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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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O bye-bye de Reichstul

Desgastado e cansado, o presidente
da Petrobras deixa a estatal com
cofres cheios e imagem ruim

Daniela Pinheiro

Bia Parreiras

Reichstul: cansou-se das pressões e agora vai dar um tempo para si mesmo

Até a terça-feira passada, os humores do presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, andavam à flor da pele. Há algum tempo, ele dava sinais de cansaço e irritação. Sua fadiga física estava no ápice desde sua nomeação, dois anos e oito meses atrás. Naquela noite, sem alarde, ele comunicou oficialmente sua saída da Petrobras. A demissão vinha sendo acertada quatro meses antes com o presidente Fernando Henrique Cardoso sob a alegação de "motivos pessoais". Reichstul queria voltar a morar em São Paulo, onde está sua família, e cuidar melhor de sua saúde. Há duas semanas, ele foi submetido a uma cirurgia para a retirada de nódulos da tireóide – o que o deixou abalado. A notícia da demissão foi recebida com surpresa na estatal. Especulou-se que o estopim teria sido um embate recém-terminado com o ministro das Minas e Energia, José Jorge, por causa da nomeação de um diretor, contrário às expectativas da cúpula do PFL. Reichstul fez o diretor, mas à custa de uma exposição pública das posições antagônicas entre ele e o ministro. Falou-se também que sua saída seria ainda o resultado de uma fritura em razão de sucessivos desastres ambientais e do afundamento da plataforma P-36, a maior tragédia da história da empresa. Ao que tudo indica, a demissão foi a soma de todos os fatores. Principalmente, a própria vontade de Reichstul. Desde então, ele ficou visivelmente aliviado. "Agora, só estou com aquela música da Marina na cabeça: 'Vem chegando o verão...'.", cantarolou para VEJA na quinta-feira passada.


Oscar Cabral

O sucessor, Francisco Gros: dpromessa de manter a Petrobras como "multinacional competitiva"


Reichstul, de 52 anos, deixa a maior empresa brasileira com um histórico de vitórias colossais e fracassos emblemáticos. Ele foi responsável pelo lucro recorde de 5 bilhões de dólares registrado no ano passado. Neste ano, o montante deve ultrapassar os 6 bilhões de dólares. São também de sua lavra as medidas que modernizaram e enxugaram o gigante empresarial que é a Petrobras. Numa análise sobre a gestão de Reichstul na semana passada, o Wall Street Journal, o diário econômico mais respeitado dos Estados Unidos, atribui a ele o mérito de ter transformado a Petrobras numa companhia competitiva em nível internacional. Muitos reformam empresas no Brasil, mas reestruturar uma companhia do porte, da importância e da tradição da Petrobras é outra coisa. Não é só o gigantismo. Há também a arraigada mentalidade conservadora da corporação da estatal.

Para azar de Reichstul, ocorreram durante sua gestão alguns dos maiores desastres ecológicos e operacionais de que se tem notícia no país. Nos últimos dois anos, a Petrobras viu-se envolvida em 95 acidentes, nos quais morreram dezoito pessoas. O naufrágio da plataforma P-36, que custou 450 milhões de dólares, foi presenciado pelo mundo com incredulidade. À época do incidente, Reichstul limitou-se a dizer que o ocorrido era "uma fatalidade". Ainda hoje, as causas da explosão de um tanque, que culminaram na tragédia, são obscuras. Uma auditoria da Procuradoria Especial da Marinha acusou a empresa de ter sido omissa no treinamento dos funcionários para emergências e privilegiar o lucro em detrimento da qualidade das operações.

Como se não bastasse, desde o ano passado os dutos da Petrobras foram responsáveis por quatro vazamentos gigantes, que despejaram 5,5 milhões de litros de óleo por lagoas, rios e baías. Um dos mais relevantes ocorreu em janeiro de 2000, quando 1,3 milhão de litros de óleo se espalhou pela Baía de Guanabara. O caso se tornou ainda mais bizarro porque a empresa só tomou conhecimento do acidente quatro horas depois do derramamento. Foi obrigada a pagar uma multa de 40 milhões de reais. Some-se a isso outro episódio de péssima repercussão: a tentativa de mudar o nome da estatal para Petrobrax – uma idéia desastrada inventada por seus assessores diretos e defendida com afinco por Reichstul. Durante toda a gestão, o presidente da Petrobras aparentava ter certa dificuldade em lidar com pressões políticas e práticas arraigadas no setor. No episódio da indústria de liminares de juízes de Goiás que favoreceram descaradamente pequenas distribuidoras, ele bateu de frente com a Justiça e a politicagem local. Fez publicar uma série de anúncios nos jornais, insinuando que as decisões judiciais foram pouco ortodoxas. Foi a primeira vez que uma grande empresa brasileira se insurgiu publicamente contra uma decisão judicial.

O substituto de Reichstul já foi escolhido e toma posse em janeiro. É o ex-presidente do Banco Central e atual presidente do BNDES, Francisco Gros, que foi sondado para o cargo há duas semanas. De acordo com o que já declarou, Gros pretende manter a mesma linha implantada por seu antecessor: fazer da empresa uma espécie de multinacional aberta e competitiva. Para seu lugar no BNDES vai um dos diretores do banco, o paulista Eleazar de Carvalho Filho. Ex-guerrilheiro durante a ditadura, rico, sócio do banco Inter American Express, ao lado do secretário de Finanças de São Paulo, João Sayad, Reichstul pretende continuar afastado da administração direta dos negócios por um bom tempo além da quarentena oficial. Uma de suas idéias é tirar um ano sabático em Oxford ou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Mas também considera fazer um curso de culinária na França. "Se bobear, faço meu Bye Bye Brasil. Pego uma Land Rover e saio sem rumo pelo interior do país", afirmou. A vida ficou mais leve para Reichstul.

 
 
   
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