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![]() O mineiro Daniel, aflito com a concorrência em engenharia: três cursinhos ao mesmo tempo |
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| Foto: Eugenio Savio |
Fim do namoro
A estudante gaúcha Marina Dornelles
Camargo, 16 anos, matriculou-se em um cursinho em agosto e passou a estudar como alucinada
para concorrer a uma vaga no curso de arquitetura. Só conseguia ver o namorado no final
de semana. "Ele ia jantar lá em casa e eu dormia em cima da mesa", lembra ela.
O resultado foi o fim de um namoro de três anos. Por causa dos estudos, Marina também
abandonou as aulas de natação, que praticava três vezes por semana desde os 10 anos.
Para completar, ficou com anemia. "O médico disse que eu precisava de uma
alimentação balanceada, mas eu mal tenho tempo para engolir a comida", exagera.
Djalmira Dornelles, mãe de Marina, até já se habituou com a agenda da filha. À noite,
antes de dormir, ela passa pelo quarto da moça para removê-la, adormecida, de cima dos
livros e depositá-la na cama.
Entre os vestibulandos, outro grande problema é o vizinho de cadeira, aquele estudante que se senta ao lado na escola ou no cursinho e que, como ele, também quer uma vaga na faculdade. Como 45% dos inscritos querem estudar medicina, direito, administração ou engenharia, é alta a chance de dois estudantes que se sentam juntos serem concorrentes. "Os alunos não são amigos. Não se ajudam nem na hora dos exercícios. Para eles, o vizinho é um adversário", diz o professor de biologia Dan Pinsetta, de São Paulo. Nos cursinhos, onde essa relação de concorrência com o vizinho é maior que na escola, a tensão pré-vestibular é assustadora. É freqüente que os alunos gritem "Aula!" quando o professor faz uma gracinha. Ninguém quer perder tempo. "Enquanto você está aqui tem um japonês estudando", diz uma inscrição deixada na parede do banheiro de um cursinho no Paraná. É uma piada, mas serve para mostrar como os candidatos não conseguem pensar em outra coisa. Até o humor tem a angústia do vestibular como fundamento. "O vestibular é uma das três grandes causas de stress na sociedade. As outras duas são morte de parente e desemprego", diz o psiquiatra Henrique Schützer Del Nero, do Instituto de Pesquisas Avançadas da Universidade de São Paulo.
Luxo de elite
O vestibular é mais que um exame.
Enquanto está no colégio, o aluno até pode ir mal numa prova, pois o que conta é sua
média anual. Com o vestibular, não. Quem for mal sabe que só terá outra chance dali a
um ano. Como se não bastasse, o teste resume os conhecimentos de uma vida de estudo num
único dia. Ou seja, os oito anos do 1º grau e os três do 2º grau são aferidos num
domingo, e qualquer dor de cabeça ou indisposição estomacal pode destroçar o
desempenho. Só avança para a segunda fase das provas, a dos exames escritos, quem
ultrapassa a barreira dos testes de múltipla escolha. É um tipo de avaliação perversa
em que agilidade pode contar mais que conhecimento. Um candidato que conhece todas as
respostas mas precisaria de quinze minutos a mais do que o tempo regulamentar para
assinalá-las arrisca-se a perder a vaga para alguém com menos conhecimento mas capaz de
entender-se melhor com o relógio. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, há um teste depois
do 2º grau, mas a avaliação depende de várias outras coisas, entre elas o histórico
escolar, cartas de recomendação e o resultado de entrevistas na universidade. Nada é
resolvido apenas numa tarde quente de domingo, como no Brasil. Na França, quem conclui o
2º grau tem direito à faculdade desde que seja capaz de agüentar o ritmo puxado dos
estudos superiores, responsável pelo abandono do curso por mais da metade dos
matriculados. Isso é muito diferente dessa tourada anual que exclui tantos jovens da
faculdade.
O problema adquire contornos mais carregados quando se examina o papel da faculdade na expectativa profissional dos jovens. No início do século, universidade no Brasil era um luxo da elite. Em 1960, somente 1% da população possuía curso superior. Com a industrialização do país, esse perfil mudou. "A faculdade, hoje, é a tábua de salvação das famílias de classe média, que não conseguem acumular benc e `recisam recompor seu patrimônio a cada geração", explica a socióloga Gisela Taschner, da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. Atualmente, 8% dos brasileiros possuem diploma universitário. "A universidade é valorizada porque, no mundo de hoje, o capital do cidadão médio é sua escolaridade", completa Gisela. Para as famílias que se equilibram com dificuldade entre a prestação da casa e a possibilidade de trocar de carro no final do ano, a faculdade dos filhos é o único patrimônio que se pode deixar. Para os filhos das famílias humildes, o diploma é uma das poucas esperanças de ascensão social.
A estudante Jordana Costa Soares, 21 anos, moradora de Osasco, cidade localizada na periferia de São Paulo, prestou no ano passado vestibular para fonoaudiologia na Pontifícia Universidade Católica, particular, e na Universidade de São Paulo, pública. Passou apenas na primeira e, por falta de dinheiro para bancar o curso, teve de se conformar com mais um ano de espera. "Meus pais não podem pagar uma mensalidade de 730 reais. Que alternativa eu tenho senão esperar?", lamenta. A preocupação de Jordana, desta vez, é controlar os nervos. Ela acredita que só não foi aprovada na Fuvest porque tremeu na base, e não quer repetir o erro. "Fico muito encucada com meus pais. Eles não me cobram nada, mas fico sempre com a sensação de que devo algo à minha família. Sei que eles fazem muito sacrifício para pagar o cursinho e penso no que pode acontecer se eu falhar novamente." De todas as vagas abertas nas universidades brasileiras, 75% estão em escolas privadas. E nas públicas, geralmente melhores, a maioria dos aprovados é de classe média ou alta. Na Fuvest, 65% dos aprovados em 1997 estudaram em colégios particulares, 62% possuem computador em casa e 55% são filhos de pais com curso superior.
Carro de presente
A preocupação com a família, com o que
"eles" vão pensar, é um dos grandes motores de stress pré-vestibular. E cada
um trabalha isso como pode. Alguns pais tentam ajudar estudando com os filhos, outros
cobram desempenho com fervor e um terceiro grupo prefere acompanhar a crise deles a
distância, com medo de atrapalhar. Mas nenhum pai toma essas decisões com segurança (veja quadro). A família de Ana Carolina Smith, de 18 anos,
candidata a uma vaga no curso de direito em São Paulo, mobilizou-se para apoiá-la. A
mãe dispensou sua ajuda em tarefas domésticas, os irmãos foram proibidos de
incomodá-la quando ela estiver estudando e ficaram suspensas as viagens do clã para o
litoral nos finais de semana. Mesmo assim, Ana não consegue concentrar-se no estudo. Às
vezes chega em casa cansada e passa boa parte do dia ouvindo música. Ou interrompe o
exercício de matemática para descrever na sua agenda as angústias que sente em
relação ao namorado ou ao vestibular. "Não tenho mais sossego. Agora, quando tenho
tempo livre, sou obrigada a estudar", reclama Ana Carolina Smith. No último simulado
que fez, ela acertou apenas 30% das perguntas, bem abaixo da média necessária. "Fiz
o 2º grau em um colégio meio fraco. Mas não imaginava que era tanto assim",
protesta, entre as dezenas de ursos de pelúcia que se amontoam em seu quarto.
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A paulistana Ana Carolina em seu quarto, entre os bichos de pelúcia: "Não tenho mais sossego" | ![]() |
| Foto: Egberto Nogueira |
Em Natal, há duas semanas, os pais de vestibulandos pagaram para que seus filhos fossem assistir a uma palestra do mestre da auto-ajuda Lair Ribeiro, que reuniu 8.000 jovens num ginásio de esportes. Lair Ribeiro lançou em abril o livro Como Passar no Vestibular, uma coleção de conselhos para injetar autoconfiança nos estudantes. Vendeu 80.000 exemplares em seis meses. Na palestra, repetiu seus conselhos otimistas. "Seja ambicioso, faça sua mira na Lua. Se você errar, ainda vai estar entre as estrelas", disse Ribeiro. Para a maioria, o otimismo não parece ser suficiente. A pedagoga carioca Maria Ester de Souto Wanderley paga 2,30 reais por hora de estudo do filho Clóvis, de 19 anos, que quer ser economista. Com o incentivo, ele passou a estudar quatro horas por dia e engordou a mesada em 150 reais. Além do prêmio por hora, Clóvis tem no horizonte uma boa bonificação. "Se eu passar, ganho um Vectra", diz, com os olhos brilhando. "Os adolescentes de hoje são filhos de pais liberais, incapazes de dizer não", diz a educadora Tânia Zagury, do Rio de Janeiro, especialista em lidar com adolescentes. "Esses jovens não foram programados para sofrer frustração. Por isso o vestibular é tão assustador para eles. No vestibular, qualquer jovem corre o risco de ouvir um não", acrescenta Tânia.
![]() Lair Ribeiro, o papa da auto-ajuda, investe no mercado: 80.000 livros vendidos |
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| Foto: Paulo Francisco |
"Ritual de passagem"
Para combater a ansiedade em casa, um
colégio tradicional de São Paulo, o Bandeirantes, campeão em aprovação em vestibular,
implantou um programa de acompanhamento psicológico para alunos e pais às vésperas do
exame. Num final de semana, reúne os alunos e, por meio de conversa, confecção de
cartazes e vídeos, discute com eles suas tensões e angústias. No outro fim de semana,
os pais são chamados a discutir o estado emocional dos filhos. A pressão psicológica
sofrida por jovens e adultos é mais do que compreensível. Até os anos 60, entrar na
faculdade era um prêmio extra para um número relativamente restrito de jovens. Para a
classe média, o 2º grau era aceitável. Atualmente, uma parcela crescente da classe
média sente-se obrigada a cursar uma faculdade, como quem fazia o ginásio no passado.
Até para exercer cargos burocráticos nos departamentos administrativos das empresas já
se recomenda um diploma em curso superior. Para os melhores cargos, o critério de
desempate entre os candidatos já começa a ser o mestrado ou o doutorado. Portanto, não
entrar na faculdade significa ser passado para trás
e distanciar-se dos amigos que conseguiram avançar. O
paulista Luiz Frederico Martins, de 19 anos, está preocupadíssimo em passar na segunda
tentativa no vestibular de medicina, porque todos os seus amigos entraram no primeiro
exame, enquanto ele fracassava no teste. "Perdi o contato com eles, mesmo porque não
tenho mais assunto. Eles conversam como gente normal, eu só falo e só penso nas
perguntas da prova." A socióloga Gisela Taschner, da Fundação Getúlio Vargas,
define a prova com bastante clareza: "O vestibular cumpre uma função extra, além
de selecionar os alunos. Ele é um ritual de passagem, como aqueles que, nas tribos
indígenas, servem para indicar que o indivíduo abandonou a infância e entrou no mundo
dos adultos".
O brasiliense Raphael, que
não passou no teste simulado: madrugadas regadas a guaraná em pó |
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| Fotos: Ana Araujo |
De olho na ansiedadeEste teste foi elaborado pelo psiquiatra Henrique Schützer Del Nero, coordenador do grupo de ciência cognitiva do Instituto de Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo, para avaliar o grau de ansiedade em pessoas submetidas a stress psicológico. O autor avisa que ele não é um diagnóstico médico, e, sim, uma indicação do estado em que o candidato se encontra às vésperas do exame. Dependendo do resultado, porém, é recomendável procurar orientação médica. Responda a cada uma das treze perguntas abaixo, lembrando se você sentiu algum dos sintomas nas últimas duas a quatro semanas. Faça um X nas alternativas 0, 1 ou 2. Marque 0 se a resposta for "não". Marque 1 se a resposta for "eventualmente" ou "às vezes". Marque 2 se a resposta for um "sim" categórico. Ao terminar, some os pontos obtidos e confira o resultado
RESULTADO
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Com reportagem de Daniela Pinheiro, de Brasília, Cândida Silva, de Salvador, Rachel Verano, de Minas Gerais, Alexandre Oltramari, de Porto Alegre e Daniel Nunes Gonçalves, de São Paulo
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