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Edição 1 730 - 12 de dezembro de 2001
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Um domingo no Rio

"Mais de 400 pessoas tentam ganhar
a vida no calçadão de Copacabana.
Depois dizem que carioca não gosta
de trabalhar"

Em Copacabana, no domingo retrasado, fiquei deslumbrado com um artista de rua chamado Popular Fabinho. Como ele mesmo diz, sua especialidade é fazer embaixadinhas com frutas, legumes e objetos vários. Sem deixar cair, passa dos pés para as coxas, das coxas para os ombros e dos ombros para a nuca abóboras, laranjas, bananas, bolinhas de tênis, bolinhas de gude, até chegar a chumbinhos de poucos milímetros de diâmetro. Ele afirma inclusive ter batido o recorde mundial de embaixadinhas com bolas de pingue-pongue, em Buenos Aires, no ano passado. Ao término do espetáculo, pediu uns trocados, acrescentando que era uma maneira de estimular a cultura nacional e que era melhor viver de embaixadinhas do que roubar e matar. Dei-lhe logo 5 reais. Os outros espectadores foram igualmente generosos.

Passei a semana com o espetáculo de Popular Fabinho na cabeça. Falei de suas proezas para um monte de gente. Descobri que, como indica seu nome artístico, ele de fato é muito popular no Rio de Janeiro. Todos os cariocas que freqüentam o calçadão de Copacabana o conhecem. Ele costuma ser chamado para animar festas de crianças. Eu, se pudesse, o contrataria em período integral. Assistiria a umas embaixadinhas durante o café da manhã, outras nas pausas de trabalho, outras antes de dormir. No último domingo, entusiasmado com a perspectiva de vê-lo novamente, peguei a bicicleta e saí à sua procura.

Do Forte de Copacabana até o Hotel Méridien são cerca de 4 quilômetros de calçadão. Ao longo do trajeto, parando de vez em quando para tomar uma água-de-coco, deparei com um espetáculo de cachorros adestrados, dois escultores de areia, uns capoeiristas esotéricos que lêem a sorte dos passantes, uma estátua viva figurando um retirante e um cômico pernambucano vestido de mulher que se apresenta com o nome de Jerusa Carne-Seca. Também cruzei com 23 vendedores de óculos escuros, dezoito de chapéus, doze de camisetas de times de futebol, nove de cangas, sete de biquínis, sete de bijuterias, seis de churros recheados, quatro de queijo coalho, quatro de milho verde, quatro de mel, três de amendoim torrado, três de chinelos, dois de churrasquinho, dois de espetinhos de camarão, dois de cubos de gelo. Mas não foi só. Vi também gente oferecendo bicicletas de aluguel, carrinhos elétricos para crianças, ingressos gratuitos para o teatro, cursos de vôlei de praia, CDs de violão, massagens shiatsu, medições de colesterol, de pressão arterial e de glicose capilar, tatuagens, rádios portáteis, cachimbos para maconha e vasos feitos com casca de coco.

O único que não estava lá era meu ídolo, Popular Fabinho. Paciência. Sou persistente. Voltarei na semana que vem. Do meu passeio, resta a constatação de que, no último domingo, em Copacabana, expressão máxima do hedonismo nacional, sob um sol de 35 graus, havia mais de 400 pessoas tentando ganhar a vida no calçadão, sem contar os policiais de bermuda, os pedintes, os catadores de latas, as garotas de programa abraçadas a turistas estrangeiros, os funcionários dos 54 quiosques espalhados pela orla e as centenas ou os milhares de ambulantes que vendem sorvete, bronzeador e chá gelado na areia. Depois dizem que carioca não gosta de trabalhar.

 
 
   
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