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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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A CBF perde votação
de goleada

Devassa no futebol termina incriminando
dezessete cartolas – e agora só falta
pegar o homem da mala

Alexandre Oltramari

 
Eduardo Monteiro

Teixeira, presidente da CBF: se for condenado, mais de nove anos de cadeia

Quem será João Guilherme dos Santos Almeida?

Na semana passada, o Senado aprovou o relatório final da CPI do Futebol, responsável pela maior devassa já feita no esporte em todos os tempos. O documento, que revela o arsenal de fraudes dos principais cartolas brasileiros, incrimina dezessete pessoas e foi aprovado com uma goleada – 12 a 0 –, um placar raríssimo em CPIs. Entre os indiciados há empresários como Reinaldo Pitta, que fez fortuna comprando jogadores e depois os vendendo a clubes estrangeiros. Há dirigentes de times, como o deputado federal Eurico Miranda, do Vasco, e Edmundo Santos Silva, do Flamengo. Há também presidentes de federações estaduais, como Eduardo José Farah, de São Paulo, Elmer Guilherme, de Minas Gerais, e Eduardo Viana, do Rio de Janeiro. O campeão de acusações, contudo, é o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. É acusado de crimes como lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, apropriação indébita e evasão de divisas.

Mas quem será João Guilherme dos Santos Almeida?

Como a documentação à disposição dos senadores era farta, nenhum dos integrantes da CPI ficou contra o indiciamento da cartolagem. Apenas o senador Gilvam Borges, do PMDB do Amapá, amigão de Ricardo Teixeira, criticou o relatório. Ainda assim, acabou votando a favor. "A verdade é demolidora. Não há resistência capaz de suportar provas documentais incontestáveis", afirmou o senador Álvaro Dias, do PDT do Paraná, que presidiu a CPI. "Nem os aliados de Ricardo Teixeira tiveram coragem de defendê-lo", comemorou o senador Geraldo Althoff, do PFL de Santa Catarina, que relatou o caso. Nesta semana, a papelada será encaminhada ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que deverá processar criminalmente os acusados. Era o que Ricardo Teixeira mais temia. Se for considerado culpado de todos os crimes dos quais é acusado, o cartola será condenado a, no mínimo, nove anos e seis meses de cadeia. Pior: já condenado a seis anos de prisão por sonegação, sentença da qual está recorrendo, Teixeira perde o benefício da liberdade concedido aos réus primários. Se sair sentença incriminando-o, vai mesmo para o xilindró.

Mas, afinal, quem é João Guilherme dos Santos Almeida?

João Guilherme dos Santos Almeida é um nome que não apareceu no relatório final da CPI, mas é o suspeito de tentar sabotá-la. Até a semana passada, a Polícia Federal procurava o elemento, mas já tinha duas certezas a seu respeito. A primeira: João Guilherme é o nome com o qual se apresentou em Santa Catarina, há duas semanas, o homem que tentou subornar o relator da CPI do Futebol, senador Geraldo Althoff, para livrar a cara de Ricardo Teixeira no relatório. No dia 25 passado, Althoff estava em sua casa, na cidade de Tubarão, interior de Santa Catarina, preparando o relatório final da CPI, quando foi procurado por um suposto enviado da CBF. O senador não o recebeu. Preferiu despachar um assessor, que, mais tarde, relatou ter ouvido uma proposta de suborno para que Althoff suavizasse a situação de Ricardo Teixeira. Em troca, receberia dinheiro para financiar sua campanha em 2002. Althoff chamou a polícia, que investiga o caso há duas semanas. A tentativa de suborno já foi confirmada pelo assessor de Althoff em depoimento à PF em Santa Catarina. A dúvida era saber se o autor da tentativa de suborno falava, de fato, em nome da CBF. Eis que aí surge a segunda certeza da polícia.

Depois de se encontrar com o assessor de Althoff, de quem ouviu um sonoro não como resposta à proposta de suborno, João Guilherme se recolheu a seu quarto no hotel San Silvestre, em Tubarão. Dali, telefonou para um número no Rio de Janeiro, que pertence a Carlos Eugênio Lopes. A ligação durou um minuto e 56 segundos. Foi o único telefonema realizado por João Guilherme durante sua estada em Santa Catarina. E quem é Carlos Eugênio Lopes? Ninguém menos que o diretor do departamento jurídico da CBF. O delegado da PF encarregado do caso, Roberto Schweitzer, não comenta o assunto, mas já tem em mãos o primeiro indício de que o misterioso João Guilherme pode ter sido mesmo enviado a Santa Catarina pela cartolagem da CBF. Quando se trata da atual administração da CBF, é difícil dizer onde está o fundo do poço, mesmo depois de uma CPI. Ao que tudo indica, está mais longe do que se imagina.

 

 
 
   
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