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A Argentina caiu
do cavalo
Em desespero,
De la Rúa baixa
seu nono pacote e deixa o país
à beira do caos

Raul Juste
Lores, de Buenos Aires
Fotos AFP
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FP
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| Fila
no banco e shopping às moscas: limite imposto aos saques paralisa
a economia e vai agravar a recessão |

Veja também |
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Depois de
três anos e meio de recessão e caminhando rapidamente rumo
ao abismo, parece que a Argentina, desta vez, caiu no poço. Calote
seguido de desvalorização do peso ou dolarização
forçada está cada vez mais perto. Desde março, quando
voltou ao poder, o outrora superministro da Economia, Domingo Cavallo,
promete milagres econômicos, na linha la garantía soy
yo, e inventa malabarismos para reanimar a economia e convencer os
credores de que o país não vai aplicar um calote na praça.
Resultado: zero. Na semana passada, como medida desesperada para frear
a retirada de depósitos bancários dos desconfiados poupadores
que temiam uma desvalorização, Cavallo decidiu que os argentinos
só teriam acesso a suas contas para saques de 250 dólares
por semana (1.000 dólares por mês)
e que os demais gastos teriam de ser realizados com cheque ou cartão
de crédito. Para o povo argentino, soou tão assustador quanto
o confisco da poupança brasileira pelo governo Collor. É
que apenas 30% dos trabalhadores argentinos costumam usar os bancos em
suas transações. No país, a tradição
é pagar (e receber) tudo com dinheiro vivo, desde aluguéis
até compras, e é assim que 42% dos trabalhadores (que não
são registrados) recebem seus salários. A maioria jamais
teve um talão de cheques.
AP

Cavallo
(à esq.) e De la Rúa: fim da mágica do
peso forte como o dólar |
Também
pudera. Os argentinos suspeitam naturalmente da solidez dos bancos. Viveram
os anos da hiperinflação, quando um cheque, por assim dizer,
nunca tinha fundos. Com seu último pacote, Cavallo quis preservar
o sistema bancário, que corria o risco de quebrar depois de retiradas
de mais de 1 bilhão de dólares em uma semana. Só
faltou um detalhe: como não poderia deixar de ser, o pacote
o nono do desastrado governo de Fernando de la Rúa veio
de surpresa. E a Argentina parou. Apenas nos primeiros dias de vigência
das medidas, houve queda de 60% nas vendas em lojas e shopping centers.
Nas agências bancárias, formaram-se filas imensas de gente
que queria tirar o pouco a que tinha direito ou abrir sua primeira conta,
a ponto de obrigar os bancos a funcionar no sábado. Parecia feriado
em Buenos Aires: ruas e lojas absolutamente vazias. As pesquisas indicam
que 40% dos argentinos vão consumir ainda menos depois das novas
medidas e que 65% da população não aprova esse pacote.
Muitos comerciantes
têm de se apressar: 85% dos estabelecimentos comerciais não
possuem sistema de cobrança por cartão de crédito.
Vai ser um Natal de chorar para o comércio local. Com menos arrecadação,
fica mais longe qualquer possibilidade de atingir o déficit zero
que Cavallo prometeu ao FMI. E o país tem uma dívida externa
que equivale a mais da metade do PIB. Com essas perspectivas sombrias
de mais recessão e a anunciada queda de 11% da arrecadação
em novembro, a Argentina espera que o FMI libere 1,3 bilhão de
dólares que Cavallo vem pedindo. Com essa soma, o ministro pretende
pagar os juros da dívida que chegam a quase 2 bilhões, até
o final de janeiro. Agora, vai oferecer mais ajuste, mais cortes. Pode
ser que o empréstimo saia ou não. Em caso positivo, a Argentina
terá um respiro. Em caso negativo, a situação piorará
e o país poderá chegar à moratória. "A Argentina
tinha uma grande hemorragia e só havia a opção do
torniquete para cortar a queda de depósitos. Só que há
o risco de se aprofundar a recessão", afirma o economista Carlos
Pérez, da Fundação Capital, de Buenos Aires.
AFP

Cabeleireiros
jogam xadrez no salão deserto: em clima de feriado fora de
hora, movimento no comércio caiu 60% |
O próprio
Cavallo voltou atrás em algumas medidas, permitindo que os argentinos
possam efetuar de uma só vez saques de 1.000
dólares em contas que sirvam para depósito de salário.
Mas a sensação que paira por toda parte, na Argentina e
fora dela, é que as manobras do ministro milongueiro só
vão adiar o desenlace final. Com mais de 70% das dívidas
em dólares, de contratos de aluguel a contas dos serviços
públicos, o povo morre de medo de uma desvalorização,
ainda com a lembrança clara das épocas da hiperinflação,
em 1989 e 1990. Tanto que, segundo pesquisa do Gallup-Argentina, 60% da
população prefere o amargo pacote de limite de saques a
uma desvalorização. A outra opção, a dolarização,
não resolveria os problemas graves, de falta de competitividade
e de déficit público alto. A Argentina é um país
de nível de vida caríssimo, principalmente comparado ao
do vizinho Brasil, de real desvalorizado. Como atrair investimentos dolarizando?
O desemprego já atinge um em cada cinco trabalhadores argentinos.
Em público,
as autoridades fazem juras solenes de que manterão o peso com o
mesmo valor do dólar. Mas está cada vez mais claro que a
conversibilidade o regime do "1 por 1" não tem muito
tempo de vida. Sem dinheiro para repassar às províncias,
o governo federal criou títulos da dívida chamados Lecops,
usados para pagar o funcionalismo público e aceitos no comércio.
Na Província de Buenos Aires, essas moedas de papel são
chamadas de patacón. Trata-se, porém, de dinheiro
sem lastro. Já há em circulação 2 bilhões
de pesos nessas moedas de mentirinha. Muitos argentinos, temendo desvalorização
do peso, guardam dólares debaixo do colchão. O limite ao
saque determinado pelo governo evidencia o óbvio: não haveria
dólares suficientes hoje se os argentinos quisessem trocar cada
peso que têm pela moeda americana. É tanto descontrole que
os jornais argentinos já especulam sobre os cenários pós-Fernando
de la Rúa, ou seja, falam da renúncia do presidente com
a maior naturalidade.
AP

Em
frente a um dos ícones da modernidade pós-privatização,
ambulante arma sua banca: o sonho acabou |
A constatação
a tirar de tudo isso é que o cruel laboratório econômico
em que a Argentina se transformou não foi capaz de criar nenhuma
fórmula mágica que livrasse o país da desvalorização.
Tentou-se de tudo: diminuir salários de funcionários públicos,
cortar aposentadorias, aumentar impostos. Não funcionou. A Argentina
precisa de dinheiro, de crescimento econômico e de estabilidade
política. As três coisas estão distantes da realidade
platina. Um país sem comando torna-se um lugar de risco alto: a
taxa de risco-país, que mede a confiança dos investidores
estrangeiros, é a maior do mundo. A desmoralização
está por toda parte. Até a apresentadora mais popular da
TV local, Susana Giménez, uma ex-vedete que faz sorteios por telefone,
deu para atacar Cavallo durante seu programa. Locutores esportivos também
deixam o futebol de lado e desancam o ministro. A elegante e boêmia
Buenos Aires está ferida. Cafés e restaurantes andam vazios
ou com as portas fechadas, em lugares tão emblemáticos como
a Recoleta ou o Puerto Madero.
A economia
informal foi a grande vítima da nova "experiência": taxistas,
faxineiras, cabeleireiros, encanadores ainda não sabem como vão
fazer para atrair clientes sem pesos no bolso. Entre os empregados domésticos,
95% não são registrados. Na construção civil,
a proporção dos sem-carteira chega a 65%. "Se forem registrados,
é provável que tenham de arcar com os gastos dos empregadores
e seus salários sejam encolhidos", diz o diretor do Centro de Estudos
Nova Maioria, Rosendo Fraga. Para esta semana, foi convocada uma greve
geral com o objetivo de pressionar o governo a dar marcha à ré
no novo pacote.
No meio
de tanta tragédia alheia, a boa notícia é que, pelo
menos nos últimos dias, o Brasil parecia descolar-se do efeito
tango, sendo cada vez menos afetado pelas turbulências do vizinho
desgovernado. Desde o pacote argentino, o risco-país do Brasil
não disparou, nem o dólar. O bom desempenho da balança
comercial brasileira, com sucessivos superávits, a constatação
de que os efeitos negativos do racionamento foram menores que o previsto
e um novo fluxo de investimentos estrangeiros demonstram que, lá
fora, muitos investidores já se deram conta de que Buenos Aires
não fica no Brasil. Espera-se que essa percepção
não seja afetada no dia em que a Argentina fizer o movimento dramático
que parece inevitável.
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