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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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A Argentina caiu do cavalo

Em desespero, De la Rúa baixa
seu nono pacote e deixa o país
à beira do caos

Raul Juste Lores, de Buenos Aires

Fotos AFP
FP
Fila no banco e shopping às moscas: limite imposto aos saques paralisa a economia e vai agravar a recessão


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Depois de três anos e meio de recessão e caminhando rapidamente rumo ao abismo, parece que a Argentina, desta vez, caiu no poço. Calote seguido de desvalorização do peso ou dolarização forçada está cada vez mais perto. Desde março, quando voltou ao poder, o outrora superministro da Economia, Domingo Cavallo, promete milagres econômicos, na linha la garantía soy yo, e inventa malabarismos para reanimar a economia e convencer os credores de que o país não vai aplicar um calote na praça. Resultado: zero. Na semana passada, como medida desesperada para frear a retirada de depósitos bancários dos desconfiados poupadores que temiam uma desvalorização, Cavallo decidiu que os argentinos só teriam acesso a suas contas para saques de 250 dólares por semana (1.000 dólares por mês) e que os demais gastos teriam de ser realizados com cheque ou cartão de crédito. Para o povo argentino, soou tão assustador quanto o confisco da poupança brasileira pelo governo Collor. É que apenas 30% dos trabalhadores argentinos costumam usar os bancos em suas transações. No país, a tradição é pagar (e receber) tudo com dinheiro vivo, desde aluguéis até compras, e é assim que 42% dos trabalhadores (que não são registrados) recebem seus salários. A maioria jamais teve um talão de cheques.

AP

Cavallo (à esq.) e De la Rúa: fim da mágica do peso forte como o dólar

Também pudera. Os argentinos suspeitam naturalmente da solidez dos bancos. Viveram os anos da hiperinflação, quando um cheque, por assim dizer, nunca tinha fundos. Com seu último pacote, Cavallo quis preservar o sistema bancário, que corria o risco de quebrar depois de retiradas de mais de 1 bilhão de dólares em uma semana. Só faltou um detalhe: como não poderia deixar de ser, o pacote – o nono do desastrado governo de Fernando de la Rúa – veio de surpresa. E a Argentina parou. Apenas nos primeiros dias de vigência das medidas, houve queda de 60% nas vendas em lojas e shopping centers. Nas agências bancárias, formaram-se filas imensas de gente que queria tirar o pouco a que tinha direito ou abrir sua primeira conta, a ponto de obrigar os bancos a funcionar no sábado. Parecia feriado em Buenos Aires: ruas e lojas absolutamente vazias. As pesquisas indicam que 40% dos argentinos vão consumir ainda menos depois das novas medidas e que 65% da população não aprova esse pacote.

Muitos comerciantes têm de se apressar: 85% dos estabelecimentos comerciais não possuem sistema de cobrança por cartão de crédito. Vai ser um Natal de chorar para o comércio local. Com menos arrecadação, fica mais longe qualquer possibilidade de atingir o déficit zero que Cavallo prometeu ao FMI. E o país tem uma dívida externa que equivale a mais da metade do PIB. Com essas perspectivas sombrias de mais recessão e a anunciada queda de 11% da arrecadação em novembro, a Argentina espera que o FMI libere 1,3 bilhão de dólares que Cavallo vem pedindo. Com essa soma, o ministro pretende pagar os juros da dívida que chegam a quase 2 bilhões, até o final de janeiro. Agora, vai oferecer mais ajuste, mais cortes. Pode ser que o empréstimo saia ou não. Em caso positivo, a Argentina terá um respiro. Em caso negativo, a situação piorará e o país poderá chegar à moratória. "A Argentina tinha uma grande hemorragia e só havia a opção do torniquete para cortar a queda de depósitos. Só que há o risco de se aprofundar a recessão", afirma o economista Carlos Pérez, da Fundação Capital, de Buenos Aires.

 
AFP

Cabeleireiros jogam xadrez no salão deserto: em clima de feriado fora de hora, movimento no comércio caiu 60%

O próprio Cavallo voltou atrás em algumas medidas, permitindo que os argentinos possam efetuar de uma só vez saques de 1.000 dólares em contas que sirvam para depósito de salário. Mas a sensação que paira por toda parte, na Argentina e fora dela, é que as manobras do ministro milongueiro só vão adiar o desenlace final. Com mais de 70% das dívidas em dólares, de contratos de aluguel a contas dos serviços públicos, o povo morre de medo de uma desvalorização, ainda com a lembrança clara das épocas da hiperinflação, em 1989 e 1990. Tanto que, segundo pesquisa do Gallup-Argentina, 60% da população prefere o amargo pacote de limite de saques a uma desvalorização. A outra opção, a dolarização, não resolveria os problemas graves, de falta de competitividade e de déficit público alto. A Argentina é um país de nível de vida caríssimo, principalmente comparado ao do vizinho Brasil, de real desvalorizado. Como atrair investimentos dolarizando? O desemprego já atinge um em cada cinco trabalhadores argentinos.

Em público, as autoridades fazem juras solenes de que manterão o peso com o mesmo valor do dólar. Mas está cada vez mais claro que a conversibilidade – o regime do "1 por 1" – não tem muito tempo de vida. Sem dinheiro para repassar às províncias, o governo federal criou títulos da dívida chamados Lecops, usados para pagar o funcionalismo público e aceitos no comércio. Na Província de Buenos Aires, essas moedas de papel são chamadas de patacón. Trata-se, porém, de dinheiro sem lastro. Já há em circulação 2 bilhões de pesos nessas moedas de mentirinha. Muitos argentinos, temendo desvalorização do peso, guardam dólares debaixo do colchão. O limite ao saque determinado pelo governo evidencia o óbvio: não haveria dólares suficientes hoje se os argentinos quisessem trocar cada peso que têm pela moeda americana. É tanto descontrole que os jornais argentinos já especulam sobre os cenários pós-Fernando de la Rúa, ou seja, falam da renúncia do presidente com a maior naturalidade.

 
AP

Em frente a um dos ícones da modernidade pós-privatização, ambulante arma sua banca: o sonho acabou

A constatação a tirar de tudo isso é que o cruel laboratório econômico em que a Argentina se transformou não foi capaz de criar nenhuma fórmula mágica que livrasse o país da desvalorização. Tentou-se de tudo: diminuir salários de funcionários públicos, cortar aposentadorias, aumentar impostos. Não funcionou. A Argentina precisa de dinheiro, de crescimento econômico e de estabilidade política. As três coisas estão distantes da realidade platina. Um país sem comando torna-se um lugar de risco alto: a taxa de risco-país, que mede a confiança dos investidores estrangeiros, é a maior do mundo. A desmoralização está por toda parte. Até a apresentadora mais popular da TV local, Susana Giménez, uma ex-vedete que faz sorteios por telefone, deu para atacar Cavallo durante seu programa. Locutores esportivos também deixam o futebol de lado e desancam o ministro. A elegante e boêmia Buenos Aires está ferida. Cafés e restaurantes andam vazios ou com as portas fechadas, em lugares tão emblemáticos como a Recoleta ou o Puerto Madero.

A economia informal foi a grande vítima da nova "experiência": taxistas, faxineiras, cabeleireiros, encanadores ainda não sabem como vão fazer para atrair clientes sem pesos no bolso. Entre os empregados domésticos, 95% não são registrados. Na construção civil, a proporção dos sem-carteira chega a 65%. "Se forem registrados, é provável que tenham de arcar com os gastos dos empregadores e seus salários sejam encolhidos", diz o diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, Rosendo Fraga. Para esta semana, foi convocada uma greve geral com o objetivo de pressionar o governo a dar marcha à ré no novo pacote.

No meio de tanta tragédia alheia, a boa notícia é que, pelo menos nos últimos dias, o Brasil parecia descolar-se do efeito tango, sendo cada vez menos afetado pelas turbulências do vizinho desgovernado. Desde o pacote argentino, o risco-país do Brasil não disparou, nem o dólar. O bom desempenho da balança comercial brasileira, com sucessivos superávits, a constatação de que os efeitos negativos do racionamento foram menores que o previsto e um novo fluxo de investimentos estrangeiros demonstram que, lá fora, muitos investidores já se deram conta de que Buenos Aires não fica no Brasil. Espera-se que essa percepção não seja afetada no dia em que a Argentina fizer o movimento dramático que parece inevitável.

 
 
   
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