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A
derrota do terror
Reuters
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TALIBÃ
HUMILHADO
Derrotados na batalha de Mazar-e-Sharif, no norte do Afeganistão,
3 350 talibãs se amontoam num presídio da Aliança
do Norte: anistia não beneficiará estrangeiros recrutados
por Laden |

Acesso rápido |
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O
mulá Mohamed Omar, chefe do Talibã, convocou seus seguidores
a lutar até a morte em Kandahar, capital espiritual e última
fortaleza da milícia afegã. Pessoalmente, o Comandante dos
Fiéis, como o barbudo de um só olho é chamado, adotou
outra estratégia. Negociou com o inimigo a rendição
e fugiu da cidade no meio da noite, para evitar a inevitável punição
pelo barbarismo do regime que comandou. Ninguém sabe quantos homens
o acompanharam nessa jornada final mas isso não preocupa
ninguém, pois Omar é um personagem cuja importância
se esvai junto com seu regime. O que se viu foram bandos talibãs
aproveitando para saquear a cidade e escapar carregados de mercadorias
roubadas. Terminou assim, sem os propalados atos de martírio ou
heroísmo, o reinado da milícia que durante cinco anos impôs
um regime de pesadelo fanático à maioria dos afegãos.
A derrota do Talibã, agora reduzido a uns poucos bolsões
recalcitrantes, não é o fim da guerra no Afeganistão,
que continua dilacerado pelas rixas entre tribos e facções
guerreiras. Mas, no que diz respeito à campanha movida naquele
país pelos Estados Unidos, na sexta-feira passada só restava
completar um objetivo essencial: a captura ou morte de Osama bin Laden,
o homem que orquestrou os atentados contra Nova York e Washington em setembro.
Sem a proteção
do Talibã, Laden via-se, na sexta-feira passada, na condição
miserável de ser um fugitivo em meio à neve que cai nas
montanhas do sudeste do Afeganistão. No dia anterior, a soldadesca
da Aliança do Norte vasculhou Tora Bora, a fortaleza encravada
nas rochas, e tomou a principal base usada pelo terrorista saudita e sua
organização, a Al Qaeda. Esse complexo de cavernas a 56
quilômetros da cidade de Jalalabad foi construído com a ajuda
dos Estados Unidos, quando os afegãos combatiam as tropas soviéticas
nos anos 80. O conhecimento daquela época foi de grande ajuda,
pois permitiu nas últimas semanas que os bombardeiros B-52 acertassem
com grande precisão bombas poderosas no interior das cavernas.
Os bombardeios mataram o braço direito de Laden, o egípcio
Aiman al-Zawahiri, e, suspeita-se, outros caciques importantes do terror.
Mulheres e crianças, provavelmente familiares deixados para trás
pelos terroristas árabes, foram aprisionadas mas não
se viu sinal do terrorista-chefe. A suspeita, até a sexta-feira
à noite, era que ele tenha fugido em direção ao sul,
tentando alcançar a fronteira com o Paquistão. Ou, como
fizeram muitos combatentes estrangeiros, árabes e paquistaneses
na maioria, tivesse se entrincheirado em algum lugar alto, esperando por
uma oportunidade de escapar ao cerco. O terrorista não tem de se
preocupar apenas com os soldados das forças especiais americanas.
Dois chefes tribais competiam para ver qual deles iria capturar ou matar
Laden e reivindicar a recompensa de 25 milhões de dólares
oferecida pelo governo dos Estados Unidos.
Reuters
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AP
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FIM
DO SONHO
Voluntários estrangeiros que lutaram pelo Talibã detidos
no norte afegão: abandonados à própria sorte
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VITÓRIA
RÁPIDA
Fuzileiros em trincheiras perto de Kandahar: apoio logístico
às milícias anti-Talibã e poucas baixas no Afeganistão
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A derrocada
do Talibã ocorreu apenas três meses depois que os atentados
nos Estados Unidos iniciaram a guerra e dois meses após começarem
os bombardeios americanos no Afeganistão. É igualmente boa
notícia a comprovação de que o fanatismo do regime
e de seus hóspedes estrangeiros tornou-se tremendamente impopular
entre os afegãos. O Talibã foi um governante brutal. Seus
mulás tomaram ao pé da letra o memorável pronunciamento
do aiatolá Khomeini "Não há diversão
no Islã". Eles baniram as pipas, a música, a televisão
e proibiram as mulheres de estudar ou trabalhar. Os ladrões tinham
as mãos amputadas, adúlteras eram apedrejadas até
a morte e assassinos eram executados pessoalmente por familiares da vítima.
A guerra no Afeganistão foi cheia de surpresas. Até um legítimo
americano foi encontrado lutando ao lado dos talibãs. Nascido em
Washington, John Philip Walker Lindh, de 20 anos, que se converteu ao
islamismo aos 16, foi um dos oitenta sobreviventes da rebelião
talibã numa prisão perto de Mazar-e-Sharif, a principal
cidade na região norte do Afeganistão.
A vida pós-Talibã
também já começou a ser organizada. A maior dor de
cabeça é como pacificar o país de modo que deixe
de ser um terreno fértil para o surgimento e o treinamento de terroristas.
A dificuldade não reside na geografia difícil ou na pobreza
massacrante da maioria da população depois de duas décadas
de guerras. O problema real é a fragmentação do país
em tribos, clãs e facções rivais, todos querendo
tirar proveito da situação. Hamid Karzai, o homem que negociou
a rendição do mulá Omar, foi escolhido numa assembléia
de líderes afegãos na Alemanha como chefe de um governo
provisório. Sua missão é convocar dentro de seis
meses uma assembléia de líderes tribais, a Loya Jirga. Como
chefe do poderoso clã Popalzai, que por séculos esteve ligado
à realeza afegã, Karzai tem o pedigree certo para o cargo.
Bem à moda afegã, o acerto foi logo rejeitado por dois dos
mais poderosos chefes de milícia, cada um deles entrincheirado
em seu próprio feudo. Mal o Talibã depôs armas, guerreiros
de dois líderes tribais vitoriosos começaram a trocar tiros
nas ruas de Kandahar. Os Estados Unidos têm agora uma substancial
presença militar em solo, com dois milhares de soldados no país.
Mas eles devem manter-se distantes da anarquia afegã e se concentrar
no que realmente interessa: Osama bin Laden.
Fotos AP
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tos AP
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O
TALIBÃ AMERICANO
Walker, ao ser preso (à esq.), e com o pai antes de
entrar para o Talibã: convertido e fanático
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Nunca antes
uma personalidade foi apresentada ao mundo com tamanho estrondo quanto
Laden. Em poucos dias, o rosto moreno desse saudita se tornou conhecido
no mundo inteiro. Da infância de menino rico na Arábia Saudita
ao comando de uma rede terrorista de dimensões globais, a trajetória
de Laden desperta a curiosidade geral. Poucos ocidentais o conhecem tão
bem quanto o jornalista americano Peter Bergen. Produtor da rede de televisão
CNN, ele encontrou o milionário saudita no início de 1997,
para uma entrevista feita pelo premiado repórter Peter Arnett.
Desde então, Bergen conduziu uma grande investigação
sobre os bastidores da Al Qaeda e a vida do homem mais procurado do mundo.
Em sua edição de dezembro, a revista americana Vanity
Fair publicou trechos de um livro sobre o assunto escrito por Bergen
que estará em breve nas livrarias. No texto, ele conta detalhes
do encontro que teve com Laden nas montanhas do Afeganistão. Ao
desembarcar no aeroporto de Islamabad, a equipe de TV entrou numa van
para atravessar a fronteira com o Afeganistão. Três homens
armados fecharam as cortinas do carro onde estavam os jornalistas e perguntaram
se estavam usando um rastreador. Disseram que se estivessem com o aparelho
e contassem a verdade não haveria problemas. Caso contrário,
seriam executados. Depois de passar por um terreno montanhoso, a equipe
chegou a um pequeno platô.
Reuters
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AMIGO
DO REI
Hamid Karzai, chefe de clã e ligado ao rei exilado: no comando
de um governo provisório |
Osama bin
Laden apareceu por volta da meia-noite, acompanhado de um tradutor e vários
guarda-costas. Entrou apoiado numa bengala e usava um turbante. Sobre
a túnica, vestia uma jaqueta camuflada. Sentou-se próximo
de um rifle Kalashnikov. "Ele pertencia a um russo que matei", disse Laden.
Como era de esperar, começou a discursar sobre as injustiças
cometidas contra os muçulmanos e sobre como seu país, a
Arábia Saudita, prejudicava o islamismo por ser leal aos Estados
Unidos. Com uma tosse fraca e intermitente, falava enquanto tomava chá.
Disse que os Estados Unidos eram responsáveis pela morte de palestinos,
libaneses e iraquianos, entre outros cidadãos do mundo árabe.
Por isso, declarara guerra santa aos americanos. A seguir, veio a descrição
de seu ideal de globalização: a restauração
de um grande califado do porte do que fora, um dia, o Império Otomano,
desfeito depois da I Guerra.
Bergen conta
que Laden surpreendeu a todos quando admitiu que árabes ligados
a seu grupo terrorista estavam envolvidos na morte de tropas americanas
na Somália, em 1993. Com a graça de Alá, Laden disse,
muçulmanos na Somália cooperaram com alguns guerreiros árabes
no combate que matou dezoito soldados americanos. Depois da entrevista,
o líder saudita serviu gentilmente à equipe uma xícara
de chá e posou de forma muito simpática para fotos. Tendo
herdado do pai empreiteiro uma fortuna apreciável, Laden resolveu
abandonar a vida de ricaço na Arábia Saudita e aos 22 anos
foi para o Afeganistão lutar contra os soviéticos que invadiram
o país em 1979. A notícia de que ele estava na região
e os relatos a seu respeito provocaram uma avalanche de jovens entusiasmados
com a causa. Ele era descrito como um herói que abandonou os palácios
e o estilo de vida luxuoso de Jidá para juntar-se aos miseráveis
afegãos. Foi daí que surgiu a Al Qaeda, que depois se ramificou
por dezenas de países. Logo após a guerra no Afeganistão
contra a União Soviética, Laden disse: "Essa guerra acabou
com o mito de que as superpotências eram invencíveis. Isso
aconteceu não só na minha cabeça como na de todos
os muçulmanos". E continuou: "Nós achamos que os Estados
Unidos são ainda mais fracos que a União Soviética".
Deve ter mudado de idéia.
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