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Novas visões
do
Brasil do século XIX
Coleção
revela 500 imagens
inéditas de quatro dos maiores
fotógrafos do país

Lucila Soares
Fotos Revert Henrique Klumb

Dom
Pedro II e dona Tereza Cristina na inauguração da Estrada União Indústria:
flagrante de Revert Klumb |

Veja também |
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Na virada
para o século XX, quando alguém encontrava uma caixa de
negativos fotográficos, raspava a imagem e vendia a placa de vidro
a qualquer vidraceiro. Assim foram destruídas todas as matrizes
das imagens produzidas no Brasil imperial e nos primeiros anos da República
exceção feita à obra de Marc Ferrez, preservada
por sua família. Restaram cópias em papel, nem sempre de
boa qualidade, guardadas em condições normalmente precárias.
A produção era tão monumental, no entanto, que muita
coisa se salvou. Nos últimos anos, houve uma febre de descobertas
e publicações que tornaram conhecida boa parte do trabalho
dos fotógrafos do século XIX. O filão, embora riquíssimo,
parecia dar sinais de esgotamento. Ledo engano. Em uma semana estará
nas livrarias a coleção Visões do Brasil (Editora
Capivara, quatro volumes de 250 páginas, 90 reais cada um). São
mais de 700 imagens das quais cerca de 500 inéditas. É
um registro precioso do país na segunda metade do século
XIX, que começa em pleno império, com Revert Klumb (Rio
de Janeiro e Petrópolis), August Stahl (Pernambuco e Rio) e Militão
Augusto de Azevedo (São Paulo), e termina com Juan Gutiérrez
(Rio e São Paulo), nos anos 1890.
Coordenada
pelo colecionador e editor Pedro Corrêa do Lago, a série
é a maior empreitada do gênero já levada a cabo no
Brasil. É uma façanha mostrar fotos inéditas de Stahl,
Gutiérrez e Klumb, fotógrafos já bastante divulgados
e de importância comparável à de Marc Ferrez ou George
Leuzinger. O trabalho mais original, entretanto, foi realizado sobre a
obra de Militão de Azevedo, o menos célebre do quarteto.
Militão ficou conhecido como o autor da primeira grande reportagem
fotográfica sobre a capital paulista. Registrou, em 1862, ruas,
monumentos e prédios, com planos de fazer um álbum que seria
vendido aos estudantes da Faculdade de Direito, na maioria jovens bem-nascidos
de outras capitais. O negócio não deu certo, mas as fotos
serviram de base para o álbum comparativo feito em 1887 para mostrar
o crescimento da cidade. Agora, o que vem a público são
reproduções de tiragens feitas na época, pelo próprio
Militão, sobre os negativos de vidro originais. A excepcional qualidade
das fotografias 107 no total permitiu a ampliação
de detalhes que passavam despercebidos nas paisagens então captadas.
Esse trabalho,
que equivale a uma espécie de arqueologia da imagem, seria impensável
nae vem a público são
reproduções de tiragens feitas na época, pelo próprio
Militão, sobre os negativos de vidro originais. A excepcional qualidade
das fotografias 107 no total permitiu a ampliação
de detalhes que passavam despercebidos nas paisagens então captadas.
Esse trabalho,
que equivale a uma espécie de arqueologia da imagem, seria impensável
naquele tempo, uma vez que a ampliação de fotos para além
do tamanho do negativo só se tornou possível a partir de
1870. E permite a descoberta de fotos inéditas dentro de fotos
já conhecidas. "O século XXI está revelando imagens
que nem Militão pôde observar", diz Corrêa do Lago,
que assina o volume. O resultado é um painel de mais de 200 reproduções
que mostra minúcias nunca antes exploradas da vida na pequena São
Paulo dos anos 1860, uma cidadezinha de cinqüenta ruas calçadas
e cerca de 30.000 habitantes. A maior parte
das fotos tem como cenário a hoje fervilhante área do centro
de São Paulo compreendida entre as ruas São Bento, Quinze
de Novembro e Quitanda, além das cercanias da Faculdade de Direito,
no Largo de São Francisco. Nas ampliações, aparecem
o recato das roupas femininas, que dão a noção da
reclusão a que as mulheres eram condenadas, e também o rótulo
das bebidas expostas na vitrine de um bar. O carro de boi que passa na
rua sem calçamento revela o ritmo inacreditavelmente lento da futura
maior metrópole do país. E o fato de boa parte dos personagens
aparecer olhando para a câmara mostra como a fotografia a céu
aberto ainda era uma grande novidade.

O homem
sobre a pedra fica minúsculo diante da grandeza das cachoeiras de
Paulo Afonso: proeza técnica realizada por Stahl em 1860 |
O espírito
de repórter também é a marca de dois outros pioneiros
retratados na coleção. O alemão Revert Henrique Klumb,
que se instalou no Rio de Janeiro em 1852 e foi o primeiro a fazer um
registro sistemático da cidade, é tema do volume assinado
pelo fotógrafo Pedro Vasquez. E August Stahl, outro alemão,
que desembarcou no Recife em 1853, tem o livro dedicado a seu trabalho
assinado pela pesquisadora Bia Corrêa do Lago. Klumb é o
autor das fotos que melhor retrataram a intimidade da família imperial
e responsável por uma maratona batizada de Doze Horas em Diligência:
Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora. O percurso,
hoje feito em menos de duas horas, durava uma semana. O desafio técnico
para a elaboração do guia era imenso. Pedro Vasquez acredita
que, para dar conta do projeto, Klumb tenha utilizado uma carroça
adaptada como laboratório de campanha, assim como alguns fotógrafos
americanos fizeram para documentar a Guerra de Secessão.
Na mesma
época, Stahl iniciava no Recife uma atividade frenética
de documentação da vida da cidade e seus arredores. Em 1859,
aproveitou a visita oficial de dom Pedro II e da imperatriz Tereza Cristina
a Pernambuco para dar uma amostra de seu virtuosismo: presenteou o casal
imperial com Memorandum Pittoresco de Pernambuco, um álbum
que reúne 34 vistas do Recife. Em troca, recebeu a incumbência
de registrar a Cachoeira de Paulo Afonso. O resultado é uma das
imagens mais impressionantes da história da fotografia brasileira,
pela proeza que representa. Os retratos feitos na mesma época das
Cataratas de Niágara, nos Estados Unidos, ainda foram tirados do
daguerreótipo, a versão primitiva da câmara fotográfica.
O caçula
dessa geração de pioneiros é o espanhol Juan Gutiérrez,
que pôde aliar ao sangue de repórter o avanço técnico
que simplificou o processo fotográfico. Por isso, produziu uma
crônica muito ágil da vida da capital federal no fim do século
XIX. Registrou o burburinho do mercado central do Rio de Janeiro, a movimentação
do porto, subiu morros para fazer vistas panorâmicas. Também
produziu as únicas fotos conhecidas da Revolta da Armada de 1893,
e acabou morrendo na Guerra de Canudos, da qual não sobrou uma
única imagem feita por ele. Era também uma figura boêmia,
ligada à literatura e à música, com presença
freqüente na crônica social da cidade. O volume dedicado a
ele traz 150 imagens inéditas entre elas uma irreconhecível
vista do paulistano Viaduto do Chá em 1895 e uma minuciosa
biografia, que vem a público pela mão de George Ermakoff,
presidente da companhia aérea RioSul e grande colecionador de fotografias
do Rio antigo.
Visões
do Brasil revela ainda a enorme vocação do quarteto
para o fracasso comercial. Militão é famoso por duas empreitadas
que não lhe renderam nem o suficiente para recuperar o que havia
investido. Desiludido, abandonou a fotografia em 1888. Trinta anos após
o primeiro empreendimento de Militão em São Paulo, Juan
Gutiérrez jogou todas as suas fichas num estúdio no Rio
de Janeiro capaz de produzir 1.000 retratos
diariamente. Apesar da grande popularidade da fotografia na capital federal,
onde se estima que estivessem em atividade mais de 200 profissionais da
área, ele faliu em seis meses. Klumb e Stahl tampouco conseguiram
notoriedade em vida, apesar de gozarem de grande prestígio com
o imperador dom Pedro II, ele próprio sabidamente um amante da
fotografia. Stahl, inclusive, desapareceu do país sem deixar registro.
Mais de 150 anos depois, os quatro ganharam, merecidamente, o status de
artista que não tiveram em vida. E colecionadores chegam a pagar
10.000 dólares por uma única
foto de tiragem original em bom estado.
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