Previdência

A grande caçada

Como Jorgina de Freitas, a advogada das
fraudes do INSS, foi parar atrás das grades

Policarpo Júnior e Virginie Leite

Às 16h35 de segunda-feira da semana passada, o governo brasileiro pôde comemorar uma façanha rara a prisão de um peixe gordo que, após dar um golpe milionário, fugira para o exterior. Foi nesse horário que o embaixador brasileiro na Costa Rica, João Carlos de Souza Gomes, foi avisado pela Justiça daquele país que a advogada Jorgina Maria de Freitas, de 47 anos, se havia entregado. Condenada a catorze anos de prisão pela Justiça do Rio de Janeiro e a doze pela Justiça federal, por fraudes contra o INSS, Jorgina aguarda, na cadeia, o julgamento do pedido de extradição feito pelo governo brasileiro. A rendição de Jorgina é o capítulo final de uma história de fuga e perseguição que começou em 1992, quando a advogada foi condenada pela primeira vez, ao lado de 17 cúmplices, entre eles um juiz de direito. Era uma época em que o país era governado por Fernando Collor de Mello e o escândalo de corrupção que o derrubou da Presidência estava no início. A busca, localização e perseguição da advogada foi uma aventura policial de cinco anos e mobilizou autoridades de primeiro e segundo escalão. Nos Estados Unidos, até a secretária de Justiça, Janet Reno, decidiu colaborar na investigação sobre Jorgina. Na Costa Rica, foi o presidente da República, José Maria Figueres, quem autorizou a entrada de dois agentes da Polícia Federal encarregados de prendê-la.

A advogada deixou o Brasil pelas mãos de um mafioso chileno que, um ano mais tarde, prestaria serviços ao tesoureiro de Collor, Paulo César Farias. José Ramón Irribarra Moreno a levou de jatinho para o Paraguai, de onde ela seguiu para a Argentina. Lá, ela descansou até ganhar o mundo. Instalou-se em Miami, passou por Portugal e Espanha e fixou residência na Costa Rica em 1994. No exterior, Jorgina fez operação plástica e adotou vários codinomes. Foi "Gutierrez", "senhora De Freitas", "Esmeralda" e "dom Jorge". Contratou mercenários nicaragüenses como seguranças, aliou-se a mafiosos latino-americanos e montou uma rede de empresas de fachada em paraísos fiscais que facilitaram o trânsito do dinheiro. Segundo cálculos do Tribunal de Justiça do Rio, ela ficou com 112 dos 500 milhões de dólares desviados da Previdência Social. Mas, ao contrário do que ocorreu com PC Farias, encontrado por acaso por um executivo brasileiro na Tailândia, Jorgina nunca teve sossego. O embaixador do Brasil em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, começou a correr atrás dos rastros de Jorgina em janeiro de 1994, a partir de um pedido do desembargador Doreste Baptista, do Tribunal de Justiça do Rio. Baptista informou à embaixada ter indícios de que Jorgina estava em Miami.

A informação foi confirmada depois por uma mulher que, dizendo-se ex-faxineira de Jorgina, revelou à então consulesa do Brasil em Miami, Vera Machado, que a antiga patroa mantinha uma conta no banco Merrill Lynch. A mulher, cujo nome é mantido em sigilo pelo Itamaraty, agiu por vingança. Ela dizia não ter recebido de Jorgina o combinado. Pela riqueza de detalhes que forneceu, diplomatas brasileiros acreditam que a informante fazia mais do que limpar a casa de Jorgina. Talvez auxiliasse a patroa na lavagem do dinheiro do INSS. Movimentando-se pelos gabinetes do governo americano, Flecha de Lima encontrou-se com a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Janet Reno. "Ela comentou que parecia caso da máfia russa", recorda o embaixador. De olho no resgate de milhões de dólares, a embaixada contratou uma das mais renomadas bancas de advogados dos Estados Unidos, a Arnold & Porter, e entrou com uma ação contra Jorgina. Em janeiro deste ano, o Brasil ganhou a causa.

Escuta telefônica Até a semana passada, o governo brasileiro já tinha localizado e confiscado 10 milhões de dólares em bancos do exterior. No início deste ano, usando um advogado como intermediário, Jorgina tentou um acordo absurdo com Flecha de Lima: voltaria ao Brasil desde que fosse indenizada em 1 milhão de dólares, pelas agruras jurídicas que sofreu estava se referindo, certamente, ao sofrimento de roubar 112 milhões de dólares e não poder gastar tudo de uma vez sem dar na vista , e que todos os processos contra ela fossem anulados. Flecha de Lima respondeu à altura: disse que o Brasil queria seu retorno ao país e iria trazê-la de volta na cadeia. O empenho em capturar Jorgina uniu os esforços do Itamaraty com os da Polícia Federal. A atuação da PF foi decisiva na etapa inicial, de localização dos parentes de Jorgina, e também na etapa final, quando se entregou. Após dois anos de tentativas, em agosto passado a Polícia Federal foi autorizada a despachar dois agentes para a Costa Rica. A autorização foi dada às vésperas da visita do presidente costarriquenho ao Brasil que resolveu antecipar-se a um provável apelo de Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto os policiais brasileiros desembarcavam em San José, no Brasil a Polícia Federal prendia o irmão de Jorgina, Francisco Antônio, envolvido em estelionato. "A nossa tática foi cercá-la e lançar a isca com a prisão de seu irmão", diz o diretor da PF, Vicente Chelotti. "E ela mordeu." Com autorização judicial, a polícia grampeou os telefones dos familiares de Jorgina. No dia 15 de outubro, a PF interceptou uma ligação entre uma das irmãs de Jorgina, Ana Nery, e um costarriquenho. O homem falava em nome de "Gutierrez" e pedia informações sobre a prisão de Francisco. Pelos telefonemas seguintes, os policiais souberam que Gutierrez era apenas um codinome de Jorgina. Também descobriram que ela preparava uma entrevista ao repórter Roberto Cabrini, da Rede Globo, que foi ao ar no dia 31 de outubro.

O Departamento de Inteligência e Segurança, DIS, a PF da Costa Rica, conseguiu cooptar um membro do esquema de segurança da advogada. As informações colhidas no grampo eram checadas com esse informante e Jorgina foi ficando cada vez mais perto. A PF rastreou a origem de todas as chamadas telefônicas da Costa Rica, localizou os endereços e a turma passou a ser vigiada dia e noite. Um novo telefonema no dia 20 de outubro mostra que os policiais estavam na pista certa. "Sabe o que está acontecendo?", perguntou um interlocutor numa conversa com a irmã Ana. "O cerco está se fechando." Ana perguntou por novidades e ouviu: "O risco de ser pego está muito próximo", prosseguiu o contato. Duas semanas depois, quando a polícia acreditava que iria prendê-la em questão de horas, Jorgina resolveu se entregar antes.



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