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Loucos por lipo

A aspiração de gorduras é a campeã
das cirurgias plásticas e ganha
fregueses reincidentes

Daniela Pinheiro


Pedro Martinelli

ALESSANDRA ISCATTENA, 26 anos
Cinco lipos em quatro anos: cintura, culotes, joelhos, braços, nádegas


Na última das seis cirurgias plásticas a que já se submeteu, a paulista Ana Paula Martins, 35 anos, passou todo o tempo acordada. Deitada de bruços em uma maca, como se nada houvesse, ela bateu papo sobre férias de verão, a tragédia do World Trade Center e a vontade de trocar de carro, enquanto sua médica lhe sugava 300 mililitros de gordura das nádegas. Uma hora depois, Ana Paula se levantou, fez o cheque, agendou a próxima lipo (na barriga) para fevereiro e foi comer uma salada com uma amiga no restaurante Livorno, em São Paulo. "Só começou a doer no final da tarde, quando passou o efeito da anestesia. Mas, no outro dia, eu já estava ótima", conta. "Até andei quarenta minutos na esteira." Parece um daqueles anúncios de produtos milagrosos, mas é a pura realidade: cada vez mais, as mulheres aproveitam uma brechinha na agenda – o horário de almoço, o intervalo entre levar e buscar as crianças no colégio – para fazer, como dizem carinhosamente, uma "lipinha".



Fotos Claudio Rossi

ANA PAULA MARTINS, 35 anos
Quatro lipos em quatro anos: abdome, culotes, nádegas, costas
Fotos Claudio Rossi

MARINA PITANGUY ,
50 anos

Três lipos em dez anos: abdome, costas, coxas

A lipoaspiração é a cirurgia plástica mais executada no país, seguida da de mamas, até dois anos atrás a campeã. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica calcula que o procedimento corresponda a 40% das estimadas 400.000 plásticas feitas no país em 2001. Nos Estados Unidos, onde a lipo também encabeça o ranking, a revista Harper's Bazaar fez uma pesquisa entre suas leitoras na qual concluiu que o programa mais interessante entre amigas atualmente é sair para almoçar e trocar experiências sobre cirurgias plásticas. "Emprestar bolsas de gelo (para reduzir dor e inchaço) ou cintas (obrigatórias pós-cirurgia) é a mais nova forma de estabelecer uma amizade feminina", diz a publicação. Lá, como aqui, um dos motivos para a disparada no número de lipoaspirações é a veloz transição da "lipona" geral dos primeiros tempos – uma grande cirurgia para remover gorduras de várias partes do corpo – para as diversas "lipinhas" de agora, seja porque a paciente já fez a grande e só precisa de retoques, seja por falta de tempo para ficar internada, seja por economia, mesmo.

"Acabou esse negócio de que lipo é um terror. Quando fiz para reduzir as coxas, saí e fui direto para o trabalho", gaba-se a paulista Marina Pitanguy, 50 anos, prima do cirurgião Ivo e plenamente integrada no enxuga-estica que o sobrenome evoca: além da lipo nas coxas, abdome e costas (e outra marcada em 2002 no chamado miniabdome, a barriguinha embaixo do umbigo), já passou por três cirurgias na mama e um lifting facial. Em geral, as minilipos são feitas com anestesia local, em uma região por vez, rapidamente e sem rombos muito grandes na conta bancária: em áreas pequenas, como dobras nas costas (1.500 reais), queixo duplo (2.000 reais) ou almofadinhas sob as axilas (1.500 reais), duram menos de uma hora. "Se feitos em clínicas seguras, são pequenos e rápidos procedimentos que apresentam grandes resultados", diz o cirurgião paulista Ithamar Stocchero. Contribui muito para a explosão das "lipinhas" justamente o fato de terem ficado mais baratas. Uma lipo na barriga, entre as mais caras, custa em média 4.000 reais (contra até 10.000 de uma plástica no nariz feita por cirurgião renomado), sem necessidade de internação em hospital. Além disso, o pagamento pode ser facilitado: há clínicas que oferecem planos de até 48 prestações.

Arma invasora – O procedimento segue basicamente as mesmas regras desde que começou a ser posto em prática, há cerca de vinte anos. Primeiro, aplica-se a anestesia. Em seguida, injeta-se um líquido salino composto de soro e adrenalina para evitar sangramento. Depois, faz-se um corte com o bisturi de cerca de 1 centímetro para a introdução da cânula – objeto de ponta arredondada com três a seis furos ao longo de sua estrutura. A remoção da gordura é feita conectando-se a cânula a um entre cinco tipos de equipamento: uma seringa (o mais simples, em que o médico tem total controle do procedimento, mas precisa fazer uma força danada), um lipoaspirador (que suga, como um aspirador caseiro), um aparelho de ultra-som (que vai dissolvendo a gordura através da emissão de ondas curtas), um vibroaspirador (que injeta ar comprimido e faz a cânula vibrar, indicado para cirurgias maiores) ou, por fim, um aparelho de laserlipólise (movido a laser, que coagula a gordura antes de ela ser aspirada, provocando menos sangramento). Comparada aos primeiros tempos, a lipoaspiração é atualmente muito mais precisa e segura (veja quadro). Há duas décadas, as cânulas tinham no mínimo 12 milímetros de diâmetro. Hoje, têm 2 milímetros e são revestidas de teflon, o que diminui o atrito entre o aço e a gordura. A última novidade, ainda em testes, é o ultra-som superficial, que dispensa a cânula: passa-se o aparelho na pele da área-alvo, a gordura se dissolve e, depois, faz-se um buraquinho, por onde ela escorre. "Mas com esse método é muito difícil controlar a quantidade da gordura a ser retirada", ressalva o cirurgião carioca Paulo Müller.

 
Leo Feltran

CONRADO, 31 anos
Duas lipos em um ano: abdome e papada
ANDRÉA SORVETÃO,
27 anos

Três lipos em um ano: abdome, coxas, costas
Antonio Milena

CLAUDIO VAZ, 39 anos
Duas lipos em um ano: barriga e papada

Por maiores que sejam os avanços, a lipoaspiração é uma cirurgia e, como tal, requer cuidados antes, durante e depois. Uma barbeiragem pode fazer com que a cânula fure o intestino, com grave risco de vida. Uma anestesia mal calculada pode resultar em choque anafilático. Ainda há o fantasma da anemia aguda, pois, quando a cânula suga a gordura, junto vem uma quantidade expressiva de sangue. "O corpo é invadido por uma arma que lhe arranca sangue, gordura, destrói vasos e lesa todo o tecido", descreve o cirurgião plástico paulista João Carlos Sampaio Góes. "Isso não é brincadeira." Depois de uma lipo, o organismo fica fragilizado e requer repouso absoluto. No entanto, quanto menor e mais rápida a lipoaspiração, mais ela é encarada como um simples tratamento estético. Há quatro meses, a carioca Luciene Tonani, 29 anos, tirou 3,5 litros de gordura do abdome, culote e costas. Saiu da clínica e rodou quase uma hora por um shopping center, atrás de uma cinta. "Eu estava me sentindo muito bem", justifica. "Depois fui para casa e fiquei de repouso."

Para magros – Um ponto de atrito entre médicos mais conceituados e clínicas de lipoaspiração em série é o limite de gordura a ser retirada. Ditam as normas modernas que o máximo é 5% do peso do paciente, com restrições – qualquer coisa acima de 3 litros, alertam os médicos, já interfere no funcionamento do organismo. Na hora H, pouca gente se importa. O personal stylist do presidente Fernando Henrique Cardoso, o paulista Claudio Vaz, 39 anos, debutou no bisturi em série no ano passado, quando tirou 9 litros de gordura da barriga – quase 5 a mais do que deveria, pois pesava na época 88 quilos. E tomou gosto: há três meses, limou a papada. "O que precisar fazer de novo, vou fazer", afirma. "Uma lipo de mais de 3 litros faz com que a taxa de hemoglobina do sangue baixe muito. É preciso fazer uma reposição total de vitaminas, uma dieta rica em fósforo e potássio, logo após a cirurgia", alerta o cirurgião mineiro Frederico Sabino de Freitas. Nos Estados Unidos, o país das estatísticas, contam-se cerca de dezenove mortes para cada 100.000 lipos feitas a cada ano, o que torna o risco de perder a vida numa lipoaspiração maior que em um acidente de trânsito.

 
Fotos Claudio Rossi

DANIELLE PATRUS,
17 anos

Três lipos em três anos: abdome, costas, culote
Claudio Rossi

LUCIANO, 28 anos
Duas lipos em dois anos: abdome

Outro mito criado pela proliferação da lipo é que a cirurgia é indicada a qualquer pessoa. Não é. Os primeiros riscados da lista de candidatos são, para profundo desgosto deles, os que estão muito acima do peso. A modelo Alessandra Iscattena, ex-assistente de palco de Gugu e ex-moradora da Casa dos Artistas, do SBT, é um exemplo da lipo aplicada a quem dela pode desfrutar melhor, embora com certo exagero. Aos 26 anos, ela já fez lipo na cintura, no culote, nos joelhos, nos braços, nas nádegas – e ainda colocou uma prótese de 180 mililitros nos seios. Nunca foi gorda, mas nem tentou controlar a alimentação para perder as gordurinhas que a incomodavam. "Eu não tenho paciência para emagrecer", conta. "Vou direto na lipo." Não é absolutamente o método recomendado aos obesos. "É impossível transformar um gordo em magro com a lipo, porque jamais se conseguirá remover sem risco a quantidade de gordura necessária", diz o cirurgião carioca José Horácio Aboudib. "Lipo é para magros que não são capazes de perder a gordura localizada nem com ginástica nem com dieta." Pacientes com mais de 55 anos também são desencorajados (veja quadro abaixo), porque nessa idade a pele não tem mais o tônus necessário para se firmar na área aspirada. "Em geral, fica aquela pele solta, a chamada pelanca", explica Aboudib.


Clube restrito

Embora todo mundo faça ou pense em fazer, a lipoaspiração só é indicada para o restrito grupo dos que

têm menos de 55 anos
têm bom tônus de pele
são magros com gordura localizada
praticam exercício físico

Mãe de todos – O templo nacional da lipo é a Clínica Santé, de São Paulo, a predileta dos famosos. Há duas semanas, a Santé reuniu seus clientes mais importantes em uma festança emblemática. Dos 250 convidados, pelo menos 200 já tinham passado por alguma intervenção plástica e a maioria se emocionava ao abraçar a proprietária, Ana Helena Patrus. "Ela é minha segunda mãe", dizia o ator André Marques, o ex-Mocotó de Malhação (duas lipos, a terceira marcada). "Ela é minha mãezona", ecoava o cantor sertanejo Luciano (duas lipos, uma plástica de nariz). "É uma das pessoas mais maravilhosas que já conhecemos", repetiam a ex-paquita Andréa Sorvetão (três lipos, fora a prótese na mama) e seu marido, o cantor Conrado (duas lipos). Num cantinho, discretamente, a filha de verdade, Danielle Patrus, atriz estreante na novela Pícara Sonhadora, do SBT, sorria, orgulhosa da mãe e suas proezas. Danielle, aos 17 anos, sabe bem com quantas lipos se faz um corpinho enxuto: aos 14 anos, fez sua primeira. Depois disso, mais três. E já está pensando na próxima.

 

Assim caminha a lipoaspiração

Nos últimos vinte anos, técnicas mais aprimoradas fizeram da lipo uma cirurgia menos dolorida, menos traumática e mais precisa. Confira o que mudou:

Cânulas
antes: mediam cerca de 12 milímetros
agora: o menor diâmetro é 2 milímetros

Anestesia
antes: só geral
agora: pode ser local

Duração da cirurgia
antes: até cinco horas (lipo de culote)
agora: em média, uma hora

Gordura aspirada
antes: sem limite
agora: 5% do peso do paciente

Recuperação
antes: até uma semana de repouso absoluto
agora: em média, dois dias

 

   
 
   
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