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Buenos Aires não
é aqui
AFP

Crise
argentina: o inferno econômico do vizinho ficou do outro lado
da fronteira
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Como naquela
anedota que diz tanto sobre a falta de conhecimento de geografia dos americanos,
para boa parte dos analistas a capital do Brasil continuava sendo Buenos
Aires. De algumas semanas para cá, aprofundou-se a percepção
de que o Brasil é diferente de seus vizinhos da América
Latina e, em especial, de seu sócio principal no Mercosul, a Argentina.
Enquanto na semana passada o governo argentino se contorcia para adiar
o desenlace de sua crise, o dólar no Brasil era negociado na quinta-feira
em sua cotação mais baixa em quatro meses. Enquanto os títulos
emitidos pelo governo argentino só encontravam compradores no exterior
com a promessa de pagar 40% de juros acima da taxa cobrada nos Estados
Unidos, os papéis brasileiros eram aceitos por compradores em troca
de uma remuneração de 8% acima do custo do dinheiro nos
EUA. Como no caso do dólar, essa diferença de tratamento
é uma indicação significativa de que o mercado não
está mais associando o Brasil à Argentina com o automatismo
pavloviano de antes.
É
uma excelente notícia para os brasileiros. Essa nova situação
não garante imunidade contra as ondas de choque do anunciado desastre
argentino. Certamente, o desenlace da crise platina vai tumultuar a vida
econômica no Brasil. Mas há uma quase unanimidade entre os
analistas de que seus efeitos negativos, ainda que fortes, serão
passageiros. Por paradoxal que pareça, esse divórcio de
imagem entre Brasil e Argentina é um passo necessário para
a inevitável e, felizmente, desejável convergência
das economias latino-americanas. Nos próximos anos, os países
latinos terão de defrontar com o desafio da criação
de um bloco comercial continental com a presença hegemônica
dos Estados Unidos. Nesse cenário, o reconhecimento do Brasil como
um país sólido politicamente e de economia mais estável
que as dos vizinhos somadas será muito vantajoso para todos. Em
contrapartida, a liderança vai atrair críticas e exigir
de governo e oposições um compromisso muito maior com a
governabilidade. Veja reportagem.
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