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Um
domingo no Rio
"Mais
de 400 pessoas tentam ganhar
a vida no calçadão de Copacabana.
Depois dizem que carioca não gosta
de trabalhar"
Em Copacabana,
no domingo retrasado, fiquei deslumbrado com um artista de rua chamado
Popular Fabinho. Como ele mesmo diz, sua especialidade é fazer
embaixadinhas com frutas, legumes e objetos vários. Sem deixar
cair, passa dos pés para as coxas, das coxas para os ombros e dos
ombros para a nuca abóboras, laranjas, bananas, bolinhas de tênis,
bolinhas de gude, até chegar a chumbinhos de poucos milímetros
de diâmetro. Ele afirma inclusive ter batido o recorde mundial de
embaixadinhas com bolas de pingue-pongue, em Buenos Aires, no ano passado.
Ao término do espetáculo, pediu uns trocados, acrescentando
que era uma maneira de estimular a cultura nacional e que era melhor viver
de embaixadinhas do que roubar e matar. Dei-lhe logo 5 reais. Os outros
espectadores foram igualmente generosos.
Passei a
semana com o espetáculo de Popular Fabinho na cabeça. Falei
de suas proezas para um monte de gente. Descobri que, como indica seu
nome artístico, ele de fato é muito popular no Rio de Janeiro.
Todos os cariocas que freqüentam o calçadão de Copacabana
o conhecem. Ele costuma ser chamado para animar festas de crianças.
Eu, se pudesse, o contrataria em período integral. Assistiria a
umas embaixadinhas durante o café da manhã, outras nas pausas
de trabalho, outras antes de dormir. No último domingo, entusiasmado
com a perspectiva de vê-lo novamente, peguei a bicicleta e saí
à sua procura.
Do Forte
de Copacabana até o Hotel Méridien são cerca de 4
quilômetros de calçadão. Ao longo do trajeto, parando
de vez em quando para tomar uma água-de-coco, deparei com um espetáculo
de cachorros adestrados, dois escultores de areia, uns capoeiristas esotéricos
que lêem a sorte dos passantes, uma estátua viva figurando
um retirante e um cômico pernambucano vestido de mulher que se apresenta
com o nome de Jerusa Carne-Seca. Também cruzei com 23 vendedores
de óculos escuros, dezoito de chapéus, doze de camisetas
de times de futebol, nove de cangas, sete de biquínis, sete de
bijuterias, seis de churros recheados, quatro de queijo coalho, quatro
de milho verde, quatro de mel, três de amendoim torrado, três
de chinelos, dois de churrasquinho, dois de espetinhos de camarão,
dois de cubos de gelo. Mas não foi só. Vi também
gente oferecendo bicicletas de aluguel, carrinhos elétricos para
crianças, ingressos gratuitos para o teatro, cursos de vôlei
de praia, CDs de violão, massagens shiatsu, medições
de colesterol, de pressão arterial e de glicose capilar, tatuagens,
rádios portáteis, cachimbos para maconha e vasos feitos
com casca de coco.
O único
que não estava lá era meu ídolo, Popular Fabinho.
Paciência. Sou persistente. Voltarei na semana que vem. Do meu passeio,
resta a constatação de que, no último domingo, em
Copacabana, expressão máxima do hedonismo nacional, sob
um sol de 35 graus, havia mais de 400 pessoas tentando ganhar a vida no
calçadão, sem contar os policiais de bermuda, os pedintes,
os catadores de latas, as garotas de programa abraçadas a turistas
estrangeiros, os funcionários dos 54 quiosques espalhados pela
orla e as centenas ou os milhares de ambulantes que vendem sorvete, bronzeador
e chá gelado na areia. Depois dizem que carioca não gosta
de trabalhar.
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