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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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A derrota do terror

Reuters
TALIBÃ HUMILHADO
Derrotados na batalha de Mazar-e-Sharif, no norte do Afeganistão, 3 350 talibãs se amontoam num presídio da Aliança do Norte: anistia não beneficiará estrangeiros recrutados por Laden


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O mulá Mohamed Omar, chefe do Talibã, convocou seus seguidores a lutar até a morte em Kandahar, capital espiritual e última fortaleza da milícia afegã. Pessoalmente, o Comandante dos Fiéis, como o barbudo de um só olho é chamado, adotou outra estratégia. Negociou com o inimigo a rendição e fugiu da cidade no meio da noite, para evitar a inevitável punição pelo barbarismo do regime que comandou. Ninguém sabe quantos homens o acompanharam nessa jornada final – mas isso não preocupa ninguém, pois Omar é um personagem cuja importância se esvai junto com seu regime. O que se viu foram bandos talibãs aproveitando para saquear a cidade e escapar carregados de mercadorias roubadas. Terminou assim, sem os propalados atos de martírio ou heroísmo, o reinado da milícia que durante cinco anos impôs um regime de pesadelo fanático à maioria dos afegãos. A derrota do Talibã, agora reduzido a uns poucos bolsões recalcitrantes, não é o fim da guerra no Afeganistão, que continua dilacerado pelas rixas entre tribos e facções guerreiras. Mas, no que diz respeito à campanha movida naquele país pelos Estados Unidos, na sexta-feira passada só restava completar um objetivo essencial: a captura ou morte de Osama bin Laden, o homem que orquestrou os atentados contra Nova York e Washington em setembro.

Sem a proteção do Talibã, Laden via-se, na sexta-feira passada, na condição miserável de ser um fugitivo em meio à neve que cai nas montanhas do sudeste do Afeganistão. No dia anterior, a soldadesca da Aliança do Norte vasculhou Tora Bora, a fortaleza encravada nas rochas, e tomou a principal base usada pelo terrorista saudita e sua organização, a Al Qaeda. Esse complexo de cavernas a 56 quilômetros da cidade de Jalalabad foi construído com a ajuda dos Estados Unidos, quando os afegãos combatiam as tropas soviéticas nos anos 80. O conhecimento daquela época foi de grande ajuda, pois permitiu nas últimas semanas que os bombardeiros B-52 acertassem com grande precisão bombas poderosas no interior das cavernas. Os bombardeios mataram o braço direito de Laden, o egípcio Aiman al-Zawahiri, e, suspeita-se, outros caciques importantes do terror. Mulheres e crianças, provavelmente familiares deixados para trás pelos terroristas árabes, foram aprisionadas – mas não se viu sinal do terrorista-chefe. A suspeita, até a sexta-feira à noite, era que ele tenha fugido em direção ao sul, tentando alcançar a fronteira com o Paquistão. Ou, como fizeram muitos combatentes estrangeiros, árabes e paquistaneses na maioria, tivesse se entrincheirado em algum lugar alto, esperando por uma oportunidade de escapar ao cerco. O terrorista não tem de se preocupar apenas com os soldados das forças especiais americanas. Dois chefes tribais competiam para ver qual deles iria capturar ou matar Laden e reivindicar a recompensa de 25 milhões de dólares oferecida pelo governo dos Estados Unidos.

 
Reuters
AP
FIM DO SONHO
Voluntários estrangeiros que lutaram pelo Talibã detidos no norte afegão: abandonados à própria sorte
VITÓRIA RÁPIDA
Fuzileiros em trincheiras perto de Kandahar: apoio logístico às milícias anti-Talibã e poucas baixas no Afeganistão

A derrocada do Talibã ocorreu apenas três meses depois que os atentados nos Estados Unidos iniciaram a guerra e dois meses após começarem os bombardeios americanos no Afeganistão. É igualmente boa notícia a comprovação de que o fanatismo do regime e de seus hóspedes estrangeiros tornou-se tremendamente impopular entre os afegãos. O Talibã foi um governante brutal. Seus mulás tomaram ao pé da letra o memorável pronunciamento do aiatolá Khomeini – "Não há diversão no Islã". Eles baniram as pipas, a música, a televisão e proibiram as mulheres de estudar ou trabalhar. Os ladrões tinham as mãos amputadas, adúlteras eram apedrejadas até a morte e assassinos eram executados pessoalmente por familiares da vítima. A guerra no Afeganistão foi cheia de surpresas. Até um legítimo americano foi encontrado lutando ao lado dos talibãs. Nascido em Washington, John Philip Walker Lindh, de 20 anos, que se converteu ao islamismo aos 16, foi um dos oitenta sobreviventes da rebelião talibã numa prisão perto de Mazar-e-Sharif, a principal cidade na região norte do Afeganistão.

A vida pós-Talibã também já começou a ser organizada. A maior dor de cabeça é como pacificar o país de modo que deixe de ser um terreno fértil para o surgimento e o treinamento de terroristas. A dificuldade não reside na geografia difícil ou na pobreza massacrante da maioria da população depois de duas décadas de guerras. O problema real é a fragmentação do país em tribos, clãs e facções rivais, todos querendo tirar proveito da situação. Hamid Karzai, o homem que negociou a rendição do mulá Omar, foi escolhido numa assembléia de líderes afegãos na Alemanha como chefe de um governo provisório. Sua missão é convocar dentro de seis meses uma assembléia de líderes tribais, a Loya Jirga. Como chefe do poderoso clã Popalzai, que por séculos esteve ligado à realeza afegã, Karzai tem o pedigree certo para o cargo. Bem à moda afegã, o acerto foi logo rejeitado por dois dos mais poderosos chefes de milícia, cada um deles entrincheirado em seu próprio feudo. Mal o Talibã depôs armas, guerreiros de dois líderes tribais vitoriosos começaram a trocar tiros nas ruas de Kandahar. Os Estados Unidos têm agora uma substancial presença militar em solo, com dois milhares de soldados no país. Mas eles devem manter-se distantes da anarquia afegã e se concentrar no que realmente interessa: Osama bin Laden.

 
Fotos AP
tos AP
O TALIBÃ AMERICANO
Walker, ao ser preso (à esq.), e com o pai antes de entrar para o Talibã: convertido e fanático

Nunca antes uma personalidade foi apresentada ao mundo com tamanho estrondo quanto Laden. Em poucos dias, o rosto moreno desse saudita se tornou conhecido no mundo inteiro. Da infância de menino rico na Arábia Saudita ao comando de uma rede terrorista de dimensões globais, a trajetória de Laden desperta a curiosidade geral. Poucos ocidentais o conhecem tão bem quanto o jornalista americano Peter Bergen. Produtor da rede de televisão CNN, ele encontrou o milionário saudita no início de 1997, para uma entrevista feita pelo premiado repórter Peter Arnett. Desde então, Bergen conduziu uma grande investigação sobre os bastidores da Al Qaeda e a vida do homem mais procurado do mundo. Em sua edição de dezembro, a revista americana Vanity Fair publicou trechos de um livro sobre o assunto escrito por Bergen que estará em breve nas livrarias. No texto, ele conta detalhes do encontro que teve com Laden nas montanhas do Afeganistão. Ao desembarcar no aeroporto de Islamabad, a equipe de TV entrou numa van para atravessar a fronteira com o Afeganistão. Três homens armados fecharam as cortinas do carro onde estavam os jornalistas e perguntaram se estavam usando um rastreador. Disseram que se estivessem com o aparelho e contassem a verdade não haveria problemas. Caso contrário, seriam executados. Depois de passar por um terreno montanhoso, a equipe chegou a um pequeno platô.

 
Reuters
AMIGO DO REI
Hamid Karzai, chefe de clã e ligado ao rei exilado: no comando de um governo provisório

Osama bin Laden apareceu por volta da meia-noite, acompanhado de um tradutor e vários guarda-costas. Entrou apoiado numa bengala e usava um turbante. Sobre a túnica, vestia uma jaqueta camuflada. Sentou-se próximo de um rifle Kalashnikov. "Ele pertencia a um russo que matei", disse Laden. Como era de esperar, começou a discursar sobre as injustiças cometidas contra os muçulmanos e sobre como seu país, a Arábia Saudita, prejudicava o islamismo por ser leal aos Estados Unidos. Com uma tosse fraca e intermitente, falava enquanto tomava chá. Disse que os Estados Unidos eram responsáveis pela morte de palestinos, libaneses e iraquianos, entre outros cidadãos do mundo árabe. Por isso, declarara guerra santa aos americanos. A seguir, veio a descrição de seu ideal de globalização: a restauração de um grande califado do porte do que fora, um dia, o Império Otomano, desfeito depois da I Guerra.

Bergen conta que Laden surpreendeu a todos quando admitiu que árabes ligados a seu grupo terrorista estavam envolvidos na morte de tropas americanas na Somália, em 1993. Com a graça de Alá, Laden disse, muçulmanos na Somália cooperaram com alguns guerreiros árabes no combate que matou dezoito soldados americanos. Depois da entrevista, o líder saudita serviu gentilmente à equipe uma xícara de chá e posou de forma muito simpática para fotos. Tendo herdado do pai empreiteiro uma fortuna apreciável, Laden resolveu abandonar a vida de ricaço na Arábia Saudita e aos 22 anos foi para o Afeganistão lutar contra os soviéticos que invadiram o país em 1979. A notícia de que ele estava na região e os relatos a seu respeito provocaram uma avalanche de jovens entusiasmados com a causa. Ele era descrito como um herói que abandonou os palácios e o estilo de vida luxuoso de Jidá para juntar-se aos miseráveis afegãos. Foi daí que surgiu a Al Qaeda, que depois se ramificou por dezenas de países. Logo após a guerra no Afeganistão contra a União Soviética, Laden disse: "Essa guerra acabou com o mito de que as superpotências eram invencíveis. Isso aconteceu não só na minha cabeça como na de todos os muçulmanos". E continuou: "Nós achamos que os Estados Unidos são ainda mais fracos que a União Soviética". Deve ter mudado de idéia.

 
 
   
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