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Sérgio Abranches

O tango da insensatez

"Corrida bancária é sinal de
desconfiança. Para estancá-la,

Cavallo usa
um remédio que
gera mais
desconfiança"


Ilustração Ale Setti


Barbara Tuchman, em seu famoso livro de 1984, traduzido no Brasil por A Marcha da Insensatez, diz que a insistência de governos em políticas contrárias a seus próprios interesses tem sido um fenômeno recorrente na história. Por que pessoas com poder político de decisão agem de forma contrária à que sugere a razão e que atenderia melhor a seus interesses? A historiadora atribui esse desgoverno a quatro causas: tirania ou opressão; ambição desmedida; incompetência; insensatez ou teimosia.

Quando Domingo Cavallo assumiu o Ministério da Economia, a Argentina já vinha em recessão desde o final do governo Menem. De lá para cá, o desemprego aumentou de 13,8% para mais de 18% – número que o governo deve anunciar nos próximos dias. O índice de atividade industrial caiu 10%. O "risco Argentina" saiu de 890 pontos, quando José Luis Machinea foi derrubado pela crise, e jamais voltou a esse patamar na gestão de Cavallo: atingiu 1.700 pontos no lançamento do pacote "déficit zero" e agora está na casa dos 4.000. Nesta altura de risco, Cavallo pilota a nave argentina, desgovernada por seu nono pacote. A manutenção de uma política cujo único resultado é a deterioração social e econômica, para manter a paridade de 1 para 1 entre o peso e o dólar, diante das evidências todas de que ela é insustentável, é um caso clínico fatal de insensatez, teimosia e uma boa dose de incompetência.

Desde que as províncias passaram a emitir papéis para pagamento de salários, impostos e compras em geral, ficou de fato liberada a emissão de moeda – direito que nem o BC teria pela "lei da convertibilidade" –, instalando-se a desordem monetária na Argentina. Pouco antes do racionamento de moeda, imposto sob a forma de dolarização de ativos e passivos com restrições aos saques, havia catorze moedas provinciais circulando no país. Eram trocadas no câmbio negro por pesos e dólares, que iam sumindo de circulação, a diferentes taxas. Um cecacor, por exemplo, emitido pela Província de Corrientes, era trocado por 50% de seu valor em 17 de novembro e, menos de um mês depois, já sofria deságio de 60%. Como são as únicas disponíveis no momento, essas moedas podem se valorizar, mas será por pouco tempo.

O valor de cada uma delas é dado por seu grau de aceitação no mercado e pela credibilidade, influência e poder de seu emissor. Por isso o patacón, moeda da Província de Buenos Aires, tem o maior valor e chegou a superar, em algumas trocas nos últimos dias, o próprio peso. É que seu emissor, o governador Carlos Ruckauf, é visto como a liderança emergente do Partido Justicialista e provável vencedor das eleições de 2003, se elas não ocorrerem antes, por vacância do cargo presidencial. O mercado vai criando desvios para escapar aos bloqueios impostos pela ação discricionária do governo. Mas não marcha necessariamente na direção de uma nova ordem. Pode ir apenas se adaptando a sucessivos patamares de desordem.

Há quem tente dourar a pílula amarga das últimas medidas, que já travaram o comércio varejista e levarão o país, em qualquer hipótese, a níveis ainda mais profundos de depressão econômica e social. O custo será tanto maior quanto mais Cavallo insistir em seus ajustes que desajustam. Eles não fazem sentido algum, pelo menos sociologicamente falando. O racionamento veio para interromper a sangria bancária, que, só na sexta-feira anterior ao decreto – e porque ele já era esperado –, foi de 1,5 bilhão de dólares. Corrida bancária é sinal de desconfiança. Para estancá-la, Cavallo usa um remédio que gera mais desconfiança. Para manter a paridade, ele impede a convertibilidade, eliminando a liberdade de câmbio.

A saída dessa armadilha só será possível com a extinção do peso e a criação de uma nova moeda não-conversível. A dolarização não é sustentável, só aumentaria a escassez de moeda e a recessão. Se Cavallo finalmente desvalorizasse agora, com a desconfiança maior e muito menos reservas que quando assumiu, produziria uma megadesvalorização, que resultaria em fortes perdas adicionais de salário real e mais desemprego.

A insensatez submeteu a Argentina a um garrote vil. A cada volta do torniquete que estrangulou o país, não faltaram economistas e funcionários do FMI e do Banco Mundial para dizer que o governo argentino estava na direção certa. E estava: 100% certo na direção errada, da desordem econômica e monetária e da depressão social. Mas, alerta, a marcha da insensatez começou com um peronista, Carlos Menem, e a ambição da reeleição.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)



 
 
   
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