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O bye-bye
de Reichstul
Desgastado
e cansado, o presidente
da Petrobras deixa a estatal com
cofres cheios e imagem ruim

Daniela Pinheiro
Bia Parreiras

Reichstul:
cansou-se das pressões e agora vai dar um tempo para si mesmo
|
Até
a terça-feira passada, os humores do presidente da Petrobras, Henri
Philippe Reichstul, andavam à flor da pele. Há algum tempo,
ele dava sinais de cansaço e irritação. Sua fadiga
física estava no ápice desde sua nomeação,
dois anos e oito meses atrás. Naquela noite, sem alarde, ele comunicou
oficialmente sua saída da Petrobras. A demissão vinha sendo
acertada quatro meses antes com o presidente Fernando Henrique Cardoso
sob a alegação de "motivos pessoais". Reichstul queria voltar
a morar em São Paulo, onde está sua família, e cuidar
melhor de sua saúde. Há duas semanas, ele foi submetido
a uma cirurgia para a retirada de nódulos da tireóide
o que o deixou abalado. A notícia da demissão foi recebida
com surpresa na estatal. Especulou-se que o estopim teria sido um embate
recém-terminado com o ministro das Minas e Energia, José
Jorge, por causa da nomeação de um diretor, contrário
às expectativas da cúpula do PFL. Reichstul fez o diretor,
mas à custa de uma exposição pública das posições
antagônicas entre ele e o ministro. Falou-se também que sua
saída seria ainda o resultado de uma fritura em razão de
sucessivos desastres ambientais e do afundamento da plataforma P-36, a
maior tragédia da história da empresa. Ao que tudo indica,
a demissão foi a soma de todos os fatores. Principalmente, a própria
vontade de Reichstul. Desde então, ele ficou visivelmente aliviado.
"Agora, só estou com aquela música da Marina na cabeça:
'Vem chegando o verão...'.", cantarolou
para VEJA na quinta-feira passada.
Oscar Cabral

O sucessor,
Francisco Gros: dpromessa de manter a Petrobras como "multinacional
competitiva" |
Reichstul, de 52 anos, deixa a maior empresa brasileira com um histórico
de vitórias colossais e fracassos emblemáticos. Ele foi
responsável pelo lucro recorde de 5 bilhões de dólares
registrado no ano passado. Neste ano, o montante deve ultrapassar os 6
bilhões de dólares. São também de sua lavra
as medidas que modernizaram e enxugaram o gigante empresarial que é
a Petrobras. Numa análise sobre a gestão de Reichstul na
semana passada, o Wall Street Journal, o diário econômico
mais respeitado dos Estados Unidos, atribui a ele o mérito de ter
transformado a Petrobras numa companhia competitiva em nível internacional.
Muitos reformam empresas no Brasil, mas reestruturar uma companhia do
porte, da importância e da tradição da Petrobras é
outra coisa. Não é só o gigantismo. Há também
a arraigada mentalidade conservadora da corporação da estatal.
Para azar
de Reichstul, ocorreram durante sua gestão alguns dos maiores desastres
ecológicos e operacionais de que se tem notícia no país.
Nos últimos dois anos, a Petrobras viu-se envolvida em 95 acidentes,
nos quais morreram dezoito pessoas. O naufrágio da plataforma P-36,
que custou 450 milhões de dólares, foi presenciado pelo
mundo com incredulidade. À época do incidente, Reichstul
limitou-se a dizer que o ocorrido era "uma fatalidade". Ainda hoje, as
causas da explosão de um tanque, que culminaram na tragédia,
são obscuras. Uma auditoria da Procuradoria Especial da Marinha
acusou a empresa de ter sido omissa no treinamento dos funcionários
para emergências e privilegiar o lucro em detrimento da qualidade
das operações.
Como se
não bastasse, desde o ano passado os dutos da Petrobras foram responsáveis
por quatro vazamentos gigantes, que despejaram 5,5 milhões de litros
de óleo por lagoas, rios e baías. Um dos mais relevantes
ocorreu em janeiro de 2000, quando 1,3 milhão de litros de óleo
se espalhou pela Baía de Guanabara. O caso se tornou ainda mais
bizarro porque a empresa só tomou conhecimento do acidente quatro
horas depois do derramamento. Foi obrigada a pagar uma multa de 40 milhões
de reais. Some-se a isso outro episódio de péssima repercussão:
a tentativa de mudar o nome da estatal para Petrobrax uma idéia
desastrada inventada por seus assessores diretos e defendida com afinco
por Reichstul. Durante toda a gestão, o presidente da Petrobras
aparentava ter certa dificuldade em lidar com pressões políticas
e práticas arraigadas no setor. No episódio da indústria
de liminares de juízes de Goiás que favoreceram descaradamente
pequenas distribuidoras, ele bateu de frente com a Justiça e a
politicagem local. Fez publicar uma série de anúncios nos
jornais, insinuando que as decisões judiciais foram pouco ortodoxas.
Foi a primeira vez que uma grande empresa brasileira se insurgiu publicamente
contra uma decisão judicial.
O substituto
de Reichstul já foi escolhido e toma posse em janeiro. É
o ex-presidente do Banco Central e atual presidente do BNDES, Francisco
Gros, que foi sondado para o cargo há duas semanas. De acordo com
o que já declarou, Gros pretende manter a mesma linha implantada
por seu antecessor: fazer da empresa uma espécie de multinacional
aberta e competitiva. Para seu lugar no BNDES vai um dos diretores do
banco, o paulista Eleazar de Carvalho Filho. Ex-guerrilheiro durante a
ditadura, rico, sócio do banco Inter American Express, ao lado
do secretário de Finanças de São Paulo, João
Sayad, Reichstul pretende continuar afastado da administração
direta dos negócios por um bom tempo além da quarentena
oficial. Uma de suas idéias é tirar um ano sabático
em Oxford ou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Mas também
considera fazer um curso de culinária na França. "Se bobear,
faço meu Bye Bye Brasil. Pego uma Land Rover e saio sem
rumo pelo interior do país", afirmou. A vida ficou mais leve para
Reichstul.
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