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A amante de Jango
O ex-presidente
manteve por seis anos,
no exílio, um romance extraconjugal
com uma estudante

Diogo Schelp
Alexandre Sassaki

Jango,
antes da deposição, cumprimentando o presidente americano John Kennedy:
amigos sabiam |
Não
é segredo que o ex-presidente João Goulart, morto há
25 anos, sempre se aplicou em fazer novas conquistas amorosas. Poucos
sabiam, porém, que um desses relacionamentos paralelos ao casamento
com Maria Thereza durou vários anos e só acabou com a morte
do presidente deposto, no exílio, em dezembro de 1976. Jango morava
havia seis anos no Uruguai quando conheceu a jovem futura amante. Ela
tinha cabulado aula e pedia carona na estrada, para ir de Maldonado, onde
estavam, a Punta del Este, a vinte minutos de viagem. Nesse curto percurso,
ele soube que aquela bonita colegial, um pouquinho acima do peso, tinha
17 anos, chamava-se Eva Deleón Gimenéz e era apaixonada
por cavalos. Logo ele a convidava para visitar suas fazendas naquele país.
Aos poucos foi seduzindo a estudante. O ex-presidente tinha 52 anos e
dois filhos com a ex-primeira-dama João Vicente e Denise.
A família vivia em Montevidéu e raramente o acompanhava
nas temporadas nas estâncias.
CPDOC/arq. família Vargas

CASOS
QUE FIZERAM HISTÓRIA
Jango entra numa lista que tem outros nomes. Juscelino Kubitschek
teve um romance de dezoito anos com Maria Lúcia Pedroso. A
"bem-amada" de Getúlio Vargas teria sido Aimée
Sotto Mayor Sá (a seu lado na foto) |
Soube-se de Eva e de seu relacionamento com Jango durante os trabalhos
de uma comissão da Câmara dos Deputados que investiga a hipótese
de que o ex-presidente tenha sido assassinado. Eva, hoje com 48 anos,
foi ouvida por um grupo de parlamentares em Montevidéu, em março
passado. Na ocasião, descreveu as semanas que antecederam a morte
de João Goulart e narrou com naturalidade o longo namoro que manteve
com ele. Ela disse aos deputados que por muito pouco não estava
na companhia do amante na noite em que ele morreu, numa fazenda da cidade
de Mercedes, na Argentina. Jango a tinha procurado dois dias antes de
mais uma viagem para a fazenda, mas acabou partindo com Maria Thereza,
que pediu para acompanhá-lo. Jango, que comprovadamente tinha problemas
de coração, morreu aos 58 anos, enquanto dormia, supostamente
de ataque cardíaco. O atestado de óbito, conhecido recentemente,
não registra a causa específica da morte.
A revelação
de casos extraconjugais de presidentes brasileiros já falecidos
acontece de tempo em tempo. Nos dois exemplos mais famosos, o de Getúlio
Vargas e o de Juscelino Kubitschek, foi pelos diários que deixaram
que se soube das amantes. Vargas manteve um romance de catorze meses com
uma mulher que ele chama nos diários de "a bem-amada". Tudo aponta
para Aimée Sotto Mayor Sá, que era casada com seu colaborador
de governo Luis Simões Lopes. Juscelino teve um relacionamento
de dezoito anos, até morrer, em 1976, aos 73 anos. Encontrava-se
secretamente registrando "audiências" no diário
com Maria Lúcia Pedroso, casada com o correligionário José
Pedroso. Uma diferença no caso de infidelidade de João Goulart
é que ele não se preocupava em esconder sua amante. Levava-a
a restaurantes em companhia de amigos e passava com ela longos períodos
nas fazendas. Quando queria vê-la, mandava um empregado buscá-la
em seu avião particular. "Encontrei-a algumas vezes nas fazendas",
conta João Vicente, filho de Jango, que é três anos
mais novo que Eva. Um amigo a apontou na rua para Maria Thereza uma vez,
em Punta del Este. A ex-primeira-dama sabia que ela era uma namorada do
marido.
A moça
se dava bem com os empregados de Jango, para os quais às vezes
comprava presentes em Montevidéu. Mas se entediava depois de uma
semana no campo. De classe média, nascida em Rosário, na
Argentina, e criada em Maldonado, gostava mais de passear na Europa, para
onde o amante a levou algumas vezes, que de "ficar contando ovelhinhas
na fazenda". Jango fazia exames periodicamente em Lyon, na França,
para tratar de problemas cardíacos. Nas viagens encontrava antigos
colaboradores de governo, como Darcy Ribeiro e Celso Furtado. "Eu achava
interessante, escutava e aprendia, mas depois me chateava", recorda Eva.
Ela preferia fazer compras nas lojas de Paris. Jango recorria freqüentemente
ao dinheiro para acalmar as mulheres. Também com a esposa, Maria
Thereza, usava esse recurso. Amigos do ex-presidente contam que foi porque
ele não lhe tinha dado um carro, como prometera, que Eva não
aceitara acompanhá-lo na viagem às vésperas da morte
dele. Ela afirma que não foi porque estava inaugurando uma loja
de roupas.
Quando o
ex-presidente morreu, Eva estava com 23 anos. Tinha abandonado os estudos
desde que o conhecera. "Os três anos seguintes foram de terror,
de um luto sofrido", ela conta, chorando. Passado esse período,
conheceu outro homem e se casou. Antes, visitou o túmulo do ex-amante
em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul. Eva vive hoje em
um apartamento no décimo andar da Avenida Doutor Horacio Abadie
Santos, a duas quadras do mar, quase no centro de Montevidéu. Mora
com o marido, um comerciante de materiais elétricos, de quem incorporou
o sobrenome Puig, e com as duas filhas gêmeas, de 19 anos. Tem fotos
de Jango espalhadas no interior do apartamento e guarda cartas românticas
que recebeu dele. Esse apartamento era do ex-presidente. Depois que ele
morreu, Eva se estabeleceu na residência e não saiu mais.
"Tentamos, sem sucesso, recuperar o imóvel na Justiça",
diz Maria Thereza.
Os amigos
do tempo de exílio dizem que Jango, em seus últimos anos
de vida, tinha preferência pela companhia de Eva, mas mantinha outros
namoros. "O Jango não usava essa coisa de amor, não", diz
Deoclécio Barros Motta, de 79 anos, que foi capataz do ex-presidente.
Jango apelidara Eva de "Gordinha". Hoje, ela tem excesso de peso e não
se deixa fotografar. Veste-se elegantemente e, na opinião de muitos,
ainda conserva no rosto os traços harmoniosos que encantaram João
Goulart.
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