Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
Geral Fotografia
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Brasil
Geral
 

Com medo de viajar, os ricos gastam aqui mesmo
Hotéis ecológicos nos melhores refúgios naturais do país
A depressão é comum, mas ainda causa preconceito
Hebiatra, o médico do adolescente
Imagens inéditas de quatro dos maiores artistas do país
Lipoaspiração é a campeã das cirurgias plásticas
Americano reinventa patinete para substituir o carro
Velejador neozelandês é assassinado no Amapá

Economia e Negócios
Especial
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
VEJA on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Novas visões do
Brasil do século XIX

Coleção revela 500 imagens
inéditas de quatro dos maiores
fotógrafos do país

Lucila Soares

Fotos Revert Henrique Klumb

Dom Pedro II e dona Tereza Cristina na inauguração da Estrada União Indústria: flagrante de Revert Klumb


Veja também
Galeria Visões do Brasil no século XIX

Na virada para o século XX, quando alguém encontrava uma caixa de negativos fotográficos, raspava a imagem e vendia a placa de vidro a qualquer vidraceiro. Assim foram destruídas todas as matrizes das imagens produzidas no Brasil imperial e nos primeiros anos da República – exceção feita à obra de Marc Ferrez, preservada por sua família. Restaram cópias em papel, nem sempre de boa qualidade, guardadas em condições normalmente precárias. A produção era tão monumental, no entanto, que muita coisa se salvou. Nos últimos anos, houve uma febre de descobertas e publicações que tornaram conhecida boa parte do trabalho dos fotógrafos do século XIX. O filão, embora riquíssimo, parecia dar sinais de esgotamento. Ledo engano. Em uma semana estará nas livrarias a coleção Visões do Brasil (Editora Capivara, quatro volumes de 250 páginas, 90 reais cada um). São mais de 700 imagens – das quais cerca de 500 inéditas. É um registro precioso do país na segunda metade do século XIX, que começa em pleno império, com Revert Klumb (Rio de Janeiro e Petrópolis), August Stahl (Pernambuco e Rio) e Militão Augusto de Azevedo (São Paulo), e termina com Juan Gutiérrez (Rio e São Paulo), nos anos 1890.

Coordenada pelo colecionador e editor Pedro Corrêa do Lago, a série é a maior empreitada do gênero já levada a cabo no Brasil. É uma façanha mostrar fotos inéditas de Stahl, Gutiérrez e Klumb, fotógrafos já bastante divulgados e de importância comparável à de Marc Ferrez ou George Leuzinger. O trabalho mais original, entretanto, foi realizado sobre a obra de Militão de Azevedo, o menos célebre do quarteto. Militão ficou conhecido como o autor da primeira grande reportagem fotográfica sobre a capital paulista. Registrou, em 1862, ruas, monumentos e prédios, com planos de fazer um álbum que seria vendido aos estudantes da Faculdade de Direito, na maioria jovens bem-nascidos de outras capitais. O negócio não deu certo, mas as fotos serviram de base para o álbum comparativo feito em 1887 para mostrar o crescimento da cidade. Agora, o que vem a público são reproduções de tiragens feitas na época, pelo próprio Militão, sobre os negativos de vidro originais. A excepcional qualidade das fotografias – 107 no total – permitiu a ampliação de detalhes que passavam despercebidos nas paisagens então captadas.

Esse trabalho, que equivale a uma espécie de arqueologia da imagem, seria impensável nae vem a público são reproduções de tiragens feitas na época, pelo próprio Militão, sobre os negativos de vidro originais. A excepcional qualidade das fotografias – 107 no total – permitiu a ampliação de detalhes que passavam despercebidos nas paisagens então captadas.

Esse trabalho, que equivale a uma espécie de arqueologia da imagem, seria impensável naquele tempo, uma vez que a ampliação de fotos para além do tamanho do negativo só se tornou possível a partir de 1870. E permite a descoberta de fotos inéditas dentro de fotos já conhecidas. "O século XXI está revelando imagens que nem Militão pôde observar", diz Corrêa do Lago, que assina o volume. O resultado é um painel de mais de 200 reproduções que mostra minúcias nunca antes exploradas da vida na pequena São Paulo dos anos 1860, uma cidadezinha de cinqüenta ruas calçadas e cerca de 30.000 habitantes. A maior parte das fotos tem como cenário a hoje fervilhante área do centro de São Paulo compreendida entre as ruas São Bento, Quinze de Novembro e Quitanda, além das cercanias da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco. Nas ampliações, aparecem o recato das roupas femininas, que dão a noção da reclusão a que as mulheres eram condenadas, e também o rótulo das bebidas expostas na vitrine de um bar. O carro de boi que passa na rua sem calçamento revela o ritmo inacreditavelmente lento da futura maior metrópole do país. E o fato de boa parte dos personagens aparecer olhando para a câmara mostra como a fotografia a céu aberto ainda era uma grande novidade.

 

O homem sobre a pedra fica minúsculo diante da grandeza das cachoeiras de Paulo Afonso: proeza técnica realizada por Stahl em 1860

O espírito de repórter também é a marca de dois outros pioneiros retratados na coleção. O alemão Revert Henrique Klumb, que se instalou no Rio de Janeiro em 1852 e foi o primeiro a fazer um registro sistemático da cidade, é tema do volume assinado pelo fotógrafo Pedro Vasquez. E August Stahl, outro alemão, que desembarcou no Recife em 1853, tem o livro dedicado a seu trabalho assinado pela pesquisadora Bia Corrêa do Lago. Klumb é o autor das fotos que melhor retrataram a intimidade da família imperial e responsável por uma maratona batizada de Doze Horas em Diligência: Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora. O percurso, hoje feito em menos de duas horas, durava uma semana. O desafio técnico para a elaboração do guia era imenso. Pedro Vasquez acredita que, para dar conta do projeto, Klumb tenha utilizado uma carroça adaptada como laboratório de campanha, assim como alguns fotógrafos americanos fizeram para documentar a Guerra de Secessão.

Na mesma época, Stahl iniciava no Recife uma atividade frenética de documentação da vida da cidade e seus arredores. Em 1859, aproveitou a visita oficial de dom Pedro II e da imperatriz Tereza Cristina a Pernambuco para dar uma amostra de seu virtuosismo: presenteou o casal imperial com Memorandum Pittoresco de Pernambuco, um álbum que reúne 34 vistas do Recife. Em troca, recebeu a incumbência de registrar a Cachoeira de Paulo Afonso. O resultado é uma das imagens mais impressionantes da história da fotografia brasileira, pela proeza que representa. Os retratos feitos na mesma época das Cataratas de Niágara, nos Estados Unidos, ainda foram tirados do daguerreótipo, a versão primitiva da câmara fotográfica.

O caçula dessa geração de pioneiros é o espanhol Juan Gutiérrez, que pôde aliar ao sangue de repórter o avanço técnico que simplificou o processo fotográfico. Por isso, produziu uma crônica muito ágil da vida da capital federal no fim do século XIX. Registrou o burburinho do mercado central do Rio de Janeiro, a movimentação do porto, subiu morros para fazer vistas panorâmicas. Também produziu as únicas fotos conhecidas da Revolta da Armada de 1893, e acabou morrendo na Guerra de Canudos, da qual não sobrou uma única imagem feita por ele. Era também uma figura boêmia, ligada à literatura e à música, com presença freqüente na crônica social da cidade. O volume dedicado a ele traz 150 imagens inéditas – entre elas uma irreconhecível vista do paulistano Viaduto do Chá em 1895 – e uma minuciosa biografia, que vem a público pela mão de George Ermakoff, presidente da companhia aérea RioSul e grande colecionador de fotografias do Rio antigo.

Visões do Brasil revela ainda a enorme vocação do quarteto para o fracasso comercial. Militão é famoso por duas empreitadas que não lhe renderam nem o suficiente para recuperar o que havia investido. Desiludido, abandonou a fotografia em 1888. Trinta anos após o primeiro empreendimento de Militão em São Paulo, Juan Gutiérrez jogou todas as suas fichas num estúdio no Rio de Janeiro capaz de produzir 1.000 retratos diariamente. Apesar da grande popularidade da fotografia na capital federal, onde se estima que estivessem em atividade mais de 200 profissionais da área, ele faliu em seis meses. Klumb e Stahl tampouco conseguiram notoriedade em vida, apesar de gozarem de grande prestígio com o imperador dom Pedro II, ele próprio sabidamente um amante da fotografia. Stahl, inclusive, desapareceu do país sem deixar registro. Mais de 150 anos depois, os quatro ganharam, merecidamente, o status de artista que não tiveram em vida. E colecionadores chegam a pagar 10.000 dólares por uma única foto de tiragem original em bom estado.

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS