria capaz de fazer corar um frade? A pergunta pode ser feita ao próprio autor. Ele é padre e comanda há treze anos a paróquia de Ponta Negra, na cidade de Natal.

O primeiro romance de padre Edmilson, Quem Vai Promover o Sargento Moura?, atraiu a atenção do arcebispo de Natal, dom Heitor de Araújo Sales. Um palavrão de apenas duas letras tirou o arcebispo do sério. Padre Edmilson foi chamado às falas por seu superior, que sugeriu mais comedimento nos livros seguintes, especialmente em descrições anatômicas. Ele ouviu a admoestação, disse amém, mas foi em frente. Seu novo livro reúne, em menos de 200 páginas, referências a homossexualismo, bissexualismo, sodomia, tráfico de drogas, espiritismo e candomblé. "O livro é pequeno, mas tem conteúdo", orgulha-se o autor. De onde ele tira tanta experiência, só Deus sabe. Aos 54 anos, padre Edmilson jura que desde os 23 cumpre com rigor o celibato imposto pela Santa Madre. "Para escrever sobre sexo não é preciso experiência, só intuição", afirma.

O ardor do sacerdote conquistou admiradores improváveis, como o sisudo e ultracatólico jurista Ives Gandra, que assina o prefácio de No Fundo da Raloa. Poeta bissexto, Gandra garante que a obra do colega tem inspiração nos romances policiais de Agatha Christie. Diz ainda que o livro "lembra, em alguns momentos, o estilo de José Sarney". A obra do vigário de Ponta Negra também remete a seu conterrâneo ilustre, João Ubaldo Ribeiro. Em seus livros, padre Edmilson descreve algumas posições do ato sexual, como a "Elevador Lacerda" (comum em Salvador, supõe-se) e "teco-teco" (comum em aeroclubes, supõe-se). O kama-sutra do pároco parece ser uma versão em baixos teores de A Casa dos Budas Ditosos, compêndio sobre a luxúria lançado por João Ubaldo em 1999.

Mas, afinal de contas, o que é "raloa"? Não adianta procurar no dicionário. Segundo padre Edmilson, "raloa" é um neologismo "baianês". Significa um grande ralo por onde são passadas as folhas de fumo usadas na produção de charutos. Explica-se: o cenário do romance é uma cidadezinha que tem no fumo a base de sua economia. Não espere, contudo, mais que algumas linhas sobre o fascinante tema da raloa. A palavra, de óbvio duplo sentido, só serve como chamariz para o livro. Padre Edmilson gosta mesmo é de falar sobre sexo e adultério, tudo com uma simplicidade franciscana. "Moacir casou-se com Ana Maria, desprezando a paixão de adolescência de sua vizinha Celina. No entanto, na sua própria noite de núpcias, Moacir encontrou em Celina a sua amante. Desta relação nasceu Júlio, um filho renegado pelo pai", essa é a sinopse na orelha do livro. "Não quero ser excomungado pelo papa. Só penso em divulgar meu livrinho", diz padre Edmilson. Que ele não mande, então, o livrinho para João Paulo II.

   
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