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AP

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QUASE
IMPLODIDO
O dilema de Arafat: se reprimir os radicais islâmicos, pode
ser varrido do mapa pelos próprios palestinos. Se facilitar,
também aí, pelos israelenses |
Pela
certidão de nascimento, o líder palestino Yasser Arafat
não é palestino nem se chama Yasser Arafat. Continua sendo
líder, mas na semana passada estava mais perto do que nunca de
perder essa condição. Espremido entre a dupla pressão
da sanha assassina do Hamas, a organização fundamentalista
que semeia seus homens-bomba como ervas malignas, e a ferocidade da represália
de Israel, Arafat parecia um morto-vivo, um zumbi que já deixou
o mundo do poder político, mas ainda não sabe disso.
A
humilhação chegou a um ponto em que dirigentes israelenses
discutem em público, como se fosse uma coisa perfeitamente natural,
se devem "acabar" com Arafat. Acabar, no caso, não é uma
força de expressão. Fazendo
uma espécie de concessão, o governo do primeiro-ministro
Ariel Sharon se comprometeu com os Estados Unidos, no fim da semana passada,
a não varrer completamente a Autoridade Palestina da face miserável
de Gaza. Tradução: vamos dar um tempo, provavelmente muito
curto, e assistir à implosão do que restou do prestígio
interno de Arafat, execrado em protestos de rua por ter mandado prender
militantes fundamentalistas e seu mentor, o xeque Ahmed Yassin. A repressão
aos radicais é uma das faces do dilema de Arafat. Se persistir
em colocar terroristas na cadeia, como quer o governo israelense, pode
desencadear uma guerra interna entre seu povo. Se, ao contrário,
mantiver a artimanha de prender com uma mão e soltar com a outra,
como já fez no passado, continuará a ser pressionado por
Israel até a dissolução final. Na semana passada,
os israelenses dispararam mísseis contra seu escritório,
sabendo que ele não estava lá. Também destruíram
seus dois helicópteros estacionados num heliporto. Foram só
avisos.
A pressão
é tanta que uma pergunta se tornou inescapável: Arafat terá
forças para chegar ao fim desse annus horribilis, que começou
com uma tragédia pessoal, quando descobriu que sua filhinha de
6 anos, Zahwa, sofre de leucemia, e culminou com o esfacelamento de sua
autoridade política? Para respondê-la é preciso determinar
se ele ainda é uma peça central no jogo que envolve uma
das questões mais complexas do mundo, o conflito entre árabes
e judeus pela mesma terra, ou se finalmente queimou o filme, tornando-se
descartável. Muito da extraordinária sobrevivência
de Arafat, que conseguiu chegar aos 72 anos vivendo no olho de acontecimentos
vulcânicos, deve-se a um raciocínio pragmático: ruim
com ele, pior sem ele. Recorrem a esse argumento tanto adversários
israelenses quanto aliados palestinos, que concebem a sucessão
dele como um mergulho no caos. Foi com base nisso que o primeiro-ministro
Yitzhak Rabin acabou negociando o acordo que permitiu o retorno de Arafat
à cena política. Rabin abominava Arafat, mas foi com ele
que acertou a incipiente autonomia palestina, em 1993. "Cheguei à
conclusão de que, se não aceitasse a OLP (organização
na qual Arafat se projetou), eventualmente não haveria um interlocutor
palestino, pois os extremistas muçulmanos assumiriam o controle",
resumiu certa vez Rabin, assassinado por um fanático judeu justamente
por causa do acordo de paz, hoje em frangalhos.
Arafat enfrenta
esse momento tão decisivo mais solitário que nunca. Seus
melhores amigos foram assassinados nos anos de exílio: Salah Khalaf,
conhecido como Abu Iyad, morto por um guarda-costas a serviço de
um dirigente palestino renegado, e Khalil al-Wazir, ou Abu Jihad, o homem
número 2 da OLP, fuzilado por um comando do Mossad infiltrado em
sua casa, na Tunísia, na calada da noite. O próprio Arafat
certa vez enumerou quarenta tentativas de assassinato, das quais escapou
mais de uma dezena delas comandada pelo homem que, ironicamente, deveria
ser hoje seu principal interlocutor israelense, Ariel Sharon. Há
relatos de uma tentativa de envenenamento durante uma visita à
Ásia, um atentado frustrado na Romênia, uma bomba que por
pouco não foi instalada em seu avião. O aparelho escapou
da bomba mas não do defeito mecânico que forçou um
pouso às cegas, no deserto da Líbia, em 1992. Avisado da
emergência durante o vôo, Arafat teve uma reação
fabulosa: trocou o agasalho de ginástica que trajava pela farda
habitual (ele só tem esses dois tipos de roupa no armário).
Dignamente vestido para enfrentar a morte, foi enrolado em cobertores
e instalado num lugar que parecia menos perigoso, na traseira do avião.
Sussurrou alguns versículos do Corão e dirigiu o
que poderiam ser suas últimas palavras ao amigo mais querido: "Abu
Jihad, espere por mim, estou chegando". O comandante, o co-piloto e o
engenheiro de vôo morreram no acidente.
Reais, como
nesse caso, ou fictícios, os inúmeros episódios em
que ele escapou "por um triz" da morte foram incorporados à construção
de Arafat como um mito nacional, amplamente utilizado como instrumento
de mobilização política. Fazem parte do mito as origens
misteriosas, a total dedicação à causa, a inexistência
de vida pessoal levemente trincada apenas quando veio a público
seu estranho casamento com a loira oxigenada Suha Tawil; ele com 62 anos,
ela com 27. Arafat nasceu no Cairo, em 1929. O pai era um pequeno comerciante
que se havia transferido de Gaza para o Egito. A mãe, nascida numa
família conceituada de Jerusalém, os Abu Saud, tinha origem
social mais elevada. O local de nascimento não altera a identidade
palestina de Arafat mas o fato de que faça segredo sobre isso
indica como foi importante para ele reforçá-la. Seu nome
verdadeiro é Abdel Rahman Abdel Raouf Arafat al-Qudwa al-Husseini
(pela ordem: o nome próprio, o nome do pai e os sobrenomes da família
paterna). Em alguns registros, seu prenome aparece como Mohamed, provavelmente
porque é costume no Egito incorporar o nome do profeta, segundo
o jornalista israelense Danny Rubinstein, responsável por um criterioso
levantamento da biografia do líder palestino que aparece no livro
The Mystery of Arafat. O Yasser apareceu na história durante
sua adolescência, no Cairo, dado por amigos de escola, significando
um sujeito camarada.
Até
o acordo de paz de 1993, o líder palestino, o homem que tirou do
lixo da história uma causa aparentemente perdida e se transformou
em sua própria encarnação, havia vivido na Palestina
apenas entre os 4 e os 7 anos de idade. Esse período se seguiu
à morte precoce da mãe, e ele foi passar um tempo com a
família dela, em Jerusalém. Não teve, portanto, a
história dramática de exílio e perda que tiveram
tantos outros dirigentes palestinos, expulsos de sua terra na esteira
da vitória espetacular de Israel na guerra que selou seu nascimento
como Estado independente, em 1948. A humilhação que viveu
na época foi infligida pelos irmãos árabes: estudante
franzino, voluntário de uma patética unidade de combate
criada no Cairo para combater em Gaza contra os judeus, ele foi dispensado
pelos profissionais do Exército egípcio, que não
queriam amadores no caminho. Nunca se esqueceu. "Tiraram até a
minha arma. Fui traído", diria, em várias ocasiões.
Dessa experiência tirou um dos pilares de sua popularidade: a defesa
do nacionalismo palestino acima de tudo, sem jamais cair na armadilha
do pan-arabismo, a moda da época em que mergulhou na militância.
A organização
original de Arafat, a Fatah, foi fundada no Kuwait, onde ele, jovem engenheiro
formado pela Universidade do Cairo, tentava a vida. Número de membros:
cinco. Começava assim, oficialmente, uma luta longa e difícil,
travada em condições quase impossíveis, com uma inferioridade
militar acachapante. O povo em nome do qual era travada vivia sob o domínio
de Israel, sob a soberania de países como a Jordânia e o
Egito ou na miséria dos campos de refugiados em outros vizinhos
árabes. Apesar da ressonância histórica, a palavra
Palestina não evocava um país nem sequer em potencial. Além
das vitórias políticas e militares, Israel ainda desfrutava
superioridade moral. Era a nação heroicamente erguida no
deserto por sobreviventes dos campos de extermínio nazistas, uma
das mais terríveis tragédias da história da humanidade.
O grande feito de Arafat talvez tenha sido contrabalançar o peso
de Israel nesse campo e propagar, aos olhos do mundo, o direito dos palestinos,
não só a uma terra e a uma nação, mas ao próprio
sofrimento.
A contrapartida
disso é que Arafat se tornou uma vítima profissional, um
negociador insuportável que desfia uma interminável lista
de queixas a qualquer pretexto, como tática para atordoar o interlocutor
e provavelmente porque se sente mesmo um eterno perseguido. "Agora
você vai ver o que é negociar com Arafat", suspirou um amargurado
rei Hussein para seu amigo israelense Shimon Peres quando a Jordânia
renunciou a representar os palestinos dos territórios ocupados
por Israel, reconhecendo a autoridade indisputável da OLP. Como
tantos outros dirigentes árabes, Hussein rompeu e se reconciliou
com Arafat em várias oportunidades. Em nome do realismo político,
o rei acabou relevando o fato de que o palestino havia tentado arrebatar-lhe
o poder na Jordânia, em 1970, e Arafat, de seu lado, engoliu a brutal
represália que custou a vida de vários milhares de militantes,
no confronto que ficou conhecido como Setembro Negro. Nessa época,
Arafat firmou o perfil multifacetado que lhe fez a fama. Para Israel e,
por extensão, para os Estados Unidos, era o terrorista de pistola
no coldre, o homem que queria, segundo suas próprias palavras,
extinguir o Estado judeu e "mandar os invasores de volta para a Europa
ou de onde tenham vindo". Para uma opinião pública internacional
encantada com movimentos de libertação no Terceiro Mundo,
num tempo em que era moda ser de esquerda, Yasser Arafat era um herói
popular, praticamente um Che Guevara de kaffiyeh. Nos países árabes
onde desembarcava, com sua corte de guerrilheiros, assessores e agregados,
era chamado, em voz baixa, de encrenqueiro ou coisa pior.
Foi com
essa fama que, expulsos da Jordânia, Arafat e toda a turma da OLP
se transferiram para o Líbano. Em poucos anos, todas as muitas
e labirínticas facções libanesas acabaram por concordar
com uma única coisa: odiavam os palestinos. O Líbano foi
palco de acontecimentos decisivos na trajetória de Arafat. Nesse
país onde viver, morrer e amar era tão perigoso quanto intenso,
o tímido líder palestino teve seus únicos romances
mais ou menos conhecidos, ou suspeitados. A síria Najla Yassin,
sua fiel secretária, é a primeira. Sobre Nada Yashruti,
viúva de um membro da Fatah, Arafat chegou a insinuar que foi o
amor de sua vida. Era uma mulher fascinante: amante do presidente libanês,
Suleiman Franjieh, teria recusado uma proposta de casamento feita por
Arafat. Foi assassinada, num crime misterioso, em 1973. A última
foi a exuberante escritora egípcia Rashida Mahran.
No Líbano,
ele também defrontou diretamente, pela primeira vez, com Ariel
Sharon, seu flagelo maior. E de lá ambos saíram quebrados.
Arafat, expulso pelos invasores israelenses, que o bombardearam inclementemente,
despachado para a distante Tunísia, descrita pelos palestinos como
"o exílio do exílio". Sharon, com as mãos sujas de
sangue e a reputação arruinada pela conivência silenciosa
com o massacre dos infelizes desarmados em dois campos de refugiados palestinos,
no infame episódio de Sabra e Chatila. Dezenove anos depois, os
caminhos dos dois voltam a se cruzar. Ambos comprometidos de corpo e alma,
como sempre, foram às suas causas: Arafat com a independência
da Palestina, Sharon com a segurança de Israel. Arafat, de novo
bombardeado por Sharon, está mais acuado do que nunca. O dilema
do palestino foi apresentado no início desta reportagem. O de Sharon
é responder à pergunta: sem Arafat, Israel terá um
futuro melhor?
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