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Desânimo
com bula
A
depressão é cada vez mais comum,
mas ainda causa discriminação no
trabalho e demissões
Flavia
Varella
Ed Viggiani
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"O
preconceito maior foi o meu próprio. Eu simplesmente não admitia ter
passado para o outro lado."
CECÍLIA
TOLEDO
Enfermeira
e professora no Instituto de Psiquiatria do HC |
Um
profissional desmotivado, sem interesse por projeto algum, lento, dispersivo,
mal-humorado com os colegas talvez não seja um mau profissional.
Ele pode estar doente, com depressão. Veja esta breve lista de
sintomas: fadiga aumentada, dificuldade de concentração,
baixa auto-estima e autoconfiança, idéias de culpa, sensação
de inutilidade, lentidão motora e de raciocínio. Agora imagine
trabalhar com uma pessoa assim, ser subordinado ou chefe dela. "A pessoa
deprimida fica estigmatizada como alguém que faz corpo mole, é
baixo-astral e sem pique. Muitas vezes acaba por ser demitida ou é
preterida nas promoções e isolada para não contaminar
a equipe", afirma a psicóloga Débora Glina, professora de
pós-graduação e consultora especializada em saúde
do trabalhador.
A depressão é um problema comum. Segundo a Organização
Mundial de Saúde, uma em cada cinco pessoas é, foi ou será
afetada pela doença. Ela atinge especialmente quem está
na faixa etária mais produtiva, dos 30 aos 40 anos. Atinge o doutor
e a faxineira. A depressão é, em grande parte das vezes,
temporária, e sempre tratável. Não há estudo
científico nem caso clínico que digam o contrário.
Apesar disso, a depressão ainda é envolta em uma aura de
ignorância, segredos e medos. E em nenhum lugar isso é mais
verdadeiro que no ambiente de trabalho.
Três
vezes mais falta Para um paciente psiquiátrico, encontrar
e manter o emprego é um desafio. Numa pesquisa recente feita pela
Fundação de Saúde Mental da Inglaterra, 47% das pessoas
com distúrbios mentais disseram ter passado por discriminação
no trabalho, e 55% esconderam o caso dos colegas. Num célebre estudo
realizado em 1998, 200 profissionais de recursos humanos avaliaram o currículo
de dois pretendentes a um alto cargo. Ambos os candidatos tinham experiência
e formação equivalentes, mas um deles sofria de diabetes
e o outro se recuperava de um período de depressão. O candidato
com depressão foi considerado "significativamente menos empregável"
que o com diabetes.
A paulista Renata Barros Lima formou-se em marketing, fez pós-graduação
e com 27 anos, após três promoções em quatro
anos, já ocupava um posto de chefia numa rede de lojas. Três
meses depois de chegar ao topo, não se reconhecia mais profissionalmente.
"Eu detectava um problema, irritava-me com ele, até chorava, mas
era incapaz de reagir para corrigi-lo. Achava que não havia o que
fazer com as coisas ruins, pois a tendência natural delas era piorar",
conta. Renata só recebeu o diagnóstico de depressão
quando já estava demitida. "Fiquei um mês sem sair de casa",
lembra. Não se passaram três meses, porém, e ela já
estava comandando uma nova equipe em outra empresa. "Eles sabiam da depressão,
mas apostaram em meu currículo anterior", diz a moça.
Oscar Cabral
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"Como
uma pessoa com mestrado, como eu, não conseguia fazer um curso? A
sensação de fracasso foi demais."
FERNANDO TARTIN COSTA
Assessor de informática da diretoria do IBGE |
A
companhia que demitiu Renata agiu de acordo com o padrão das empresas
brasileiras quando o assunto é doença mental. A que a admitiu
ainda sob tratamento é uma exceção, mas representa
uma tendência. Nos Estados Unidos, 70% das empresas, segundo dados
de uma pesquisa, reconhecem a importância de criar projetos de saúde
corporativa que incluam distúrbios psíquicos. O governo
americano estima que o país gaste 70 bilhões de dólares
por ano com a perda de produtividade e despesas médicas provocadas
pela depressão. Uma pessoa que sofre desse mal falta ao trabalho
três vezes mais que um colega sem a doença. "No Brasil, a
preocupação ainda não se traduz em investimento para
mudar o problema", diz o médico João Figueiró, presidente
do comitê de saúde da Câmara Americana de Comércio.
Tanque
de roupas "Quando a empresa oferece um acesso fácil
com garantia de anonimato, o empregado busca apoio psiquiátrico
mais rápido", afirma o médico do trabalho Ésio Carneiro.
O anonimato é importante porque o preconceito existe também
para o próprio paciente. "Eu simplesmente não admitia que
pudesse ter passado para o outro lado", diz a enfermeira Cecília
Toledo, que trabalha com pacientes com distúrbios mentais e dá
aulas sobre o assunto no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Mesmo com todo o seu conhecimento, Cecília
passou três anos dormindo e se alimentando mal, com preguiça
e auto-estima zerada, até ter coragem de consultar um psiquiatra,
que identificou nela depressão e síndrome do pânico.
Até hoje, dez anos depois, e ainda usando medicamentos e fazendo
terapia, ela jamais falou de seu problema para os companheiros de trabalho.
O assessor de informática da diretoria do IBGE, Fernando Robson
Tartin Costa, sempre foi um viciado em trabalho, um perfeccionista. Em
1997, teve uma crise de depressão, mas só se deu conta dela
quando, inscrito num curso, desistiu de acompanhá-lo. "A sensação
de fracasso foi demais. Como uma pessoa com mestrado, como eu, não
conseguia fazer um curso?", lembra. "Minha vida ficou uma droga quando
me vi como um profissional que eu próprio não admirava."
É por isso que a primeira reação de uma pessoa com
problemas psíquicos é negar a doença. "Ela acha que
tem uma fraqueza moral que deve ser enfrentada com força de vontade",
afirma o psiquiatra Renério Fraguas Junior. "Não consegue",
completa. Mas, para aceitar essa conclusão numa cultura em que
reina o preconceito, em geral só passando pela doença. Meirylucy
Porto e Celimar Reck trabalham juntas no departamento médico da
sede dos Correios no Rio de Janeiro. Em momentos diferentes, tiveram depressão.
Ao falar de preconceito, lembram o que elas próprias tinham antes
de se tornar pacientes. "Várias vezes, quando uma funcionária
vinha ao departamento pegar licença por causa de depressão,
comentávamos entre nós: 'Um tanque de roupas para lavar
resolveria o problema dela rapidinho'." Mudaram de opinião.
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Desumanos |
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Uma
pesquisa inglesa confirmou o preconceito contra pacientes com problemas
mentais nas empresas
47%
dos pacientes contou ter passado por discriminação
no trabalho
55%
esconderam a doença dos colegas
Fonte:
Fundação de Saúde Mental da Inglaterra
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