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Filé bem-passado?
Depois
de ler as memórias do chef
Anthony Bourdain, você pensará
duas vezes antes de fazer esse
pedido num restaurante
Marcelo Marthe
Pilotar
os fogões de um restaurante é um negócio para lá
de quente e bem mais divertido do que se imagina. É o que
se descobre no livro Cozinha Confidencial (tradução
de Beth Vieira; Companhia das Letras; 376 páginas; 35 reais), que
acaba de sair no país. Best-seller nos Estados Unidos, onde foi
lançado no ano passado, ele reúne as memórias de
Anthony Bourdain, chef do badalado bistrô Les Halles, em Nova York.
Com muitos quilômetros rodados nos restaurantes chiques da metrópole
americana, o autor mostra esse mundo por ângulos que os leigos desconhecem.
Seu tom é jocoso e indiscretíssimo. De suas gozações
não escapam os garçons ("a ralé"), os chefs (todos
"psicopatas megalomaníacos") nem ele próprio. Bourdain descreve
esse tipo de trabalho como uma coisa essencialmente "de macho", em que
marmanjos testam seus níveis de testosterona competindo para ver
quem consegue suportar mais queimaduras causadas pelas grelhas ou levantar
no muque caçarolas imensas. "As mulheres ainda são uma exceção
nesse meio. Fora as garçonetes bonitinhas, é lógico",
brinca.
As
histórias de Cozinha Confidencial são uma delícia.
Pelo menos até a parte em que o leitor é informado das armações
das quais poderá ser vítima nos restaurantes mais sofisticados
de Nova York. Esses costumam dividir seu público entre os clientes
"da casa" e os "jecas". Na primeira categoria estão aqueles que
aparecem para comer às terças, quartas e quintas. Quanto
aos "jecas", é o pessoal que só aparece no fim de semana.
Esses são os maiores alvos de malandragens. Eis algumas, segundo
Bourdain:
Carne bem-passada. Depois dos vegetarianos, os clientes mais odiados
pelos chefs são os que pedem seu filé tostadíssimo
eles os vêem como uma sub-raça de paladar subdesenvolvido.
Para tais fregueses (a maioria "jeca") são dirigidos os cortes
que estão na geladeira há dias, às vezes já
meio esverdeados. Depois de esturricados, não se percebe nenhum
gosto diferente. Quando a carne está com data de validade no limite,
vai para a "reserva do bem-passado".
Frango. Bourdain escarnece daqueles que só pedem pratos
com a ave por achar que eles são mais saudáveis que os feitos
com carne vermelha. "Os frangos distribuídos comercialmente estão
infestados de salmonela. E, quando manuseados num restaurante, são
o que tem mais possibilidade de contaminar outros alimentos", diz.
Brunches e bufês. São sinônimo de reaproveitamento
dos restos. As peças que não saíram na noite anterior
são moídas para fazer carne louca e os legumes do fundo
da geladeira viram sopa.
Comer peixe às segundas-feiras. Os menus especiais com pescado
proliferam nesse dia inclusive nos restaurantes japoneses ,
porque é o jeito de queimar o estoque que foi comprado na quinta
anterior e não se esgotou no fim de semana. Ou seja: trata-se de
peixe velho.
Frutos do mar. O autor é categórico a esse respeito:
evite. Nunca são manuseados com todo o cuidado com que deveriam
ser.
O sucesso
do livro fez com que Bourdain fosse convidado para estrelar um programa
de TV. Deve estrear no início do ano que vem, nos Estados Unidos,
num canal especializado em gastronomia. Cozinha Confidencial também
teve seus direitos vendidos para o cinema. A produção, com
estréia apontada para 2003, deverá ter o galã Brad
Pitt no papel de Bourdain e direção de David Fincher, de
Clube da Luta. É um prodígio e tanto para alguém
que afirma ter abraçado a carreira só por causa do sexo.
Quando trabalhava de assistente num restaurante, houve uma festa de casamento
e, nos bastidores, ele jura ter visto a noiva transando com o chef. "Na
hora descobri que aquela era a vida que eu queria", escreve. Bourdain
também capricha nas tintas ao descrever os restaurantes onde trabalhou
como antros do vício ele próprio foi viciado em heroína,
cocaína, maconha e outras drogas. "Essa é a única
parte do livro que realmente não tem nada a ver com o que ocorre
nos restaurantes brasileiros", garante o chef paulistano Alex Atala.
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