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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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A roda reinventada

Projeto de 100 milhões de dólares cria
patinete que pretende substituir o carro



AP

Criador e criatura


Nem um carro voador, nem um aparelho de teletransporte, nem, menos ainda, um automóvel movido a hidrogênio, como se especulava na internet. O projeto supersecreto anunciado com espalhafato no início do ano como capaz de "mudar a civilização" é um patinete. Bem, não um patinete qualquer. Uma espécie de scooter elétrico para um só passageiro, a máquina é recheada de impressionante parafernália eletrônica. A idéia é que se torne sucesso de vendas quando chegar às lojas, no próximo ano, substituindo os carros em pequenos percursos urbanos. Boa parte da expectativa em torno do projeto de 100 milhões de dólares, que ganhou nome-código de Ginger e agora foi rebatizado comercialmente de Segway, deve-se ao homem por detrás da idéia: Dean Kamen, um dos mais badalados inventores dos Estados Unidos. Ele ficou milionário com o desenvolvimento da bomba automática de insulina, o aparelho de diálise portátil e uma cadeira de rodas motorizada capaz de subir escadas. O presidente Bill Clinton entregou-lhe pessoalmente o Prêmio Nacional de Tecnologia.

Nada do que ele fez se compara em ousadia com o projeto Segway. Com esse veículo, que pesa 35 quilos e anda à velocidade máxima de 20 quilômetros por hora, três vezes o ritmo de uma caminhada normal, Kamen espera mudar até mesmo o modo com que o trânsito é organizado nas grandes cidades. "O Segway significa a mesma evolução que o automóvel representou em relação às carroças", diz Kamen. A concepção do patinete é realmente engenhosa. Sem acelerador nem freio, funciona como se percebesse a intenção do condutor em seguir em frente, parar ou mesmo dar marcha à ré. Não é magia, mas a aplicação prática de um princípio já estudado: o corpo humano emite pequenos sinais automáticos de suas intenções de movimento. O sinal de seguir adiante é um leve deslocamento para a frente. Um movimento no sentido contrário indica a necessidade de frear. Sensores instalados na plataforma do patinete captam essas nuances 100 vezes por segundo e transferem os dados para dez microprocessadores, que os traduzem em aceleração ou redução da marcha. A resposta do equipamento é proporcional à intensidade com que os movimentos são realizados. Um gesto brusco resulta numa freada igualmente abrupta. Um repórter da revista Time, que experimentou o veículo, garante que o sistema funciona.

A maquineta tem dois motores elétricos, que acionam independentemente cada roda. Giroscópios ajudam a manter o equilíbrio, evitando quedas. Econômico, pode ser reabastecido em qualquer tomada e gasta menos de 10 centavos de dólar por dia em energia elétrica. Em janeiro, quando uma campanha milionária de marketing revelou que Kamen trabalhava em um novo sistema de transporte, o presidente da Apple, Steve Jobs, previu uma revolução equivalente à da criação do computador pessoal. Jeff Bezos, presidente da Amazon e um dos criadores do comércio eletrônico, declarou que o aparelho ia produzir mudanças de comportamento comparáveis às decorrentes do surgimento da internet. A editora da Universidade Harvard pagou adiantado 250.000 dólares pelo direito de publicar um livro sobre o desenvolvimento do projeto. O uso do veículo está sendo testado pelos Correios e pelo Departamento de Parques Nacionais dos Estados Unidos e por algumas megaempresas, como a General Electric. Kamen e seus sócios esperam vender 40 000 veículos no primeiro ano, a 3 000 dólares por peça. A questão é: o Segway será algum dia algo além de um brinquedo maravilhoso?

 
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