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Outro mestre do terror

Fotos Reuters

O que o mundo quer é ver judeus e palestinos vivendo em harmonia em dois Estados vizinhos. Isso já esteve perto de acontecer. Acordos entre os dois lados chegaram a delinear um projeto de convivência civilizado, mas nunca foi possível realizar essa coisa que parece simples aos olhos dos que vivem longe daquela terra conflagrada. Sente-se que é impossível que judeus e palestinos continuem para sempre a enfrentar-se a poder de balas, bombas e mísseis. Estão condenados a fazer a paz, mais cedo ou mais tarde, como escreveu um desses analistas da caótica política do Oriente Médio.
A paz pode estar mais perto do que se imagina, mas o cenário atual não é nada alentador nesse sentido. Nos últimos dias, quatro palestinos de vida aparentemente normal, fãs de esporte, alegres e extrovertidos saíram às ruas das cidades de Jerusalém e Haifa, em Israel, e explodiram a si próprios com um pesado arsenal de bombas, sacrificando em seu ato alucinado 26 judeus. Mais 200 ficaram feridos. Israel, como sempre nessas ocasiões, saiu atrás da vingança. Entre outros alvos, atacou com mísseis o quartel-general de Yasser Arafat, o presidente da Autoridade Palestina, uma subespécie de governo sem soberania que funciona como representante político do povo palestino.

 
AMIGOS TERRORISTAS
Nabil Halabiyeh (à esq.) e Osama Bahar (à dir.): rotina normal e futebol na TV às vésperas da carnificina em Jerusalém

Desse jeito, parece mesmo difícil ter esperanças de que a paz reine em Israel. Não se trata só de Israel. O combate entre judeus e palestinos tem sido apresentado como argumento por muitos terroristas islâmicos para cometer atentados. Alegam que os palestinos estão sendo perseguidos na própria pátria, com o apoio aberto dos Estados Unidos aos israelenses. E que, portanto, os Estados Unidos são o Grande Satã a ser atingido pela fúria santa dos guerreiros de Maomé. Guerreiros de Maomé é uma expressão injusta porque a maioria dos islâmicos é constituída por pessoas pacíficas. Mas é como os terroristas de turbante se imaginam: são, como eles próprios se vêem, guerreiros do Profeta. Em Israel, hoje, um velho paralítico, o xeque Ahmed Yassin, personifica mais que ninguém esse tipo de ódio assassino. Ele é o líder religioso do grupo fundamentalista Hamas. Yassin anda de cadeira de rodas, mas tem a mente clara e a língua afiada.

A força do clérigo de cadeira de rodas reside em seus terroristas suicidas. Tão peculiar ao fundamentalismo islâmico, a psicologia desses palestinos enviados em missões para morrer, matando o máximo possível de israelenses, ainda não foi totalmente decifrada. Não é difícil entender que a revolta brote com fúria nas cidades palestinas mantidas em virtual estado de sítio pelas tropas israelenses. Os palestinos convivem com o desemprego, a humilhante espera nas barreiras israelenses e, desde que as conversações de paz entraram em colapso, com a falta de esperança de dias melhores. Nada disso é suficiente para justificar a terrível atrocidade contra civis de um homem-bomba. Como pode alguém morrer acreditando que será recebido no paraíso de Alá depois de cometer um assassinato em massa? Entre os terroristas suicidas se encontram homens casados, solteiros, religiosos fervorosos e outros nem tanto. Osama Bahar e Nabil Halabiyeh, que há uma semana explodiram em Jerusalém, no atentado que incluiu a detonação simultânea de um carro-bomba, levando para a morte em sua companhia dez jovens judeus, o mais velho com 21 anos e o mais jovem com 14, eram vizinhos numa aldeia da Cisjordânia. Jogavam futebol, praticavam caratê e iam à mesquita com moderação. Simularam normalidade até o momento final, a ponto de Nabil ter levantado de madrugada para assistir pela televisão ao jogo em que o Brasil se classificou para a Copa do Mundo.

Não existe nenhum desígnio bíblico que condene árabes e judeus a viver às turras. Todo o atrito sangrento decorre do confronto entre duas aspirações nacionalistas, a palestina e a israelense, sobre o mesmo pedaço de chão. A convivência de árabes e judeus é milenar e já teve momentos dourados para ambos. O certo é que ambos têm raízes reais na Terra Santa. Os judeus ali tiveram seu Estado em tempos bíblicos. Expulsos por conquistadores há 2.000 anos, nunca perderam o vínculo afetivo e religioso com a terra ancestral. Os árabes chegaram com a conquista de Jerusalém pelo califa Omar, sucessor do Profeta, no século VII. A encrenca atual tem origem no sionismo moderno, movimento do século XIX cujo objetivo era criar um Estado judeu na Palestina. Seu primeiro ideólogo, o austríaco Theodor Herzl, sustentava que não havia outra opção, pois o anti-semitismo jamais permitiria que os judeus vivessem em paz na Europa. Depois do holocausto, na II Guerra Mundial, quando 6 milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração nazistas, as nações que saíram vitoriosas do conflito entenderam que deviam uma reparação aos judeus, cedendo-lhes um espaço para criar a própria nação. Os árabes jamais concordaram com a idéia. Em 1947, as Nações Unidas votaram pela partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu. No ano seguinte, logo após sua fundação, o Estado de Israel foi invadido por cinco exércitos árabes. O tiro saiu pela culatra. Israel encerrou a guerra com um território maior que o concedido na partilha sacramentada pela ONU. Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, contra a Jordânia, Síria e Egito, Israel apossou-se de toda a Palestina, ocupando a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. É essa a situação que perdura.


AFP

O ATAQUE FANÁTICO
Maher Khbeisheh (acima, numa foto que simula uma peregrinação a Meca) detonou uma bomba num ônibus repleto de idosos em Haifa: a maioria dos quinze mortos tinha mais de 60 anos. Cinco passavam dos 70


A questão, obviamente sem resposta, é quando cada um deles fará as concessões necessárias para pôr fim a décadas de sofrimento. Depois dos fracassados acordos de paz de 1993, negociados em Oslo, na Noruega, a discussão gira basicamente em torno da criação de um Estado palestino ao lado de Israel, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, territórios nos quais 2 milhões de palestinos vivem sob ocupação militar israelense desde 1967. Há consenso entre os principais países que esse impasse no Oriente Médio precisa terminar. Não só porque o conflito serviu, de alguma maneira, de pretexto para os ataques terroristas em Nova York e Washington, mas, sobretudo, por representar uma fonte de tensão que a comunidade internacional já não vê razão para agüentar. Entre os países árabes e islâmicos convocados pelo presidente George W. Bush para ajudar na guerra contra o terrorismo, é artigo de fé que o governo dos Estados Unidos irá retribuir patrocinando a paz no Oriente Médio. Que isso é verdade foi demonstrado na mudança de tom em Washington. Pela primeira vez, o governo Bush disse publicamente para Israel parar de instalar colônias judaicas em território ocupado militarmente e aceitar um Estado palestino.

O que o mundo espera é uma paz justa para ambos os lados. E esse entendimento é impossível enquanto estiverem à solta os terroristas do Hamas em Israel. Se o movimento nacional palestino for seqüestrado por esse "bin-ladismo, que é a perseguição niilista da violência assassina contra civis, sem nenhum programa político", como escreveu Thomas Friedman, no New York Times, só restará aos Estados Unidos lavar as mãos e considerar a ocupação israelense como uma questão de autodefesa, deixando que vença o mais forte. O mundo, que se encantou com a visão de israelenses e palestinos dando as mãos e jurando fazer a paz, em 1993, está agora diante de uma realidade totalmente virada ao contrário. Cada lado se concentra na própria dor e não dá a mínima para as perdas do outro lado. Pesquisas divulgadas na semana passada mostram que cresce a proporção de palestinos que consideram a matança de civis israelenses uma forma legítima de lutar contra a ocupação ou, mais simplesmente, de vingança pelos próprios mortos. O Hamas mantém creches, escolas e clínicas, faceta que a população palestina admira. Mas se seu apoio popular cresce é basicamente porque só seus terroristas parecem capazes de equilibrar o número de vítimas a favor dos palestinos, como se a carnificina fosse uma competição esportiva. Para combater o terror, o primeiro-ministro Ariel Sharon adotou a implacável política de assassinar líderes extremistas. Os atentados suicidas da semana passada foram a vingança do Hamas pela execução de seu principal líder militar pelos israelenses, no mês passado. Esse líder, por sua vez, morreu porque Israel estava se vingando de ataque anterior do Hamas. E assim prospera a carnificina.

"O verdadeiro problema é como parar o ciclo de retaliações", definiu Nabil Shaath, ministro do Exterior da Autoridade Palestina, numa entrevista ao Global Viewpoint, na semana passada. "Cruzar os braços depois de um ultraje é a última coisa que passa pela cabeça de judeus e árabes." Shaath é um estadista comprometido com o propósito de solucionar o impasse por meio da criação de dois Estados lado a lado na Palestina, proposta que Yasser Arafat formalmente aceitou. A estratégia entra em choque com a do Hamas, que prefere uma solução em dois estágios: primeiro, pôr os judeus para fora da Cisjordânia e Gaza e, depois, para fora do Oriente Médio. Essa é a notável diferença entre o xeque Yassin e Osama bin Laden. O saudita quer conquistar o planeta para Alá. O xeque também quer um regime tipo talibã, mas se contenta em instalá-lo na Palestina. Desde a assinatura do acordo de paz, em 1993, 109 homens-bomba explodiram em Israel e nos territórios ocupados. A maioria pertencia ao Hamas.

A competição letal deixou por um fio o poder de Arafat – considerado pelos israelenses como, no mínimo, conivente com o terrorismo e, pelos extremistas palestinos, como uma marionete dos sionistas. Na semana passada, o líder palestino ordenou a prisão domiciliar do velho xeque Yassin. Muitos israelenses, entre eles Sharon, querem ver Arafat pelas costas – mas, no final das contas, a velha raposa palestina é tudo o que existe entre Israel e o Hamas. Essa situação é irônica. Quando Arafat era um terrorista ansioso por jogar os judeus no mar e o Hamas aparentava ser uma singela instituição de caridade, o governo israelense o incentivou a construir clínicas e mesquitas em Gaza. "Algum gênio concluiu que poderia debilitar o nacionalismo palestino promovendo o Islã", ironizou Robert Fisk, colunista do jornal inglês Independent. As voltas que o mundo dá: na época, Arafat chegou a acusar Yassin e seus seguidores de "colaboracionistas". As raízes do Hamas estão na Irmandade Muçulmana do Egito – o tronco-mãe que também gerou Osama bin Laden e os principais caciques da Al Qaeda. Quando estourou a primeira intifada, em 1987, com medo de perder seguidores para grupos militantes, o xeque adotou o nome Hamas – acrônimo para Movimento de Resistência Islâmica, que também significa "fiel", em árabe – e criou o braço militar responsável pelas bombas.

Adolescente, Ahmed Yassin bateu numa pedra ao mergulhar em águas rasas e ficou tetraplégico. Estudou religião e se tornou um respeitado educador, antes de passar a ser líder terrorista. Aos 63 anos, ele está meio surdo e quase cego. Sofre de infecções crônicas no estômago, respira com dificuldade e sua voz não ultrapassa o nível do sussurro. Ainda assim, lota estádios e empolga a multidão com seus discursos. Face a face, o xeque Yassin transmite uma aura de serenidade, defendendo a matança de judeus com voz gentil e pausada, como se estivesse falando a crianças. O contraste entre o tom e a substância é de arrepiar. "Uma nação que trava a Jihad não pode existir", prega. "Deus está conosco e o diabo com eles." Ele vive com a mulher, oito filhas e três filhos numa casa de apenas dois quartos numa rua fétida da cidade de Gaza. Arafat já tinha ordenado sua prisão domiciliar em 1998, depois que um terrorista suicida atacou um ônibus escolar na Faixa de Gaza. Na semana passada, pressionado pelo governo israelense, Arafat decretou de novo a prisão domiciliar do xeque. Há quatro anos, quando Yassin voltou para Gaza depois de oito anos numa prisão israelense (foi libertado em troca de dois espiões israelenses presos na Jordânia), Arafat tentou cooptá-lo e até lhe deu um automóvel Mercedes-Benz de presente. A barganha não deu certo porque Yassin foi ambicioso e pediu uma participação real no comando da Autoridade Palestina, poder que Arafat não estava então disposto a ceder. Hoje, Yassin não precisa pedir mais poder. Os homens-bomba fazem isso por ele.

 
 
   
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