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Assassinado
no Brasil
Ladrões
matam a tiros, na
Amazônia, Peter Blake, o maior
navegador da atualidade

Leonardo
Coutinho
AFP

Peter
Blake: fim da viagem |
Peter Blake era um herói para os neozelandeses, que comparam seus
feitos nas águas à proeza realizada em 1953 por seu conterrâneo
Edmund Hillary, o primeiro homem a escalar o Monte Everest. O herói
foi morto a tiros em Macapá, a capital do Amapá, na quarta-feira
passada, por um grupo de assaltantes que invadiu um dos veleiros mais
sofisticados do mundo para roubar um bote inflável, um motor de
popa e um punhado de relógios. O médico-legista que examinou
o corpo informa que o mais famoso navegador da atualidade, o grande campeão
do iatismo mundial e um ídolo que chegou a ser condecorado pela
rainha da Inglaterra tomou dois tiros pelas costas. Armado com um rifle
de calibre 38, ele reagiu ao assalto e tentava esconder-se do revide dos
bandidos ao ser acertado. Blake apareceu no convés logo que os
piratas subiram ao barco e estavam tentando render outros tripulantes.
Havia uma pequena comemoração no grupo, pelo fim de uma
etapa da viagem. Um dos tiros ficou alojado na musculatura do tronco de
Blake. Outro atravessou o corpo, rompendo uma artéria e produzindo
a morte por hemorragia em menos de três minutos. Os assaltantes
foram presos na sexta-feira. Integravam uma das quadrilhas que agem na
orla do Amapá assaltando embarcações. Esses ratos-d'água,
como são conhecidos, fizeram 43 vítimas em torno na área
de Macapá apenas no mês de novembro.
Blake e
o grupo de pesquisadores que viajava no veleiro Seamaster tinham
ancorado à tarde numa das enseadas mais bonitas da região,
atraídos pela mansidão e limpeza das águas e pela
brancura da areia. Estavam a 200 metros da Praia da Fazendinha, a 17 quilômetros
de Macapá, um ponto que atrai muitos turistas -- e ratos-d'água.
No dia seguinte, zarpariam para a Venezuela. Vinham do interior da Amazônia,
encerrando mais um estágio da expedição que o navegador
iniciou no ano passado com a intenção de explorar os principais
ecossistemas do planeta. Na primeira etapa a bordo do superveleiro construído
especialmente para essa aventura, o herói neozelandês explorou
a Antártica. Ao passar pela Amazônia, chegou a receber a
visita a bordo da primeira-ministra de seu país, Helen Clark, em
Manaus. Ela passou vinte horas no Seamaster e definiu esse encontro
como o ponto alto de sua viagem à América do Sul. "É
terrível saber que mataram uma pessoa como Blake por coisas tão
irrisórias", disse a primeira-ministra ao saber do crime. Em Macapá,
iniciou-se logo depois do homicídio o jogo de empurra entre autoridades
para livrar-se da responsabilidade por permitir que o barco parasse num
lugar tão perigoso. A Polícia Civil informava que o navegador
chegou à cidade sem avisar. A Polícia Federal, cujo posto
foi visitado por tripulantes do veleiro para desembaraço de documentos,
garantia que eles foram genericamente alertados sobre o risco de assalto.
Paulo Matos, um brasileiro que estava a bordo, comunica que, na verdade,
foi seguida a indicação de um oficial da Marinha, que os
orientou a não ficar no porto, por ser uma área visada por
ladrões.
Três
homens abordaram o Seamaster enquanto um ficou aguardando ao volante
de uma pequena embarcação. Eles tinham planejado o roubo
depois de ver o barco ancorado na enseada. Todo de alumínio, o
veleiro tem 36 metros de comprimento. Pode navegar em áreas muito
rasas e também em mares agitados. Dotado dos mais modernos sistemas
de navegação e filmagem subaquática, o barco serviu
de inspiração para o novo modelo construído pelo
navegador brasileiro Amyr Klink. Os bandidos, que tinham notado a passagem
de parte da tripulação em terra durante o dia, chegaram
gritando "money" apenas. No tiroteio, feriram outros dois pesquisadores
neozelandeses. Um dos assaltantes teve a falange de um dos dedos arrancada
por um disparo feito por Blake. A Polícia Federal diz que mais
três homens deram apoio logístico à ação
dos piratas. Blake, segundo amigos, já tinha enfrentado outros
assaltos no mar e, supostamente, sabia como reagir em situações
como essa.
Todo o mundo
da vela atribui a Blake a profissionalização desse esporte.
Em 1990, ele venceu a regata Whitbread de modo pouco usual no iatismo
que se praticava até então. Os outros grupos eram compostos
de amigos que se juntavam para fazer da volta ao mundo um grande passeio.
O capitão tinha uma equipe profissional, com contratos de longo
prazo. Planejava cada parte dos deslocamentos, queria recordes, tinha
patrocinador que cobrava resultados. "Blake colocava todo mundo na linha
sem tirar das pessoas o entusiasmo nem o prazer de velejar", recorda o
iatista brasileiro Cacau Peters, que integrou uma equipe instruída
pelo herói neozelandês. Entre outros feitos, Blake venceu
em 1995 a America's Cup, a copa do mundo do iatismo. Foi a segunda vez
que a prova não acabou vencida por americanos, em 145 anos de história.
Em 2000, liderou a equipe da Nova Zelândia nessa mesma competição
e venceu de novo. Quando decidiu abandonar as provas em nome do projeto
ecológico, apoiado pela Organização das Nações
Unidas, começou a realização de um sonho. "Agora,
sim, estou na regata que importa", disse recentemente. "É uma corrida
para ajudar o planeta." Blake tinha apenas 53 anos.
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Os
feitos de Blake
Navegou o suficiente para dar 28 voltas em torno da Terra
Venceu duas America's Cup, a copa do mundo do iatismo
Recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico
Bateu o recorde da regata Whitbread, de volta ao mundo com escalas
Bateu o recorde do Troféu Júlio Verne, de volta ao
mundo sem escalas
Realizava havia um ano o projeto de navegar pelos principais
ecossistemas do planeta
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