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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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Que Lula é esse?

Em mais uma visita a Cuba, o líder
petista se desmancha em elogios
ao ditador Fidel Castro

Mario Sabino

 
AP

Fidel e Lula, em Havana: "Obrigado, Fidel Castro. Sua alma continua limpa porque você não traiu os interesses do seu povo"

Observe bem a foto acima. À esquerda, está Fidel Castro. Há 42 anos, ele é ditador de Cuba, um país de 11 milhões de habitantes engessado pelo comunismo e sem nenhuma importância no cenário internacional. A seu lado, com ar de quem pede conselho, está o nosso Luís Inácio Lula da Silva. Ex-líder sindicalista que enfrentou o regime militar, fundador e presidente de honra do PT, um dos mais importantes partidos brasileiros, Lula é até o momento o favorito para ganhar a eleição de 2002 e se tornar presidente de uma nação democrática de 170 milhões de habitantes e a nona economia do mundo. O petista esteve em Havana, na semana passada, para participar de um encontro que reuniu organizações e partidos de esquerda da América Latina, alguns dos quais terroristas, como as Farc e o ELN colombianos e o Tupac Amaru peruano. Foi a nona visita de Lula à ilha de Fidel Castro. Será que ele precisava marcar presença nesse evento?

Antes que alguém diga que esta página é uma aleivosia da "imprensa burguesa", façamos um paralelo didático. O que pensar se Roseana Sarney, nome forte do PFL para a próxima corrida presidencial, deixasse de lado seus afazeres de governadora do Maranhão, para tomar parte em um encontro de agremiações de direita, entre elas grupos neonazistas e forças paramilitares, organizado por uma ditadura sanguinária? Certamente seria possível desconfiar do espírito democrático da governadora. Ainda mais se Roseana se rasgasse em elogios ao tirano anfitrião de direita. Com os sinais ideológicos invertidos, foi o que Lula fez em Havana. Em tom emocionado, ele encerrou seu discurso com um louvor ao déspota Fidel Castro: "Tenho absoluta noção das críticas que Cuba e o governo cubano recebem todos os dias de grande parte da imprensa no Brasil e no mundo. Mas vou lhes dizer: obrigado, Fidel Castro. Obrigado por vocês existirem. Vocês dão demonstração todos os dias de que é melhor fazer menos do que poderíamos fazer, de cabeça erguida, do que ceder e perder a auto-estima – é melhor fazer pouco, mas com dignidade. A velhice é implacável: debilita o nosso corpo e enruga a nossa pele – mas a traição aos ideais é pior, porque enruga a própria alma. Embora o seu rosto esteja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você não traiu os interesses do seu povo".

Lula costuma se referir ao regime de Fidel Castro como "modelo cubano". Já disse, inclusive, que ele não pode ser reproduzido no Brasil. Mas é curioso que o petista não chame a ditadura que ajudou a derrubar no Brasil de "modelo militar". Se a democracia, para Lula, é um valor universal e significa a garantia de eleições livres e diretas, de livre-iniciativa econômica, de liberdade de associação e de expressão, é recomendável que pare de usar eufemismos quando o assunto é totalitarismo caribenho. Afinal de contas, a escolha das palavras mostra (ou esconde) concepções de mundo. Os eleitores brasileiros precisam saber que Lula é esse que faz a louvação de Fidel Castro – um homem que levou Cuba a ter bons indicadores sociais, sim, mas à custa de métodos semelhantes aos de Josef Stalin.

 
 
   
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